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A comissão da verdade ou a torpeza da mentira

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“A luz do sol contribui para a melhoria das relações da sociedade”
Norberto Bobbio

Desde a adolescência, e já se passaram mais de 75 anos, aprendi graças aos ensinamentos incutidos no coração e na alma por meus saudosos pais, amorosamente ou exemplarmente, que a verdade é una, indivisível, plena, inquestionável, irretorquível e absoluta, ao contrário da mentira, que é ludíbrio, falsidade, ilusão abominável e torpe, além de detestável, nefasta, perniciosa, vergonhosa e execrada.
Estas simples e singelas considerações vêm a propósito de alguns poucos empedernidos saudosistas da ditadura militar, que teimam ainda em manter segredo as vilanias, canalhices e torpezas cometidas por bárbaros avelhacados, quando, utilizando do poder de mando da polícia, ou do uso da farda militar, investiram desonradamente contra presos
e vítimas indefesas e desassistidas que lhes caíram às
mãos, praticando atos desumanos de selvageria e cruel­dade contra meninos e meninas, homens e mulheres, jovens ou idosos, infligindo sevícias, torturas, estupros, esquartejamento e mortes.
Isso, infeliz e tristemente, ocorreu em todos os Estados da Federação, nas delegacias das  polícias federais e estaduais, nos quartéis das PM nos Estados e das Forças Armadas, além dos antros que se criaram sob as siglas do SNI, DOI-CODI, Cinemar e nos terríveis aparelhos de repressão como a “CASA DA MORTE”, em Petrópolis, montada pelo Centro de Informações do Exército (CIE) e outros  esconderijos onde escondiam as vítimas de sequestro, para sessões de tortura, esquartejamento e morte.
A Comissão Nacional da Verdade, criada por ato do governo federal e constituída pelos ministros Nelson Jobim (Defesa), José Eduardo Cardozo (Justiça) e Maria do Rosário (Direitos Humanos), atende e vem ao encontro de velha e sentida aspiração democrática, reclamada e reivindicada há muito por respeitadas e conceituadas entidades da sociedade, entre as quais destacam-se a OAB – Ordem dos Advogados do Brasil, presidida no Conselho Nacional pelo advogado Ophir Cavalcanti, o CNBB – Conselho Nacional dos Bispos do Brasil, coordenado pelo Bispo Dom Dimas Barbosa, a ABI – Associação Brasileira de Imprensa, presidida pelo jornalista Maurício  Azêdo, a Comissão do “Tortura Nunca Mais”, além de inúmeros órgãos de classe, da sociedade e Ongs que vêm tratando e discutindo sobre a matéria, desejosas de saber, entre outros fatos escabrosos acontecidos, o paradeiro de esquartejados, queimados e mortos pela ditadura militar, e os locais onde foram enterrados.
A manifestação dos comandos das Forças Armadas – Exército, Marinha e Aeronáutica – contra a constituição da Comissão Nacional da Verdade, reflete um posicionamento corporativista e inconformista, sob a alegação de que passados 30 anos do governo militar, “muitas  pessoas que viveram aquele período já faleceram:  testemunhas, documentos  e provas perderam-se no tempo, é improvável chegar-se realmente à verdade dos fatos e que, assim sendo, a criação de uma Comissão da Verdade nos dias atuais não faz sentido”, apesar da intenção que objetiva o esquecimento recíproco de consequências negativas, está, entretanto, completamente equivocada, principalmente diante de certos fatos e circunstâncias históricas, que não podem nem devem se assemelhar e confundir com os que aconteceram naquele período da ditadura militar.
As instituições Exército, Marinha e Aeronáutica não se confundem, nem assimilam os desdouros, patranhas e atitudes abjetas de pessoas que mancharam uma farda, ou uma posição de mando, se arrogando de uma imunidade que não tinham e que, escudados nessa premissa, praticaram vilanias, torpezas, imoralidades e indignidades que não são compatíveis com as mínimas rígidas normas cívicas, como ensinadas nos colégios e nas escolas militares.
Os feitos heróicos e exemplos deixados pelos varões que envergaram e honraram as fardas das Forças Armadas, como Caxias, Osório, Tamandaré, Saldanha da Gama, Salgado Filho e Eduardo Gomes, além de outros consagrados e memoráveis heróis, cujos nomes constituem verdadeiras legendas a inspirar e conscientizar as gerações posteriores, não podem, sob qualquer hipótese, ser nivelados com os canalhas que emporcalharam suas fardas, cujo uso em defesa da Pátria tanto foi honrado e dignificado por aqueles patriotas, cujos altaneiros exemplos ainda são seguidos pelos que hoje se dedicam, cumprem  e honram os compromissos militares, como dispõe a Constituição Federal.
O que a Comissão Nacional da Verdade propõe e está de acordo com a vontade da Nação é o esclarecimento das barbaridades e violências cometidas, e saber quem as praticou, quem as ordenou, para que aqueles acontecimentos e fatos ocorridos venham ao conhecimento da população, que espera que a verdade venha à luz do sol, como pregou Norberto Bobbio.
É o que tem que acontecer, sem que haja retaliações, revanchismo ou punições físicas, mesmo porque os crimes praticados foram anistiados, mas as barbaridades cometidas não podem ser esquecidas.