Conhecimento e valores éticos na era da pós-verdade

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Como viver bem em um mundo onde as informações circulam em velocidades cada vez maiores? E não são apenas os fatos que se multiplicam em segundos, mas as suposições, os boatos, os rumores e as inverdades, nos conduzindo à intrigante “Era da pós-verdade” – seja lá o que isso realmente significa. Vivemos um momento em que uma mentira bem elaborada e até mesmo um falso testemunho podem se transmutar em eventos reais, de acordo com os benefícios que essa tal “pós-verdade” poderá trazer para quem a manipula.

Mais do que nunca, hoje é necessário esmiuçar, investigar e esclarecer todos os pontos, ouvir todos os lados, fugindo dos desvios que conduzem a caminhos que não sejam a notícia em sua forma mais pura e legítima. É necessário fazer como a personagem Bibiana Terra, da clássica obra de Érico Veríssimo, o “Tempo e o Vento”, que repetia um velho ditado português: “Palavras loucas, ouvidos moucos”. São tempos duros para quem trabalha com a produção de notícias, quando toda a facilidade de acesso à informação deveria ser positiva. Mas não é bem isso o que acontece. A importante contribuição que a tecnologia nos trouxe, especialmente com as mídias sociais, ajudou também a criar algum sectarismo, uma quase “briga de torcidas”, uma guerra de palavras, nem sempre coerentes.

Como entender a era da pós-globalização, um momento em que todas as certezas que tínhamos sobre os mecanismos que movimentam o mundo parecem se partir em centenas de milhares de partículas, formando um quebra-cabeças incompreensível, com peças que não se ajustam? As democracias se ajoelham, fragmentadas pela crise de representatividade e ameaçadas pelo peso das mudanças sociais.

Como combater as injustiças sociais que ignoram as estatísticas cada vez mais assombrosas, e que mostram a intensificação de históricos desequilíbrios de gênero, classe social e etnia? A violência crescente e a crueldade do crime; os impasses em busca de soluções para resgatar instituições que se enfraquecem diante da corrupção e do jogo de interesses. É preciso identificar novas maneiras de fazer funcionar engrenagens que parecem ter emperrado, a despeito de todos os esforços normativos empregados para que, ao contrário, tivessem a precisão de um relógio suíço.

As respostas para estas perguntas, e sobre como transpor estes e tantos outros dramas inexoráveis do mundo moderno, estão em nós mesmos. O esclarecimento para as muitas e angustiantes dúvidas está nos ensinamentos que aprendemos com nossos mestres na faculdade. Em nosso conhecimento e em nossa coragem para transformar o mundo com nosso trabalho, seguindo firmes na missão que abraçamos.

Sobretudo, acredito que as respostas sobre como podemos enfrentar todos esses desafios estão nos valores que herdamos de nossos pais, de nossos avós, de nossas famílias.
Há um ano, eu me fiz uma única pergunta: como seguir em frente sem ter mais ao meu lado a inigualável sabedoria de Orpheu dos Santos Salles? Parecia uma tarefa impossível de ser realizada. No entanto, aos poucos fui percebendo o quanto havia de meu pai em mim mesmo. Percebi que, ao longo de minha vida, abracei seus desafios, me revesti de coragem para combater suas lutas, me preparei para ser como o personagem da novela Cervantina Dom Quixote de La Mancha, uma espécie de Sancho Pança, o seu mais fiel escudeiro.

Então me vi sem aquele que me guiou no caminho do bom combate. Ainda que esta caminhada, pela grande lacuna deixada, soe como a realização de uma tarefa hercúlea, devo dizer que nunca, jamais, foi ou será um sacrifício. Antes o contrário. Ao seguir em frente, sem a figura de meu pai, do fundador desta revista, do homem que tantas realizações concretizou em vida, entendi que esta missão sempre foi a minha própria. Percebi que o meu trabalho também pode trazer respostas para todas as perguntas que fiz no início deste texto.

Não apenas o meu trabalho, mas o de pessoas que, como estes dois “cavaleiros”, seguem no combate pela defesa das instituições, das leis, das normas, da ética, da transparência.

Este grupo de pessoas, que tenho a honra de contar como colaboradores em nossa revista, é responsável pela construção dos novos caminhos seguros por onde a sociedade poderá seguir rumo à justiça e à plena cidadania.

Sim, é bem verdade que os desafios são muitos, como ficou expresso nas palestras de notáveis que participaram do XIX Seminário de Verão, com o tema da pós-globalização, realizado em julho na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra – e cuja cobertura está no encarte especial desta edição.
Por outro lado, quando nos deparamos com as adversidades do mundo de hoje, precisamos voltar os olhos para o que vem sendo erigido em nome da legítima transformação social, condição única para um futuro mais pacífico para toda a humanidade.

Nas demais páginas desta edição podemos constatar o quanto o trabalho deste citado grupo de colaboradores vem contribuindo para mudar a realidade do País. A entrevista de capa, com a ministra Grace Mendonça, nova titular da Advocacia-Geral da União (AGU), revela um aspecto interessante no caminho dessa almejada transformação: pela primeira vez na história, temos uma formação majoritariamente feminina na cúpula do Judiciário nacional. Neste grupo também estão a Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge, que tomará posse em setembro, e as Ministras Cármen Lúcia e Laurita Vaz, respectivamente, as presidentes do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça.

Temos também exemplos de que, depois de muitas incertezas, temores e receios, começamos a incorporar a cultura da desjudicialização no Brasil. Foi um longo percurso até aqui.

Um caminho que ainda não foi totalmente percorrido. Mas o que há de positivo nisso é que tudo vem sendo construído com o firme lastro do conhecimento, como revela a entrevista com a juíza Valéria Lagrasta, da 2a Vara da Família e das Sucessões da Comarca de Jundiaí, vencedora do prêmio Conciliar é Legal 2016 (CNJ), e uma das autoras do Guia Prático de Funcionamento do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania”, o Cejusc, que mostra as boas práticas para instalação desses Centros, de acordo com o que determinava a Resolução no 125 do Conselho Nacional de Justiça.

Estes e outros artigos que compõem a edição no 204 da Revista Justiça & Cidadania trazem à tona as muitas iniciativas, os debates e os conhecimentos de profissionais renomados do mundo jurídico. São estas as principais armas – a nossa rica herança de valores e de conhecimento construído a que me referi antes – que estão contribuindo para que nossa busca pela justiça e paz social siga sem interrupções.

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