A Amazônia é nossa

Compartilhar com

Denúncias da mídia sobre uma possível “entrega” da Amazônia, juntamente com uma série de televisão, muito bem feita, que narra o que teria sido a atuação do Brasil no caso do Acre, chamam a atenção para o problema, dos mais importantes para os que lutamos pela integridade do País. Livro de meados do século XX, de Artur César Ferreira Reis, “O Amazonas e a cobiça internacional”, já nos chamava a atenção para o perigo.

A obra do amazônida (nasceu no Acre) Leandro Tocantins, que nos deixou há menos de dois anos, foi um permanente esforço de mostrar a Amazônia como parte inconsútil da nação brasileira.

Em minha experiência como representante do Brasil no exterior – na África, em Nova York e na Inglaterra –, tive, muitas vezes, de enfrentar o que me pareceu realmente ser uma série de sinais da cobiça internacional com relação à Amazônia. Em conferências que fiz em lugares tão diferentes, como Lagos, Dacar, Londres, Liverpool, Nova York, Los Angeles, Estocolmo, Varsóvia e Milão, indagações e afirmações de professores e alunos indicavam uma tendência geral de considerar o Brasil como incapaz de tomar conta de uma região com a importância da Amazônia.

Certa vez, em Essex, Inglaterra, depois de palestra minha sobre a literatura amazonense, um professor alemão pediu a palavra e, convicto em sua opinião, ponderou que, sobre o assunto, era preciso que se pensasse em um tratado internacional que permitisse, a outros países, fora do Brasil, que analisassem, sob a supervisão da ONU, medidas que preservassem os valores naturais da Região Amazônica, no momento sob o domínio brasileiro.

Na mesma hora retruquei, com firmeza, que a menor interferência estrangeira na Amazônia brasileira seria repelida pelo governo e pelo povo do Brasil. Hoje, diante da notícia das “concessões” possivelmente feitas a “ONGs” e entidades estrangeiras na região, não sei de que maneira poderia eu reagir a uma intervenção como a do professor de Essex, que, na hora, me respondeu que não tivera a intenção de ser contra o Brasil, mas apenas desejar que outros países nos “ajudassem” em planos que resolvessem os problemas da Amazônia.

Diante do acirramento do interesse estrangeiro pela região, nada melhor do que ler, principalmente, “Euclides da Cunha e o Paraíso perdido”, em que Leandro Tocantins estuda o fascínio de Euclides em face do que vira naquele Paraíso que podia já estar perdido. Outros livros de Leandro me parecem mais adequados para a leitura de hoje. São os que têm os títulos de “Os olhos inocentes” e “Adolescência, a vigília dos olhos”, que vêm a ser relatos das memórias de um menino vivendo na Amazônia, com seus seringais, suas festas, seu verde e sua romântica nostalgia de um mundo realizado.

Narrativas na primeira pessoa fluem como um romance, o personagem acompanhando a vida na selva, não muito diversamente de como o fez o menino de Tolstoy que, ao longo da estepe, atravessava o desconhecido e ia acompanhando sucessivas descobertas de gentes, imagens e coisas. A leitura de “Os olhos inocentes” e “Adolescência, a vigília dos olhos” nos traz, em um estilo de clara luminosidade, toda a Amazônia do século XX, com muitos dos problemas que não desapareceram de todo, mas com a força do homem vivendo com sua companheira Terra.

São livros que deveriam ser reeditados e que podem nos ajudar em nossa luta, que deve ser incessante, para convencer os brasileiros que têm o poder no momento que não podem trair um passado que, nas mãos de um Rio Branco, deu ao País a di-mensão que hoje tem. A Amazônia é brasileira e não está a venda.

“Adolescência, a vigília dos olhos”, de Leandro Tocantins, tem a marca editorial da Edições Cejup, apresentação de Adonias Filho; prefácios de Gilberto Freire e Antonio Carlos Villaça. Capa com a reprodução fotográfica do painel de azulejos “A fada da primavera”, original no Palacete Victor Maria da Silva, Belém do Pará.

Cor da Pele (skin)
Opções de layout
Layout patterns
Imagens de layout em caixa
header topbar
header color
header position
X