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Brasil. O país do futebol e da violência esportiva também

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Com cinco títulos mundiais, o Brasil é considerado o país do futebol e, às vésperas da Copa do Mundo de 2014, o mundo inteiro tem se surpreendido com os altos níveis de violência no esporte que é “a paixão nacional”. O tema é motivo de preocupação em todo o mundo e a própria entidade máxima do futebol mundial, a FIFA, está solicitando medidas enérgicas para coibir tamanha violência.

O tema domina as discussões, principalmente depois das cenas de selvageria que tomaram conta das arquibancadas no jogo Atlético Paranaense e Vasco, pela última rodada do Campeonato Brasileiro e que foram divulgadas em todo o mundo com total perplexidade.

A polícia dos estados do Rio, Santa Catarina (onde foi realizado o jogo) e do Paraná, em ação conjunta denominada “Operação Cartão Vermelho” prendeu 28 torcedores participantes das brigas e integrantes de torcidas organizadas dos dois times e todos, além de dois que fugiram da prisão, serão submetidos, em decisão inédita, a júri popular acusados de diversos crimes: formação de quadrilha, danos ao patrimônio público, tráfico de drogas, agressões e tentativa de homicídio.

O Superior Tribunal de Justiça Desportiva está estudando diversas medidas para coibir a violência entre torcidas que chegou a níveis insuportáveis. O Tribunal estuda não apenas punir os clubes, cujas torcidas se envolvem em brigas, confusões e crimes diversos, com perdas de mando de campo, mas também com suspensão de seus direitos de disputar campeonatos, além de processar criminalmente os responsáveis.

Medidas deste tipo foram tomadas na Inglaterra onde torcedores apelidados de “hooligans” levaram a violência no futebol a níveis críticos, com mortes e assassinatos, o que levou a primeira ministra inglesa da época, Margaret Thatcher a fazer votar no Parlamento uma legislação dura contra torcedores violentos e os próprios clubes, o que foi decisivo para diminuir a violência no futebol inglês, além de medidas de monitoramento de torcedores antes, durante e após as partidas com o uso de câmeras de alta tecnologia.

No Brasil, entre 1999 e 2009 – ou seja, num período de 10 anos – a violência entre torcedores em jogos de futebol provocou a morte de 43 pessoas. Em 2012, o número de mortos chegou a 23. Mas em 2013, foram 33 mortes por motivo de brigas entre torcidas.

Levantamentos na área de inteligência da polícia têm levado à descoberta de que  inúmeros integrantes de torcidas organizadas estão envolvidos com tráfico de drogas e com organizações criminosas de alta periculosidade. Nos últimos meses, a polícia federal descobriu torcedores da Torcida Jovem Fla (do clube Flamengo) envolvidos em uma série de crimes como tráfico de cocaína e assassinatos, por exemplo. Integrantes de grupos de milícias e de organizações criminosas chegam mesmo a fazer escoltas em ônibus dessa torcida, a caminho dos estádios. No ano passado, torcedores da Jovem Fla assassinaram um torcedor do Vasco depois que integrantes de uma torcida vascaína mataram um torcedor deste time.

Para especialistas em segurança, a solução depende de um conjunto de medidas que precisam ser tomadas, entre as quais, punição aos times de participar de campeonatos, suspensão, proibição de torcedores violentos de ir aos estádios, processo criminal, prisão, multas pesadas, além de outras, como ampliação dos sistemas de segurança, capazes de promover monitoramento total de torcedores a caminho dos estádios, durante os jogos e depois dos jogos.

Outro assunto ligado à violência física nos estádios está a preocupação das autoridades esportivas com o altíssimo nível de violência verbal existente entre torcedores, através de manifestações por redes sociais, observando-se desde xingamentos chulos, até ameaças e agendamento de datas e horários para agressão a torcedores. Nos últimos dias, a situação de violência verbal e as ameaças físicas chegaram mesmo a atingir crianças em escolas, ruas e praças públicas. No Rio, torcedores que nas ruas apenas usavam a camisa do Fluminense, por exemplo, foram submetidos a ameaças e agressões de torcedores contrários e até mesmo crianças de 3, 4 anos foram atingidas. As ameaças chegaram mesmo a atingir membros do STJD através de redes sociais e de telefonemas anônimos com clara intimidação para que haja descumprimento de leis esportivas.

No país do futebol, se não forem tomadas medidas urgentes, corre-se o risco de se transformar as arenas esportivas modernas, em construção para a Copa do Mundo, em arenas onde, nas arquibancadas, o futebol vira uma disputa selvagem abalando a sociedade e afrontando as leis, a ordem, a justiça e, no entanto, a polícia e os criminosos permanecem agindo impunemente. Também, aqui, como em todos os setores da sociedade, o que deve vigorar é o império da lei, doa a quem doer, e não a impunidade, muitas vezes, também, acobertada pelos próprios clubes de futebol.