Caiu mais uma fortaleza da imprensa

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Estupefato, mas não surpreso, no dia 1º de dezembro deste ano, li o editorial de Hélio Fernandes, comunicando o encerramento das atividades do seu jornal, a Tribuna da Imprensa, soltando o rugido do tigre enfurecido e impotente contra a adversidade, principalmente governamental, que há muito vem se abatendo sobre os seus posicionamentos contundentes, libertários e nacionalistas, feitos incessantes e sempre intransigentes na defesa dos interesses da Povo e da Pátria.
Hélio é herói obstinado, corajoso, irreverente e até atrevido na pregação de suas arengas panfletárias, defendendo o que acredita e postula, o que lhe custou – além das prisões, desterros e complicações de toda espécie – o fechamento do seu vibrante bordão e da intemerata Tribuna da Imprensa.
Dos 60 anos de existência da Tribuna, os primeiros 14 correram por conta do apoteótico jornalista e controvertido político Carlos Lacerda; os seguintes 46 foram exercidos por Hélio Fernandes, até este 1º de dezembro. Foram anos de lutas e verdadeiras guerras contra os detentores do poder, protegidos e apaniguados, que, na sua maioria, aviltaram as funções exercidas com desmandos e desbragada corrupção.
Durante essas quase 5 décadas, Hélio não transigiu, não perdoou, usando sempre da sua verrina mais inflamada, causticante, desabrida contra os ladrões dos dinheiros públicos, a infundir-lhes com contundência a pecha e o labéu da infâmia e do descrédito.
As posições e atitudes de Hélio, entretanto, têm lhe custado caro. Sofreu prisões, agressões, desterro na sua própria Pátria, processos de várias procedências e inúmeras tentativas visando a falência e o fechamento do jornal.
Além das prisões e sofrimentos pessoais, também a “Tribuna” foi violentada, com a invasão, depredação, quebra das impressoras, incêndio, destruição da Redação e a perene e constante censura sofrida durante os 20 anos da Ditadura Militar.
Com a democratização e volta das garantias constitucionais, retomou no jornal o seu pendor libertário, nacionalista, defensor do patrimônio público, da moralidade política-administrativa e passou a desancar, com rigor, as medidas liberais do Governo, principalmente do presidente Fernando Henrique Cardoso – em especial contra a estatização de empresas públicas rentáveis, contra os juros escorchantes, o pagamento da dívida pública, a supressão de direitos dos trabalhadores, tornando-se, com o seu jornal, o mais ferrenho opositor de FHC, pondo à nu as mazelas públicas, os políticos e a corrupção, principalmente a prorrogação do mandato presidencial, que considerou um escárnio contra a democracia, pela compra desbragada de votos no Congresso Nacional.
Saudou com laudatórias matérias jornalísticas a eleição do presidente Lula, mas, logo de início, passou a criticar, com fundamentadas razões, as escolhas governamentais, se indispondo com a cúpula petista que riscou a “Tribuna” da distribuição da propaganda oficial. Com isto, voltou ao que sempre foi: o mais combativo jornalista brasileiro a externar suas opiniões sempre sarcásticas, cruéis e malévolas contra tudo e todos, que, na sua opinião, no exercício de cargos públicos, não defendem os legítimos interesses do Povo e da Nação.
A pendência judicial que mantém contra a União, pleiteando indenização e ressarcimento pelos prejuízos sofridos com as violências e a censura ao jornal, além de danos morais, postergada como são todas as demandas contra o Governo e agravada com a difícil situação comercial e financeira da “Tribuna”, produziu a debacle explicitada em seu libelo de 1º de dezembro.
É uma lástima. Mais uma trincheira livre da imprensa que cai. Prazo aos céus que possa ser temporária.

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