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Basta de Empulhação

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Desde os primórdios de sua fundação, adotamos como princípio basilar da Revista a defesa intransigente e a preservação do Poder Judiciário e da Magistratura, incluindo, ainda, e também, a defesa das instituições republicanas, o que, mediante os desmandos e tropelias que vêm ocorrendo no Senado Federal, forçosamente, nos impele a participar na luta pelo restabelecimento da moralidade desse ente federativo.
O artigo do jornalista Arnaldo Jabor: “Aprendemos de cabeça para baixo”, publicado em “O Globo” de 25 de agosto, que  explode com veemência e enraivecido contra o achincalhe que corrói as entranhas do Senado Federal, nos faz partícipe do azedume transmitido pelo revoltado e brilhante articulista, como se depreende  de alguns trechos que transcrevemos, demonstrando o inconformismo ante tanta bandalheira sarcasticamente divulgada.
O que vem acontecendo no Plenário do Senado Federal constitui verdadeiro desapreço às tradições cívicas e morais de uma instituição que, desde os tempos da Monarquia até o eclodir da Ditadura de 1964, sempre procedeu com moralidade, zelo e respeito entre os senadores que dignificaram essa Casa do Congresso Nacional.
As deploráveis ocorrências e ofensas proferidas contra a ética e a devida falta de respeito contra a veneranda figura do Senador Pedro Simon, por cidadão já alijado da vida pública pelo clamor das ruas, aliado à persistência humilhante de acusado de transgressão da ética e outras ilicitudes comprovadas, em permanecer na direção do Senado em completa dissonância contra a opinião pública e política, provocando o desrespeito da sociedade, faz com que o Senado da República perca a devida e imprescindível respeitabilidade perante o povo.
Vale chamar à cena a vigorosa afirmativa do Ministro Celso de Mello, em defesa da dignidade do Supremo Tribunal Federal, quando afirmou: “o Supremo Tribunal Federal é maior que todos e cada um dos seus ministros”. A mesma pode-se aplicar ao Senado da República, ressaltando que este é superior e maior que todos e cada um dos seus senadores.
A honorabilidade, a dignidade e o respeito da instituição Senado Federal são e estão imunes à desmoralização e ao descrédito que vêm ocorrendo por desídia, desonra e indignidades praticadas por conhecidos e desmerecidos integrantes dessa Casa legislativa.
Felizmente a imprensa tem difundido com ardor os tristes exemplos e atitudes desses fariseus da política, que envergonham com suas atitudes e ações os cargos que exercem, na sua quase maioria provindos e conquistados através de falcatruas, compra de votos e outras patranhas. É de se esperar que, com a ajuda da imprensa, da televisão e de emissoras de rádio, esses fariseus sejam alijados das sinecuras que abocanharam, deixando os cargos livres desses abutres e preenchidos por cidadãos probos e limpos que possam trabalhar pelo povo e para a Nação.
No dizer pejorativo de Arnaldo Jabor: “Os canalhas são mais didáticos que os honestos. O canalha ensina mais. Temos assistido, como nunca antes, a um show de verdades através do chorrilho de negaças, de cínicos sorrisos e lágrimas de crocodilo. O Brasil está evoluindo em marcha a ré! Nestas últimas semanas, só tivemos ‘des-acontecimentos’. O senador  Mercadante ia sair da liderança do PT, irrevogavelmente. Depois, oscilou, seu mestre deu-lhe um esculacho, e ele voltou atrás. Marcha a ré. ‘Des-aconteceu’.
A Dilma também. Ela ‘não’ se encontrou com a Lina Vieira, não. Querem nos convencer de que a Lina é maluca e resolveu inventar tudo aquilo para prejudicar a Ministra. Ninguém se lembra de que essa polêmica do ‘fui, não fui’ é útil para  camuflar o fato de que a expulsão da Lina aconteceu somente por causa do questionamento da Petrobras.
Tudo marcha a ré. Tudo some. As listas de TV do Planalto se apagaram. Ninguém existe mais nas fitas. Os atos secretos voltam pouco a pouco  e deixam de sê-lo. O nosso Sarney foi absolvido de tudo; as 11 acusações foram arquivadas pelo mordomo-suplente — ‘des-aconteceram’, sumiram na descarga do Conselho de Ética. Sarney, o Comandante do Atraso, disse que não se sente culpado de nada. Está certo — seus  servos decretaram que nada houve. Nossa frágil república está sumindo.
As tramoias e as patranhas de hoje são deslavadas, não há mais respeito, nem pela mentira… Está em andamento uma ‘revolução dentro da corrupção’, tudo na cara da população com o fito de nos acostumar ao horror.
No entanto, justiça ao narcisismo deslumbrado do Lula, com seu projeto de si mesmo: nunca nossos vícios ficaram tão explícitos, nunca aprendemos tanto de cabeça para baixo.
E, aí, nossa única esperança: talvez estejamos aprendendo sobre a dura verdade nacional neste rio sem foz, onde os excrementos se acumulam sem escoamento. Por exemplo: uma visão do cabelo do Wellington, a cara dura de seres como o Almeida Lima, o rosto feliz do Renan e do Jucá nos ensinam muito. Que delícia. Que doutorado de nós mesmos!
Já sabemos que a corrupção no país não é um ‘desvio’ da norma, não é um pecado ou crime; é a norma mesmo, entranhada nos códigos, nas línguas, nas almas.
Aprendemos a mecânica da sordidez: a técnica de furtar o Estado para fazer pontes para o nada, viadutos banguelas, estradas leprosas, hospitais cancerosos, esgotos à flor da pele, orgasmos entre empreiteiras e políticos. Querem nos acostumar a isso, mas pode ser (oh Deus) que isso seja bom: perdemos o autoengano, a fé. Estamos descobrindo que temos de partir da insânia e não de um sonho de razão, de um desejo de harmonia que nunca chega.
Até que enfim nossa crise endêmica está sujamente clara, em cima da mesa de dissecação, aberta ao meio como uma galinha. Meu Deus, que prodigiosa fartura de novidades imundas, tão fecundas como um adubo sagrado, belas como matas, cachoeiras e flores. Como é educativo vermos falsas ostentações de pureza, candor, para encobrir a impudicícia, o despudor, a bilontragem nas cumbucas, nos esgotos da alma… Que emocionante este sarapatel entre o público e o privado: os súbitos aumentos de patrimônio, fazendas imaginárias, açougues-fantasmas, netinhas e netinhos, filhinhos ladrões, a ditadura dos suplentes, cheques podres, piscinas em forma de vaginas, mandingas, despachos, as galinhas mortas na encruzilhada, o uísque caindo mal no Piantella, diante das evidências de crime, as eructações nervosas, os vômitos, tudo compondo o grande painel da nacionalidade.
Já se nos entranhou na cabeça, confusamente ainda, que, enquanto houver 20 mil cargos de confiança no país, haverá canalhas, enquanto houver estatais com caixa preta, haverá canalhas, enquanto houver subsídios a fundo perdido, haverá canalhas. Com esse código penal, nunca haverá progresso. Já sabemos que, enquanto não desatracarmos os corpos públicos e privados, que enquanto não acabarem as regras eleitorais vigentes, nada vai se resolver.
Já sabemos que os mais de R$ 5 bilhões por ano são pilhados de escolas, hospitais, estradas. A cada punição, outros nascerão mais fortes, como bactérias resistentes a antigas penicilinas, e mais: os que foram desonrados no Congresso voltaram fortes e mandam no Legislativo. Temos de desinfetar seus ninhos, suas chocadeiras.
Só nos resta a praga. Isso. Meu desejo é maldizer como já fiz aqui várias vezes.
Portanto, malditos sejais, ó mentirosos, sonegadores, defraudadores, vigaristas, trampistas, intrujões, chupistas, tartufos e embusteiros!
Talvez essa vergonha seja boa para nos despertar da letargia de 400 anos. A esperança tem de ser extirpada como um furúnculo maligno. Através deste escracho, pode ser que entendamos a beleza do que poderíamos ser!”
O destemperado e veemente escrito de Arnaldo Jabor refletem magnificamente o asco, a vergonha e a revolta contra as sandices praticadas pelos enganosos representantes do povo, que desmerecem o mandato recebido.
Os insistentes apelos feitos ao Senador Sarney para que renuncie à presidência do Senado necessitam e precisam ser ouvidos pelo ex-presidente da República, antes que seja tarde demais e a sua reputação e o que resta do seu passado sejam jogados na latrina da história. O ronco de repúdio e revolta do povo já chega às portas do Congresso Nacional, em contínuo encrespamento, e poderá se repetir, como aconteceu com o Presidente Collor, em razão das cretinices praticadas,terminando  com a revolta e o clamor da população por expulsá-lo do Palácio do Planalto.
Portanto, Presidente Sarney, saia de cena enquanto é tempo. Não aceite servir de anteparo, escudo e trincheira dos que erraram e o fizeram errar; pois, se persistir na resistência, corre o risco de ficar sozinho, abandonado e escorraçado do Senado pela força incoercível do povo, e possivelmente poderá acontecer, infelizmente, que seus descendentes venham a ter vergonha de usar o nome Sarney.
Basta, Senador. Saia enquanto é tempo!
Entretanto, apesar do tétrico quadro pintado pelo jornalista Arnaldo Jabor, estou imbuído com o pensamento no porvir de esperanças, acreditando plenamente que o amanhã trará novos rumos na política brasileira, no sentido de que novos fatos ocorrerão para restaurar e restabelecer a plena conceituação do Senado Federal, graças às intenções demonstradas por inúmeros membros dessa Casa Legislativa, cujas ações e propósitos buscam ultrapassar o brilho e o prestígio histórico que alcançou nos idos do Império e em diversos períodos da República.