A Lição de San Tiago

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A parcimônia com que foi celebrado o centenário de San Tiago Dantas demonstra o pouco apreço que dedicamos à memória de homens cuja vida e obra, ao enriquecer nossa trajetória política, devem servir de exemplo a todos os que se preocupam com os destinos do País.

San Tiago, cuja memória nem de longe corresponde à contribuição que prestou ao País em meados do século passado, inseriu-se desde cedo, através de intensa atividade intelectual, no radical embate de ideias, então em curso, entre modelos antagônicos: democracias com economia de mercado, de um lado, regimes totalitários – Fascismo, Nazismo, Comunismo – de outro. Não ficou imune à polarização, mas não a refletia passivamente, ao aliar percepção aguda dos desafios ao engajamento de a eles responder.

Para concretizá-lo, propôs-se a percorrer três degraus. No primeiro, a que dedicou as décadas dos 30 e dos 40, concentrou-se em acumular e fortalecer seu SABER, chegando a reger quatro cátedras universitárias em disciplinas distintas. A década dos 50, por sua vez, foi dedicada à atividade profissional. Saber acumulado e inteligência invulgar lastrearam a advocacia civil, cuja competência e habilidade contribuíram para consolidar o TER, enquanto o final dos 50 e início dos 60 serviram à busca do PODER. Seguiu a sequência que recomendava aos alunos, a quem aduzia advertência de impressionante atualidade: nunca se deve utilizar o TER para conquistar o PODER e, em hipótese alguma, usar o PODER para engordar o TER.

Reformador por excelência, acreditava na capacidade de renovação das classes populares, mas entristecia-se pelo despreparo das elites, que convocava a modernizar-se para modernizarem o país, dando prioridade à Educação, Ciência e Cultura.

Deputado Federal por Minas desde 1959, assume no governo parlamentarista, iniciado em setembro de 1961, a pasta das Relações Exteriores, à testa da qual arejou a diplomacia brasileira, imprimindo-lhe marca indelével – a “Política Externa Independente” que, sem adesões automáticas e animosidades desnecessárias, se pautou pelos interesses nacionais permanentes: a busca do desenvolvimento, a paz universal e os direitos humanos.

Indicado Primeiro-Ministro para suceder a Tancredo Neves, enfrentou raivosa oposição. Almino Afonso advertiu a Câmara, em vão, que ela vivia “dia de definição”, ou consolidava as instituições democráticas, dando ao País um Governo à altura do momento, ou as liquidaria. Nomeado Ministro da Fazenda, na volta do Presidencialismo, sua curta gestão não resistiu à radicalização interna e ao insuficiente apoio externo. Mas, San Tiago não esmoreceu no esforço contra a desconstrução da democracia e a favor das reformas modernizadoras.

No início de 64 reuniu políticos de amplo espectro na “Frente Progressista de Apoio às Reformas de Base”, visando a “conquistas aluviais” que assegurassem normalidade institucional, em vez de precipitação voluntarista ou contemporização complacente, para ele deslealdades à História, condenadas como tal, à efemeridade.

Tancredo conta que, após o golpe de 64, San Tiago pediu-lhe compreensão para com a Revolução: “era uma fatalidade histórica e, como toda fatalidade, o seu esgotamento será inevitável”. Ofegante, concluiu:“Aí, então, recolheremos os seus destroços para, com eles, construirmos a nova democracia, numa Pátria redimida”.

Enxergando muitos lances à frente no xadrez da vida e da morte, relega o secundário para concentrar-se em “ideias mestras”. Embora muitos de seus projetos de reforma não tenham produzido frutos imediatos, deixou-nos preciosa herança – “o dom de si mesmo” – capaz de nos inspirar até hoje pelo exemplo e pela germinação das sementes que plantou. Mas, como seguir exemplos edificantes e colher os frutos das semeaduras, se a população os desconhece? Só a dedicação redobrada à preservação da memória será capaz de transformar as lições de amor ao Brasil, que estadistas como San Tiago nos legaram, em levedura de seu inadiável aggiornamento.

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