Consciência Ecológica para o Meio Ambiente

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Há pouco mais de cem anos, quando o biólogo alemão Ernest Heinrich propôs a criação de uma disciplina para estudar as interrelações entre os seres vivos e o ambiente, longe estava de supor o que aconteceria no final do século XX. Juntando as palavras gregas oikos (casa) e logos (ciência, estudo), Haeckel chamou de ecologia o novo campo de conhecimento, que se propunha a estudar a casa. Ou seja, estudar a Terra no que se refere às interdependências de seus moradores entre si e em relação ao ambiente orgânico e inorgânico.

Pouco a pouco, a ecologia cresceu como área de conhecimento: a partir de 1910, reconhecida como um saber distinto da biologia, a nova ciência cresceu, ganhou espaço, virou sinônimo de preservação do meio ambiente, gerou um pensamento preservacionista que resultou em uma forma de comportamento social, político e… mercadológico. A linguagem científica da Ecologia Natural transformou-se no discurso político da Ecologia Social, ou Ecologia Política, hoje com uma variada gama de correntes e matizes.

Se é verdade que uma reformulação modernizadora da legislação preservacionista é imperiosa e urgente, ainda mais urgente e imperiosa é a criação de uma consciência ecológica, que ultrapasse o simples discurso ecológico. Não bastam as leis se não houver uma cultura preservacionista. E para isto, o que mais atrapalha é a alimentação do modismo ecológico (apesar de não se poder negar sua contribuição para trazer o tema à realidade do cotidiano). É o modismo que – por esvaziar a idéia de si – faz com que o freqüentador da praia, depois de entupir de lixo as areias, ao sair, vista uma camisa onde se lê: “SALVEM AS BALEIAS!” E é a mesma pessoa que se acredita entre os que lutam pelo meio ambiente.

O primeiro passo que se propõe é, portanto, não à ecologia-modismo, não à ecologia-folclore e sim à ecologia-consciência. É preciso iniciar a implantação de um programa de conscientização ecológica no que ela tem de mais sério, que promova uma mudança cultural. Não bastam as cerimônias de plantio de sementes no dia da árvore, tão comum em círculos governamentais e escolares. Não basta sequer ensinar a respeitar a árvore. As coisas vão muito além: apresentada como um fenômeno de transformação social, a questão ecológica questiona o que se conhece como qualidade de vida, expressa em um produtivismo desvairado (que trabalha com uma obsolescência e vida útil planejadamente curta) que tem na outra ponta o conseqüente consumismo irresponsável, onde imperam o “one-way” e o descartável, verdadeiras sangrias desnecessárias nos recursos naturais, além de uma permanente fábrica de acumulação de lixo (que no Brasil, lamentavelmente, ainda não tem um tratamento de reciclagem e de reaproveitamento: dizia-nos uma pessoa amiga que o Terceiro Mundo ainda não está preparado para o descartável. É que a maioria das pessoas ainda vê a cidade como uma imensa lata de lixo).

Visto sob o aspecto de uma verdadeira transformação de hábito de consumo de produção, a ecologia nos levará fatalmente a novas relações de mercado e, portanto, em novas relações econômicas. Daí o fundo da questão ecológica vai desaguar em temas maiores que vão desde o pensamento macroeconômico, até as questões conseqüentes de distribuição de renda. Aí o terreno fica perigoso, por tocar no que mais delicado existe: a estruturação social vigente, as relações do poder.

Mas não é preciso ir tão longe, por enquanto. Antes, é preciso impedir que o modismo banalize o discurso ecológico, até mesmo para dificultar sua apreensão por forças do capitalismo predatório. É preciso impedir que o modismo banalize o discurso ecológico. Do contrário, a ecologia ficará com as sobras de saturação, qual uma onda a atingir e abandonar diferentes segmentos sociais, até transformar-se definitivamente em um discurso vazio, estéril e eterno, como hoje é a “seca do nordeste”, a “educação”, a “reforma agrária”, a “saúde pública” etc.

Entretanto, trava-se hoje uma nova batalha ideológica que divide o mundo não mais em esquerda e direita, mas em preservacionistas e desenvolvimentistas, sob cujas bandeiras se formarão novas alianças, até há pouco inconcebíveis face a antiga e moribunda equação capital x trabalho. Nesse novo reequacionamento de idéias, querem os preservacionistas a desaceleração do crescimento industrial, em favor de outros ideais de vida. A questão, entretanto, ocasionou subprodutos perigosos, como já assinalava Michel Bousquet (Le Novel Observateur e Seara Nova, abril/74), ao denunciar que os países desenvolvidos depois de devastarem os seus recursos e assegurarem seu desenvolvimento – conseqüentemente a sua dominação sobre outros não desenvolvidos – pretendem impedir que os países em atraso se desenvolvam, em nome de um suspeito preservacionismo.

Tudo isto está as nossas portas, quando se examinam os lances da geopolítica mundial em relação à Amazônia. Principalmente se considerarmos que esses poucos países desenvolvidos consomem 80% dos recursos naturais usados no planeta e são responsáveis por 82% da contaminação química do ar e da água.

Em outra vertente de raciocínio, o mesmo discurso preservacionista tem servido como argumento para que os países pobres possam pleitear favores (!), investimentos, empréstimos, facilidades, regimes preferenciais, redução da dívida externa. Isto sem mencionar os países exportadores de poluição, como o Japão, e os que estão ansiosos por importá-la, como o Peru. Ou seja: a ecologia entrou neste final de século como instrumento tanto para manter a atual geopolítica de dominação, como para atenuar as injustiças do sistema de colonialismo econômico.

Muito poderá ser feito. Como ação interdisciplinar – já que a ecologia se relaciona com todas as áreas do viver e da cultura humana – o que se pode por primeiro é um planejamento que englobe a educação, a saúde, o transporte, a habitação, o saneamento, enfim, todas as secretarias. Em cada uma delas, e em todas, há uma imensa e necessária tarefa a ser feita: educação orientada para a ecologia, em todos os níveis, desde o primário ao ensino superior; tratamento privilegiado na obtenção de créditos oficiais para empresas de efetiva ação ecológica; tributação especial para empresas e atividades de perfil ecológico; orientação, treinamento e divulgação do turismo ecológico; modificação na separação e coleta domiciliar de lixo, bem como seu reaproveitamento; planejamento da exploração e uso dos recursos naturais, com a colaboração de todos os órgãos estaduais, municipais e federais; encaminhamento de legislação específica para a área estadual, suprindo lacunas da legislação federal e municipal; convênios de fiscalização contra ação predatória, firmados com entidades de classe, associações de moradores etc.; aumento de ofertas de opção para recolhimento voluntário do lixo produzido nas ruas; taxação sobre descartáveis; programa governamental de aproveitamento de material orgânico, inclusive como combustível; facilidades para uso de energia alternativa etc.

Cada uma destas ações se desdobra em várias outras. É necessária uma reflexão sobre as teses do desenvolvimento sustentável, cujo conceito básico consiste no atendimento das necessidades do presente sem o comprometimento das possibilidades de as futuras gerações também satisfazerem as suas. Tudo é importante, tudo é prioritário. Mas nada é mais prioritário do que adotarmos a atitude de mudança de comportamento, sem o que estaremos criminosamente condenando gerações muito próximas a uma caminho sem saída, por culpa exclusiva de cada um de nós.

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