A recordação e a esperança – A herança de Giovani Falcone e Paolo Borselino

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A nevoenta e chuvosa tarde de quinta-feira, dia 23 de maio, seria uma tarde comum, não Fosse o ato que estava a ser realizado na Escola da Magistratura deste Estado.

Ali acontecia, com a presença do cônsul da Itália, Francesco Mariano, e do diretor do Instituto de Cultura Italiana, Franco Vincenzotti, uma homenagem ao juiz italiano Giovani Falcone, nascido em 1939 e morto, assassinado brutalmente, em idêntico dia e mês do ano de 1992, na localidade de Capaci, na região da Sicília, as 17:58 horas de um dia de sábado.

Nesse dia e nessa hora a Cosa Nostra saldava uma velha contra com o juiz que, mais que os Outros, a havia combatido.

Poder-se-ia dizer, mas porque a homenagem pelos dez anos da morte desse magistrado que nem brasileiro era?

A homenagem, partida da sensibilidade do desembargador Marcus Faver, presidente do Tribunal de Justiça deste Estado, e com o efetivo apoio da Escola da Magistratura dirigida pelo desembargador Sergio Cavalieri Filho, pretendia retratar a vida e a morte de um homem de coragem e teve duas conotações importantes, sem ordem de prioridade, o conhecimento pessoal que teve, desse verdadeiro mártir da justiça, e do direito daquilo que é importante para uma nação por parte do Presidente Marcus Faver, que o tem como padrão a ser seguido, e pelo que está a se passar em nosso País, quem sabe no mundo, com o enfraquecimento das Instituições, que afeta e degrada a sociedade, tornando cada vez mais difícil a convivência pacifica daqueles que respeitam as leis e querem viver em paz.

O ato tinha, sem dúvida, como pano de fundo chamar a responsabilidade, em primeiro lugar o Governo para as instituições criminosas, que crescem vertiginosamente, colocando em risco a cada segundo a vida dos cidadãos pacíficos, até mesmo no que diz respeito ao seu direito garantido constitucionalmente de ir e vir, bem como alertar aos juízes deste País e, em especial aos de nosso Estado, assim como as autoridades, de quão grande é a tarefa de cumprirem com missão que juraram defender, a Constituição e as Leis.

Giovani Falcone não é um mártir da Itália, é um mártir do Mundo.

Disse o desembargador Marcus Faver, que a Itália não é a máfia, dizemos nos, nem a máfia é a Itália. O povo italiano não se orgulha da máfia, tem vergonha dela, e sofre por causa dela, seja diretamente quando sente na própria carne sua ação nefasta, seja quando o conceito do país e diminuído pelo perigo que aqueles que vivem a margem da Lei representam, tirando a segurança de todos.

A mostra fotográfica que se inaugurou no mesmo dia a respeito da morte do grande juiz, teve finalidade didática, porque pretendeu despertar uma cultura anti-máfia, uma cultura anticrime e criminosos. Para nos brasileiros, teve a importância de despertar uma cultura anti-instituições que vivem a margem ou fora da lei, e, para o compromisso de cada um, os magistrados em especial, para cumprirem e fazer cumprir a Lei, por mais custoso que seja, se necessário com a própria vida.

O brutal incidente, não enlutou apenas a família italiana, mas as famílias de todo o mundo, não enlutou apenas a família de Giovani Falcone, mas também as dos seguranças que o acompanhavam, e de sua esposa, Francesca Morvillo, e também da família de Paolo Borselino, amigo de Falcone, magistrado como ele também morto, dias depois, em 19 de julho.

Disse Falcone, que “se morre geralmente porque se está só, ou porque se entrou em um jogo muito grande. Se morre também porque não se dispõe das necessárias alianças, porque se é privado de sustentação”.

Em toda essa situação não pode o Estado deixar que a máfia, ou as sociedades que com ela encontram parâmetros, como o tráfico em qualquer de suas formas e tipos, o jogo do bicho, o vídeo “pocker”, o jogo clandestino, a prostituição, a corrupção política e administrativa, e outras que tais, agir como na Sicilia, quando a máfia golpeou os servidores do Estado, porque o Estado não é competente para os proteger.

A mostra fotográfica e a palestra, tiveram por finalidade também registrar e homenagear aqueles que aqui morreram por causa do cumprimento de seu dever, e visou chamar a atenção e a revolta contra a violência e quem contra vive as espenças de desrespeitar a Lei e que quase sempre são aceitos pela sociedade, e até por ela homenageados.

A mostra fotográfica denominada “Recordação e a Esperança”, é a essência, é o espírito que existiu na tarde nevoenta e chuvosa do dia 23 de maio; Recordação porque os fatos jamais sairão da memória dos italianos e dos brasileiros, e Esperança de que por ela, se possa encontrar caminhos para despertar consciências para o enfrentamento do crime organizado, para o que não se pode ter fronteiras ou limites, há premente necessidade de união em âmbito nacional.

É necessário que todos estejam prontos para cumprir com o seu dever, custe o que custar, pois está em risco a existência de cada um.

Para assassinar Falcone, uma estrada foi dinamitada com precisão cirúrgica, o que demonstra o aperfeiçoamento da “Societa Cosa Nostra”: Compete à sociedade dos justos também se aprimorar, para o enfrentamento dos que não cumprem a lei; seja onde quer que se encontrem, no tráfico, no jogo do bicho, nas máquinas de pôquer, na prostituição, na política, nos serviços públicos, pois a corrupção está presente em qualquer lugar em níveis inimaginários.

Não podemos deixar que aqui ocorra o que aconteceu no fatídico dia 23 de maio de 1992, para que não tenhamos o mesmo sentimento que teve o senador e filósofo Norberto Bobbio que declarou ao jornal La Stampa: “me envergonho de ser italiano, quando penso que italianos mataram o juiz Falcone. Chegou o momento em que se eu não Fosse tão velho, iria embora deste País, pois não suporto mais o clima moral da Itália”.

Quantos brasileiros já pensaram, ou estão pensando, da mesma forma?

Não podemos aceitar o horror em que vivemos, com a violência que campeia e que a toda hora enluta as famílias brasileiras. Há uma profunda angustia, pois vivemos como vivia o povo italiano naquela época, período de profunda perturbação na ordem social, em autentica dissolução moral.

Os fora da lei fazem o que querem, escolhem o momento para atuarem, e os obstáculos colocados pela sociedade organizada, são impotentes para impedi-los.

“O monopólio da força está a toda hora sendo demonstrado, o anti estado e o verdadeiro Estado e esta é a verdade que basta” [Bobbio].

Logo após a morte de Falcone, os jovens e a população da Sicilia demonstraram todo seu repudio, além de passeatas e atos públicos, outros escolheram uma arvore e nela penduraram as demonstrações de carinho, de dor e de revolta, Cesare di Cola o organizador da mostra fotográfica que produzira com seu pai e mestre Giuliano di Cola encerrou sua exposição dizendo: “A imagem geradora da árvore que, assim como o ser humano tem como propósito a realização plena de sua forma, remete a mediação entre as profundezas da terra e as alturas do céu, entre o sacro e o profano, entre o visível e o invisível, remetendo ao mesmo tempo a claridade a qual tendem as coisas obscuras do homem”.

É preciso fazer tudo para que possamos transformar a tarde nevoenta e chuvosa em tarde de sol e calor, em noite de lua e de estrelas, isto só acontecerá se o bem vencer o mal, se nos unirmos, cada um fazendo a sua parte com amor e muita dedicação à causa pública que visa o bem comum e a paz social. Para isto, a solidariedade e a responsabilidade são o elo comum que nos levará a realização do sonho de vivermos em paz.

Necessita-se criar uma cultura contra tudo que não é justo, contra tudo que nos oprime; criar a capacidade de sonhar com um mundo diferente, e necessário alimentar a esperança, sem apagar os fatos da memória.

Giovane Falcone morreu, mas suas idéias estão vivas e caminham pelas nossas pernas.

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