A indignação está nas ruas!

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OrpheuNa edição de março último, dedicamos o editorial ao escritor alemão de nacionalidade francesa Stéphane Hessel, que morreu em Paris no dia 26 de fevereiro passado aos 95 anos. Esse meu contemporâneo era jovem, ativo, lúcido e indignado com as almas adormecidas que estão empobrecendo a aventura humana sobre a terra.

Seu manifesto “Indignai-vos”, publicado há três anos, serviu de inspiração para o movimento Indignados que se espalhou pela Europa em crise. O texto é um chamamento à responsabilidade. É um repúdio aos que questionam a proteção social aos desvalidos. É uma aula de história e de coragem dos que resistiram ao nazismo e salvaram o mundo de um futuro de trevas.

Os movimentos sociais e protestos populares que estão espocando nas capitais e no Distrito Federal refletem a mesma indignação com que Hessel se manifestou, e que, por certo, influenciada pela impunidade dos constantes abusos praticados em atos de corrupção política e administrativa, serviu de fonte inspiradora das multidões revoltadas. No citado editorial de março, já prevíamos a explosão de acontecimentos em face dos movimentos populares que estavam acontecendo em várias capitais por motivos variados. Era o prenúncio do clima de indignação que perdura nas ruas.

Não é necessário buscar na mente as causas do desregramento da população com os atos de vandalismo, que, por enquanto, felizmente, estão reduzidos aos até poucos estragos produzidos, mas que servem, entretanto, como aviso e previsão de graves e terríveis acontecimentos que poderão acontecer e que, infelizmente, acontecerão se outros fatos provocadores contra os sentimentos cívicos e morais da população surgirem.

Os pronunciamentos de populares, colhidos pela mídia em todos os movimentos de protesto, são unânimes em apontar os principais fatos causadores da revolta: a constante e reclamada mediocridade do ensino, o desleixo absoluto no atendimento à saúde – com a falta de leitos, de assistência médica e hospitalar, além da carência de medicamentos –, assim como as denúncias de corrupção, que atingem publicamente todos os níveis da administração pública, praticadas em conluio com políticos e partidos, em uma degeneração imoral e vergonhosa.

As incontáveis reclamações ouvidas dos manifestantes durante as passeatas contra os gastos absurdos das obras da Copa deixaram patente que o povo reclama contra a falta de ensino, saúde e moradia – ao contrário da intenção dos governos, dando-lhes panes et circum.

As obras faraônicas dos seis estádios de futebol custaram, com o superfaturamento implícito e de costume: no Rio – um bilhão e duzentos milhões; em Brasília – um bilhão e duzentos milhões; em Salvador – seiscentos e oitenta e nove milhões; em Recife – seiscentos e oitenta milhões; em Belo Horizonte – seiscentos e sessenta e seis milhões; em Fortaleza – quinhentos e dezoito milhões, no total de quatro bilhões, novecentos e cinquenta e três milhões.

Enquanto esse rio de dinheiro público foi gasto nababescamente, enriquecendo muitos políticos corruptos e desavergonhados com um esbanjamento deplorável e criminoso, a maioria da população sofre e se recente desgraçadamente nos corredores e pátios dos hospitais da ausência e da falta do direito que a Constituição da República garante, mas não lhes concede.

Não é necessário repetir o que, a respeito dos faustosos estádios, escrevemos anteriormente no editorial de abril findo: “Miserável hipocrisia”, cujo despautério de gastos constituiu verdadeiro escárnio contra a pobreza da polulação carente, que, angustiada e desesperada, pervaga perante os hospitais e postos de saúde em busca da assistência que lhe é negada por falta de meios de atendimento, como ocorre e é corriqueiramente noticiado nos jornais e comentários na televisão.

O Movimento Passe Livre foi o levedo da fermen­tação que produziu a revolta, que era prevista pelo inconformismo das inúmeras passeatas. É óbvio que
R$ 0,20 a mais nas passagens não seria suficiente para botar o povo nas ruas do país, em multidões cada vez maiores, com imagens impressionantes. Esse foi o detonador, o gatilho das manifestações de grupos distintos e de motivações difusas.

Muitos foram e são os motivos da irritação que provocaram os acontecimentos. E eles estão acinto­samente demonstrados nas constantes e vergonhosas denúncias de desregrada corrupção e enriquecimento ilícito perpetrado em obras públicas em todas as esferas dos executivos, principalmente em atos e desmandos praticados nos legislativos federal, estaduais e municipais, por meio de escândalos, improbidade administrativa e corrupção vergonhosamente divulgados constantemente na televisão, nas rádios e nos jornais. Sabe-se que, ao lado de questões objetivas – como o aumento das passagens de ônibus – gritos mais abrangentes são entoados, alguns proclamando o aborto livre, outros exigindo o fim das discriminações, e que seguem falando de muito mais: de corrupção, de descaso, de desmandos, de desvios de conduta, do absurdo dos gastos da Copa, da saúde pública vilipendiada, do ensino acentuadamente depauperado, de tudo que passa a ser motivo para a baderna e a quebra da normalidade republicana.

O que se constata é o clamor das turbas ganhando ressonância em todo o País a demonstrar insatisfação com o establishment, em uma evidente manifestação que, por certo, não vai parar, mas persistir em reivindicar as condições que lhes estão sendo negadas, não importando por quem.

O ronco das ruas está mostrando que o povo acordou para o confronto, que, infelizmente pelas circunstâncias, se agravará e, como premonição, tende a continuar como afixado em uma das faixas:

O povo decidiu: ou para a roubalheira ou paramos o Brasil!”

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