“A abertura dos arquivos da Ditadura seria a maior demonstração de democracia desse país”

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Entrevista com Carlos Heitor Cony

O jornalista e escritor Carlos Heitor Cony nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1926. Estudou Humanidades e Filosofia no Seminário São José dos Irmãos Maristas, na Tijuca, e estreou na literatura ganhando por duas vezes consecutivas o Prêmio Manuel de Almeida (em 1957 e 1958) com os romances “A Verdade de Cada Dia” e “Tijolo de Segurança”. Trabalha na imprensa desde 1952. Começou no Jornal do Brasil e mais tarde se transferiu para o Correio da Manhã, do qual foi redator, cronista, editorialista e editor. Ganhou os prêmios Jabuti (1996, 1998 e 2000), Livro do Ano (1996, 1998 e 2000), Nacional Nestlé (1997) e Machado de Assis (1996), da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de suas obras. Em 1998, recebeu do governo da França, no Salão do Livro de Paris, a condecoração L’Orde des Art et des Lettres.

Depois de várias prisões políticas, provocadas principalmente por sua forte personalidade e grande ousadia, caracterizado por dizer o que pensa, sem meandros e com destemor, ele acabou preso pelo regime militar. Durante a ditadura, sofreu um exílio forçado no exterior. Na volta ao Brasil lançou, na Editora Bloch, as revistas “Ele & Ela” e “Fatos” e dirigiu as revistas “Fatos & Fotos”, “Desfile” e “Manchete”. Na revista “Manchete” produziu em parceria com Murilo Melo Filho, também jornalista da Bloch e membro da Academia Brasileira de Letras, espetaculares reportagens sobre a construção de Brasília. Hoje, tem uma coluna diária da Folha de S. Paulo e participa de programas das rádios CBN e BandNews.

Revista Justiça & Cidadania – Como você analisa o atual panorama político brasileiro? Podemos começar essa entrevista falando sobre o que se designou chamar de “Mensalão”?

Carlos Heitor Cony – Sim, podemos. Santo Agostinho, em seus sábios escritos, chamou de “excremento do demônio” aquele “metal” que costumam chamar de “vil”: ou seja, o dinheiro. E dizem ser ele a base de todos os males. Certamente, se ele não existisse não existiria o Mensalão e por conseguinte a busca do poder. Desde os tempos da ditadura, quando os generais se digladiavam para alcançá-lo e vencia aquele que apresentasse mais contabilidade bélica, refletida pelo maior número de tropas, tanques, canhões e demais apetrechos da caserna, que o poder e seu parceiro próximo, o dinheiro, vêm hipnotizando os homens do governo desse país. A ditadura se foi, os tanques e canhões foram recolhidos aos quartéis, mas a ambição pela dupla dinheiro-poder continua.

Tenho de lembrar, contudo, que o PT não é o primeiro a pretender um projeto de poder. Lá atrás, o finado ex-ministro Sergio Motta, no primeiro governo de FHC, falou também na necessidade desse laboratório, que garantiria 20 anos de poder ao PSDB. E fez por onde: obteve a emenda da reeleição – que garantiu novo mandato ao presidente de então. Por sinal, um presidente que a perspectiva histórica começa a fazer justiça, com méritos maiores do que inevitáveis defeitos. A emenda que possibilitou a reeleição teve o preço em dólares. Alguns congressistas mais ligados com o esquema tucano chegaram a renunciar ao mandato para não passarem pelo vexame da cassação.

Gostei, porém, da intervenção do presidente do STF, ministro Ayres Britto, que não culpou o governo em si, mas referiu-se ao “projeto de poder” do PT. Projeto formulado, timidamente, a partir do primeiro governo de Lula e revitalizado pela atual cúpula partidária. O Mensalão seria uma espécie de laboratório para a conquista do fim. Mas faço questão de fazer um comentário: tenho acompanhado o julgamento do Mensalão pela TV Justiça e acho desnecessário todo aquele palavreado. Há gordura demais na linguagem com que juízes e advogados se expressam. Muito preciosismo. Na imprensa e na literatura em geral procura-se a contenção, a transparência, a economia verbal. Nos jornais, desde o advento dos copidesques, um texto com mais de duas laudas é cascata.  Um voto perfeito como expressão da justiça não precisa de tantas palavras e nem tanto rebuscamento “ïntelligentibus pauca”.

RJC – E a crise mundial?

Cony – Ah, sim, o panorama demonstra muita intranquilidade. Essa crise tem contornos sombrios e está estourada em inúmeros países de economia muito mais sólida que a nossa. Temos visto na televisão e pelas redes sociais cenas deprimentes de pessoas procurando comida em latas de lixo e desesperadas com a falta de perspectiva na Europa. Não há nada pior para um ser humano que não ter perspectiva na vida, ela é que nos move. Estamos em desenvolvimento e países em desenvolvimento se tornam frágeis nessa hora, mas o governo da Dilma tem superado muito bem isso, o que nos enche de esperança.

É uma crise nova, crise do capitalismo, muita coisa vai mudar. Temos de esperar, qualquer coisa que se fale agora é pura especulação. A Europa já superou outros períodos ruins e mesmo os Estados Unidos também… não podemos esquecer a Grande Depressão de 1929 e o que se viu depois foi a pujança. Sei que vivemos novos tempos, mas a humanidade sempre encontra as soluções e as transformações. Quem sabe, estamos passando por um desses períodos.

RJC – A violência que assola a sociedade brasileira também é preocupante?

Cony – Não tenha dúvida, mas ela é reflexo da impunidade, impunidade em todas as áreas. Não somente a relacionada aos crimes de colarinho branco, mas àqueles crimes do dia a dia, do cotidiano. A violência do próprio Estado, quando se apresenta com princípios conservadores e claramente benevolentes para determinados segmentos da sociedade. O Estado precisa ser enérgico se quiser mudar o rumo da violência que certamente reflete a decadência dessa mesma sociedade. Basta darmos uma olhada no que está acontecendo em São Paulo. O Estado tem sua culpa quando mata sem perguntar o pobre; porém, finge que não vê os crimes maiores do rico. As instituições seculares brasileiras também precisam ser mais atuantes, acho que estão muito acomodadas, um tanto omissas: a OAB, a ABI, a CNBB, pela importância e abrangência, têm que se manifestar mais, ser mais incisivas com as questões nacionais, embora eu reconheça que elas fazem o que podem.

RJC – Há pouco completaram-se 40 anos da instituição do AI-5. É data para ser lembrada ou esquecida?

Cony – Lembrada, lembrada sempre. No entanto, é bom que se diga, sem romantismos ou pieguismos. O povo nunca esteve na luta junto às organizações que participaram do confronto com os militares da ditadura, com os estudantes, os intelectuais, os operários, ou profissionais de outras áreas; elas sempre estiveram sozinhas. Não foi assim, e nessa hora sempre aparece gente dizendo que foi uma ação envolvendo o povo; o povo manteve-se afastado dos movimentos que peitaram os militares. Não entrou em cena nem como coadjuvante, qualquer notícia nesse sentido é mentirosa e falsa. O regime militar caiu de podre, caiu de exaustão, caiu porque se esgotou em si mesmo. Caiu, talvez, pelo próprio caminhar da História.

RJC – Tudo já se disse sobre a ditadura, ou faltou dizer mais alguma coisa?

Cony – Tudo já se disse, mas o assunto não se esgotou. O que eu gostaria de acrescentar é que um Governo democrático tem de ser transparente e nesse sentido não pode esconder nada, não é mesmo? Se esconde, não é transparente, não é claro, não é límpido. Estou dizendo isso porque já está na hora de abrirem-se os arquivos militares e levantar a cortina, passar tudo a limpo. Seria a maior demonstração de democracia nesse país. Estão aí as Comissões da Verdade, tanto no âmbito federal, quanto estadual e institucional, e esperamos que cumpram a missão para a qual foram criadas dentro do prazo determinado e com livre trânsito em todas as esferas onde devam ir para realizarem bem seu trabalho.

Não vejo por que motivo esses arquivos continuam fechados, é um desrespeito ao povo brasileiro. Porém, creio que existam outras implicações para os cadeados continuarem trancados: quando o PMDB, de Ulisses Guimarães, negociou a abertura com o governo militar, uma das cláusulas para que ela ocorresse foi que os arquivos do Dops, do Doi-Codi e do SNI não deveriam ser bisbilhotados, vasculhados. O que está deixando o governo nesse momento de calças curtas.

RJC – Como você vê a permanência de Barack Obama na presidência dos Estados Unidos?

Cony – Histórica, sob qualquer aspecto. Depois da Guerra de Secessão, de 1861 a 1865, entre o Norte e o Sul, a eleição de Obama e a continuação de seu governo, decidida agora pelos cidadãos americanos, foi o fato mais marcante da História dos Estados Unidos, muito mais do que o ataque às Torres Gêmeas do World Trade Center. Agora, não se iludam, fato histórico para eles, para nós, brasileiros, sul-americanos, nada vai mudar, embora os latino-americanos tenham sido decisivos em sua vitória. A mudança é deles, diz respeito à sua sociedade. Os americanos não ficarão bonzinhos da noite para o dia. Continuarão sendo conservadores, embora não tenham sido ao reelegerem o Obama, mas quando se trata de defender sua economia são tiranos e ferrenhos protecionistas.

Até porque, se você olhar com atenção alguns nomes de outras administrações continuam a ser os mesmos de outras invasões, de outros subsídios e sobretaxas. Pode ser que abra um espaço maior para nossas exportações aqui e ali e que, no plano mundial, continuem a tentar um acordo pacífico com o Irã e as conversações avancem mais tempo, porque com o Romney a invasão seria certa. Mas faço questão de enfatizar que está na hora de se parar com essa ideia, quase mítica, de que seremos invadidos, de que tomarão a Amazônia e coisas desse tipo. O panorama internacional mudou, a presença do Brasil nesse mesmo panorama internacional é outra e deve-se muito isso ao presidente Lula. Tudo bem, existe a questão amazônica, mas deve ser olhada sob outro aspecto.

RJC – E a questão da América Latina?

Cony – Ah, sim, essa mudou muito de figura. Com os governos populares de Raúl Castro, Cristina Kirchner, Evo Morales, Hugo Chávez e Alfredo Palácios, se deixou de ser vaquinha de presépio dos Estados Unidos, que perderam prestígio e consequentemente dólares em muitas áreas. Está certo que continuam, de certa forma, governos centralizados, como na Venezuela, mas outra aparência, sem aquela roupagem surrada das velhas dinastias ditatoriais peronistas, somozistas, stroessinistas, pinochistas, além, naturalmente, de seus atuais governantes terem sido eleitos pelo voto popular. Creio que a América Latina hoje ocupa um lugar de destaque na política internacional.

RJC – E a Academia Brasileira de Letras?

Cony – É outra que também mudou muito de atitude (risos). Deixou de ser uma velha senhora circunspecta e hoje está mais aberta ao público, provando que está no caminho certo. O brasileiro gosta de cultura quando lhe dão acesso a ela. Não perdemos a pompa, nem o glamour, que no fundo o povo gosta também, mas estivemos o ano inteiro com os portões abertos para o visitante que foi sempre bem-vindo e esperamos a mesma receptividade em 2013.

RJC – Ainda se faz bom jornalismo, principalmente depois do aparecimento da Internet?

Cony – Jornalismo hoje é sinônimo de competitividade. Tudo se mistura dentro da imensa e confusa geleia geral das redes sociais e dos jornais impressos, televisivos, radiofônicos. O jornalismo hoje está muito comprometido com o sistema que o cerca. O jornalista hoje é um mero escriba e as grandes reportagens investigativas estão rareando. O jornalismo nem mesmo é mais um formador de opinião, nos moldes de como se conhecia antigamente. Aliás, sempre me coloquei contra essa afirmação, jornalista nunca foi e nem será um formador de opinião, ele lida com a notícia, exclusivamente com a notícia.

Está havendo a briga contra ou a favor do diploma. Eu, por exemplo, não tenho diploma, e em tantos países não existe a obrigatoriedade do diploma. Creio que as faculdades são importantes para dar uma cultura geral, uma base de formação sólida, no entanto, o que dará um novo rumo ao jornalismo, à mídia em geral, será mesmo a Internet; dará não, já está dando. Sem dúvida, é o mais democrático conceito de informação. A informação acessível a qualquer um. Qualquer pessoa pode usar sua notícia e, com seriedade, propagar sua informação, uma foto importante, veja o Wikileaks. Se é boa ou má, aí é outra história. O futuro do jornalismo, da imprensa, como conhecemos hoje, será a Internet, até porque não conhecemos ainda toda a potencialidade e abrangência de um campo que está permanentemente em transformação e desenvolvimento.

 

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