A Universidade, criação da Igreja Católica

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“Honra-me sobremaneira o título que recebo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná que, na área acadêmica, representa a maior distinção outorgada a professores universitários.

Constituindo a PUC do Paraná uma das mais importantes instituições do País, o título ganha em relevância, assim como a responsabilidade ao recebê-lo.

Carlos Ayres Britto, ministro da Suprema Corte, em solenidade em que recebíamos o Colar do Mérito do Tribunal de Contas do Município do Rio de Janeiro, escolhido para falar em nome dos homenageados, dizia não saber como agradecer a honraria. Se dissesse merecer recebê-la, certamente o chamariam de presunçoso. E se afirmasse dela não ser merecedor, estaria desqualificando a instituição outorgante.

Citou, então, um episódio que confesso não ter lido na obra de Platão e nos diversos autores que escreveram sobre Sócrates.

O episódio é o seguinte: certo dia, um discípulo de Sócrates, que tinha problemas sérios de convivência com a sua mulher Xantipa, perguntou ao filósofo: ‘Mestre, estou em sérias dúvidas e gostaria que o senhor me auxiliasse a resolvê-las. Devo ou não devo casar-me?’ Ao que Sócrates lhe respondeu: ‘Filho, decida o que decidir, você vai se arrepender’.

Assim me encontro, nesta solenidade, comovido de um lado, e preocupado de outro, pela responsabilidade que é ostentar o título de ‘doutor honoris causa’ da PUC paranaense.

A importância da instituição no cenário nacional é inconteste. Com a sólida formação moral que os irmãos maristas têm propagado pelo País, a PUC do Paraná faz lembrar o início das universidades no mundo, fruto maior da Igreja Católica Apostólica Romana. Não se tem com precisão as datas do surgimento das universidades de Paris, Bolonha, Oxford e Cambrigde, mas, como acentua Thomas E. Woods Jr. no livro Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental (Ed. Quadrante, 2008), seus primórdios estão nas escolas das catedrais e nas reuniões informais de professores e alunos. É interessante que, à época, nenhuma universidade fundada sob a égide da Igreja Católica, podia conceder diploma sem autorização papal. Inocêncio IV, em 1254, outorgou a permissão a Oxford. Em documento do Papa Gregório IX para a Universidade de Toulouse, em 1233, foi outorgado ao mestre o direito de lecionar em qualquer parte do mundo, na sua função de jus ubique docendi. O Papa Honório III, em 1220, na Universidade de Bolonha, condenou as violações às liberdades dos estudantes e, em 1231, o Papa Gregório IX lançou a bula Parens Scientiarum, a favor dos mestres de Paris. Todos aqueles que, com a superficialidade própria da análise dos acontecimentos pretéritos pelos formadores de opinião da atualidade, consideram a Idade Média como uma idade das trevas, desconhecem o fantástico trabalho que a Igreja Católica exerceu na preservação da cultura clássica e na definição de uma civilização de princípios, que é aquela que continua a dar sustentação aos valores do século XXI. Assim é que, nos tempos da Reforma, havia 81 universidades, das quais 33 pontifícias, quinze reais ou imperiais, 20, simultaneamente, reais e pontifícias e apenas 15 sem credenciais.

A universidade, maior dádiva à cultura universal em todos os tempos, é fruto exclusivo da Igreja Católica. A esmagadora maioria das universidades medievais foi criada pela Igreja, que fundou a primeira delas.

O padre Robert de Sorbon, que deu o nome à Universidade de Paris, costumava reunir intelectuais, jovens e sacerdotes da época (1257), com o propósito de sistematizar o estudo superior na França, conformando-o cientificamente de modo a torná-lo aplicável à vida cotidiana, algumas décadas após a fundação da escola parisiense.

É interessante notar que a filosofia dos séculos XII e XIII, na Europa, é fundamentalmente uma filosofia cristã, sem esquecer que, à época, havia também um crescimento do pensamento filosófico entre os árabes, com filósofos do porte de Avicena, Averroes etc.

A cultura clássica, que tanto árabes como cristãos preservaram no período, ganhou relevo à luz do cristianismo, visto que os clássicos gregos foram absorvidos, reeditados e serviram de base para toda a escolástica e a produção fantástica de Tomás de Aquino, Abelardo, Bernardo de Claraval e muitos outros. O próprio patrono dos advogados, Yves de Tréguier (1250-1303), formou-se em Direito cursando duas faculdades e tornou-se, ao mesmo tempo, sacerdote, advogado e juiz, com sólida formação em Direito e Filosofia.

Aliás, a profunda e notável ignorância daqueles que condenam a civilização cristã, preservada pela Igreja Católica, mal sabem que, em todos os ramos do conhecimento, a sua presença foi marcante. Lembro, apenas para citar algumas, as figuras do cônego Copérnico, que desvendou o sistema heliocêntrico em oposição a Ptolomeu, e de Galileu Galilei, que morreu na fé católica e que teve os seus estudos publicados pela Igreja, sem censura, enquanto conformava as teses de Copérnico como possíveis, sendo censurado apenas quando afirmou, sem a segurança dos astrônomos de hoje, que o heliocentrismo era algo comprovado. Enquanto hipótese, publicou os seus artigos e estudos sem contestação.

Antes de Newton, o padre Jean Buridan (1295-1358) examinou a teoria da inércia e do movimento dos corpos celestes, lançando as bases para a evolução do pensamento do cientista inglês.

Não se pode esquecer o papel da Escola de Chartres, de sacerdotes, que influenciou todo o conhecimento científico de então, formatando as pesquisas futuras.

E assim, até os tempos mais próximos de nós, a grande maioria dos cientistas era católica.

Penso que vale a pena lembrar um episódio que ocorreu com Pasteur. Um estudante entrou num trem e, vendo um senhor rezando o terço, disse-lhe que deveria deixar de acreditar ‘nessas velharias’. Que fosse como ele, estudante da Universidade de Paris, visto que a  ciência moderna já não precisava dessas ficções religiosas. E perguntou se já ouvira falar na ciência moderna. Com muita simplicidade, Pasteur  disse-lhe que sim. Quando o estudante lhe perguntou como se chamava, ouviu dele: Louis Pasteur. O jovem pediu desculpas  e, respeitando a oração do grande cientista, ficou calado até o fim da viagem.

Nicola Steno, sacerdote convertido do luteranismo, estabeleceu a maior parte dos princípios da geologia  moderna (1638-1686). Robert Grosseteste, chanceler de Oxford, Roger Bacon e Santo Alberto Magno foram cientistas de renome mundial.

Charles Bossut, historiador e matemático, ao compilar a relação dos matemáticos mais ilustres de 900 a.C. até 1800 d.C., encontrou 16 jesuítas entre os 303 maiores matemáticos da história.

Giambattista Ricciolli (1598-1671) foi o primeiro a determinar a taxa de aceleração de um corpo em queda livre. O padre Mendel foi o pai da genética moderna. O padre Grimaldi (1618-1663) foi o primeiro a medir as dunas lunares. O padre Rogério Boscovich foi o primeiro a determinar um método geométrico para calcular as órbitas dos planetas. O padre Kuchen (1602-1680), humanista, foi quem desmascarou a alquimia, em que até Newton e Boyle chegaram a acreditar.

E paro por aqui. Poderíamos ficar até a madrugada falando sobre o modo como a Igreja construiu a civilização moderna.

Teço essas considerações porque a verdade deve ser dita, principalmente em face dos que, por desconhecê-la, a atacam, ainda sob o forte impulso dos preconceitos com que os espadachins da mediocridade examinam a História.

É interessante notar que a relativização da verdade – aquela que o ceticismo covarde de Pilatos colocou como uma interroga­ção – faz com que os que não querem se aproximar da realidade das coisas, embora criem um pequeno e mesquinho universo de críticas e de dogmas precipitados, reconheçam, todavia, que
vivemos o apogeu da civilização graças à valorização dos direitos humanos. Quase todos desconhecem que a declaração universal dos direitos humanos é uma declaração de direitos reconhecidos, relatada por um jusnaturalista tomista. Segundo dizia, não era pelo fato de, no começo dos tempos, determinados comportamentos e direitos se terem revelado bons e terem sido seguidos pela humanidade que se deve concluir terem sido fruto da evolução histórica. O jusnaturalismo não é uma solução axiológica-historicista da civilização, mas sim o reconhecimento de que há determinados direitos, como os consagrados na famosa Declaração de 10/12/1948, que nascem com os homens, que lhes são ínsitos e inerentes, cabendo ao Estado apenas reconhecê-los, e não criá-los.

René Cassin – mestre dos mestres e não um positivista- formalista – foi o relator da Declaração Universal dos Direitos Humanos que conforma o direito até hoje e orienta a elaboração constitucional, na esmagadora maioria das nações civilizadas.

Faço essas considerações ao receber este honroso título da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, fundada e mantida pelos Irmãos Maristas, cujo trabalho cultural, social e religioso tem contribuído de forma estupenda para a formação do povo brasileiro e para a dimensão que o País começa a ganhar, no cenário internacional.

Personagem de Dostoiévski dizia que, se Deus não existisse, tudo seria permitido. A solidariedade perderia sentido, e aproveitar ao máximo o que a vida oferecesse, mesmo à custa da felicidade alheia, estaria plenamente justificado, nessa curta passagem pela terra (Irmãos Karamazov).

É interessante notar que mesmo os agnósticos, os ateus, os que não acreditam em Deus vivem a dificuldade de não conseguirem provar a sua inexistência, como reconhece Arnold Toynbee, no livro A humanidade e a mãe Terra.

Li, recentemente, um livro de um jornalista especializado em ciências espaciais, Fred Heeren, prefaciado por um Prêmio Nobel de Física (George Smoot). O autor mostra ser incomensuravelmente mais fácil demonstrar a existência de Deus do que negá-la. Àqueles que negam a falta de escrita divina, ele mostra que não há assinatura mais perfeita do que o DNA. Jamais seria possível a sua criação por mero acaso. Basta lembrar que, há mais de dez bilhões de anos, talvez 13, talvez 15, o universo se mantém numa expansão equilibrada, em função de uma compreensão a uma densidade equivalente a 1092, quando o universo tinha 10-43 segundos de idade, ou seja, o número 1 precedido de 42 zeros! Como descreve George Smoot no citado livro, Stephen Hawking, em Breve história do tempo, lembra que, se a taxa de expansão no primeiro segundo de existência do universo tivesse sido de uma parte de cem mil trilhões, já teria colapsado. E se fosse maior, jamais as galáxias teriam sido formadas. Em outras palavras, fosse menor ou maior a taxa de expansão na primeira ínfima parcela do primeiro segundo de vida do universo ou ele teria colapsado ou sua expansão seria de tal natureza que os corpos sidéreos jamais se formariam, por falta de densidade. Isso, nitidamente isto não é obra do acaso.

Cabe também notar que, em recente reportagem científica, a Folha de S.Paulo publicou, à luz de estudos de universidades americanas, que os pesquisadores chegaram à conclusão de que se colocássemos todo o conhecimento humano, informações e dados em CDs comuns e os empilhássemos, a altura dos CDs iria da Terra à Lua. Tais informações correspondem a apenas 1% daquelas existentes no DNA!!!!

A própria ordem de criação do universo desde o  ‘fiat lux’ – ou para os cientistas, que chegaram com alguns milênios de atraso ao ‘Big Bang’ – até o presente, relatada de forma metafórica na Bíblia, corresponde, rigorosamente, à ordem de criação revelada pela ciência atual, uma demonstração de que dificilmente o caos, o acaso, a desordem, poderiam ter criado algo tão ordenado em todos os seus aspectos.

A própria Terra, se estivesse mais perto de Vênus ou mais perto de Marte, não teria condições de sustentar a sua autorregulação térmica e as condições para a vida humana como conhecemos.

É de se lembrar que a configuração dos diversos sistemas estelares, nas dezenas de bilhões de galáxias existentes no universo, em que os planetas gasosos cercam a estrela central e os planetas mais densos formam um anel externo, frio e isolado, contrasta com a realidade do sistema solar, em que os planetas gasosos é que formam um cinturão de proteção dos planetas internos, possibilitando a criação de vida na Terra e nos permitindo estar aqui e agora, raciocinando e refletindo sobre a beleza do universo e daquilo que o cerca.

Todas essas considerações eu as faço nesta oportunidade, por estar em uma universidade católica, que honra a tradição dos primeiros cultores da educação superior conformando suas lições com o mesmo espírito daqueles primeiros sacerdotes que fundaram as primeiras universidades no mundo.

Ora, essa missão admirável da Igreja tem sido exercida pelos maristas nos diversos continentes, desde a fundação de sua Ordem. O Brasil e o mundo muito devem ao trabalho da instituição de irmãos e de sacerdotes, por ter contribuído para a difusão do amor, da paz, da cultura e da solidariedade em todos os cantos do planeta.

Gostaria, ao encerrar estas breves palavras, comovido pela láurea e homenagem recebidas, de deixar nesta noite, aos jovens aqui presentes, uma modesta reflexão.

Todos temos uma missão no mundo. Podemos, como na parábola dos talentos, exercê-la bem, multiplicando os dons recebidos ou enterrá-los, nada fazendo.

Não somos muitos com títulos universitários no País. Se comparado o Brasil às nações europeias, há uma carência grande de pessoas tituladas. Ora, se temos o privilégio de estar entre aqueles que cursaram universidades e chegaram à titulação acadêmica, nossa responsabilidade com os outros, família, amigos, colegas e pais é muito maior.

Temos, pois, que responder com ações ao privilégio recebido de estar entre os de formação acadêmica. E só saberemos responder ao chamado do próximo e da pátria se conseguirmos viver os valores que se cultivam na Pontifícia Universidade Católica do Paraná, valores estes alicerçados na figura do Senhor Deus do Universo, Homem e Deus, que serve de inspiração àqueles que dirigem a instituição, na qual destaco em especial a figura do Magnífico Reitor professor Clemente Ivo Juliatto, cuja sólida obra educacional serve de inspiração a todos nós.

Comovido e honrado, agradeço esta fantástica honraria que coloca seriamente em risco meu velho e combalido coração de professor universitário.

Discurso proferido em 21/09/11, na outorga do título de “doutor honoris causa”na PUC do Paraná.

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