O que se pode esperar do amanhã?

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José-Renato-Nalini-179x154Dos sete bilhões de pessoas que vivem no planeta, cinco bilhões têm mais de quinze anos. Destas cinco bilhões, três bilhões trabalham ou quer trabalhar. A maior parte delas querem um emprego formal de jornada plena. O problema é que hoje existem apenas 1,2 milhões de empregos formais no mundo. Faltam 1,8 milhões de ocupações, ou seja, praticamente um quarto da população mundial.

Tal quadro, na visão de Jim Clifton[1], Chairman of Gallup, é algo mais preocupante do que problemas ecológicos, de segurança ou de fundamentalismos. As lideranças educadoras precisam estar conscientes disso.

Todos temos percepção de que a escola hoje não atrai o aluno e não consegue fidelizá-lo às suas finalidades. Principalmente aqueles já providos de discernimento – a faixa do Ensino Médio – criticam o excesso de disciplinas, o sistema de aulas prelecionais, a distribuição física dos lugares em classe. O conteúdo ministrado não tem pertinência com seus interesses nem com a vida real. Daí o flagelo da evasão, que assusta, preocupa e suscita infindáveis debates.

A profunda mutação da sociedade afetou a família, o convívio, a comunicação, o consumo e os valores. A escola se propõe a entender e até a usar as tecnologias. Todavia, o ritmo da evolução tecnológica se mede a anos-luz e a capacidade de assimilação de uma instituição tradicional como a escola caminha na velocidade dos carros de boi.

As potencialidades essenciais para o futuro não são desenvolvidas no sistema de ensino que vigora na maior parte das instituições de ensino. Somos pródigos e pretensiosos no discurso, comedidos e limitados na prática.

Verdade que as tecnologias disponíveis contribuem para a implementação de uma aprendizagem ao longo da vida, conceituada pela Unesco – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura conceitua como aquela “realizada por toda pessoa desde o nascimento até a morte, em qualquer idade, em âmbitos formais, não formais e informais de aprendizagem (a família, a comunidade, o sistema escolar, o grupo de partes, os meios de informação, o sistema político, a participação social, o jogo, o trabalho, a leitura e a escrita etc.) e recorrendo a todos os recursos socioculturais a seu alcance”.

A escola, porém, continua a ser o locus fundamental em que se adquire conhecimento, não como acervo de informações nem sempre conectado com a vida, mas habilidades, aptidões e competências como autonomia, tolerância, empreendedorismo, cidadania, espírito crítico e colaborativo, responsabilidade, protagonismo e criatividade. Sobretudo, navegar no mar revolto das incertezas, única certeza para o porvir, em que o inesperado irrompe e obriga a revisar tudo o que se planejara.

O mundo precisa de pessoas qualificadas para alterar o rumo de sua existência, pois o cardápio de possibilidades hoje oferecida à infância e juventude estará substancialmente modificado quando a fase adulta reclamar atividade capaz de sustento próprio e da família. Afirma-se que 60% das profissões atuais não existirão dentro de trinta anos. Como treinar nossos jovens para aquilo que nossa imprevisão preparou para eles?

É urgente expandir universos, a começar com as nossas mentes. Propostas não faltam e pode-se invocar a experiência de quem já começou a mudar o panorama. Inicie-se por considerar que a educação precisa ser personalizada. “A personalização é baseada na autoconsciência, em uma jornada independente eleita pelos próprios alunos. Está inextricavelmente vinculada a habilidades de aprendizagem altamente desenvolvidas, em uma abordagem com base em processos e respeitados os estilos de aprendizagem de cada aluno”[2]. Ela pressupõe que os alunos mesmos podem criar, vivenciar e modificar o processo educacional.

A educação também precisa ser divertida. Se os jogos antigamente eram considerados antieducativos, hoje é praticamente assente que a educação baseada em jogos envolve a incorporação dos games nas atividades escolares. A utilização de jogos aumenta o envolvimento e a motivação dos alunos, verificado um revival do interesse por jogos sociais tradicionais. As vantagens são que as informações fornecidas pelos jogos têm grande apelo, o conhecimento é adquirido no tempo livre do educando e o processo não está associado a uma obrigação e educação e entretenimento deixam de ser vistos como coisas antagônicas[3].

A educação moderna precisa ser colaborativa. O mundo precisa da inteligência coletiva, que pode ser estimulada mediante utilização das mídias sociais, sala de aula invertida, aprendizagem em pares ou baseada em projetos, aprendizagem com códigos abertos, educação interdisciplinar e inúmeras outras.

A educação para amanhã precisa ser multimodal. “A multimodalidade é a integração de um conjunto de sons, cores, textos, imagens, etc., utilizados como recursos para criação de mensagens mais complexas, com significados mais interessantes do que se conseguiria com apenas um desses elementos”[4].

Hoje, estamos reunidos porque reconhecemos que a educação é tecnológica. A revolução eletrônica, informática, cibernética, robótica, digital ou virtual é irreversível. Que o digam os robôs na Educação, as tecnologias vestíveis, a holografia, a impressão 3D, a cultura maker, a internet das coisas, a web semântica, a inteligência artificial. O melhor é que o alunado do século XXI está pronto para se servir de todo esse instrumental. A cada dia nos surpreendemos com a engenhosidade, o pioneirismo e a criatividade dos nossos jovens.

A Secretaria da Educação já se utiliza da tecnologia disponível e a considera instrumento valioso de aprendizagem. Assim é que intensifica a produção e implementação da videoaula. Desde 2011 tem a sua Escola Virtual de Programas Educacionais do Estado de São Paulo – EVESP, com cursos gratuitos regulares, especiais e de capacitação, entre os quais os de idioma inglês, chinês e pré-universitário. Desde 2008, desenvolve o projeto Acessa Escola, oferecendo computadores e internet para alunos, equipe escolar e comunidade. Com tela interativa, o Currículo + (Mais) é uma plataforma colaborativa em que são disponibilizadas atividades com o uso de conteúdos e ferramentas digitais para alunos do 6o ano do Ensino Fundamental à 3a série do Ensino Médio para apoio ao aprendizado, inclusive para aprofundamento e recuperação.

Estamos abertos a muito mais! Conclamamos profissionais, empresas, entidades, famílias e sociedade civil para alavancarmos, todos juntos, a educação paulista. Afinal, a Constituição da República, no seu artigo 205, preceitua que a educação é direito de todos, mas dever do Estado, da família e da sociedade. Portanto, não há ninguém excluído da responsabilidade de oferecer à nossa criança e ao nosso jovem a educação de qualidade que eles merecem.

E merecem, efetivamente, eis que “cada ser humano constitui um ensaio único e precioso da Natureza”, e temos a missão de permitir que ele explore suas potencialidades de forma a atingir a plenitude possível.

Vamos nos arregimentar e converter a missão em realidade.

 

Notas___________________

1 CLIFTON, Jim, The Coming Jobs War, New York: Gallup Press, 2011.

2Educação no Século 21 – Tendências, ferramentas e projetos para inspirar, Tradução Danielle Mendes Sales, São Paulo: Fundação Santillana, 2016, p.18.

3Educação no Século 21, cit., idem, p.27.

4Educação no Século 21, cit., idem, p.216.

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