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Dom Quixote vive em nós!

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Dom Quixote é a lembrança de uma preciosa metáfora da condição humana. A efígie de uma pessoa simples que, à força de tanto ler e imaginar, foi-se distanciando da realidade, a ponto de já não poder distinguir em que dimensão vivia. Lançou-se com coragem ao mundo, acalentando o ideário da justiça1.

Não importam os meios considerados bizarros pelos quais buscava esse desideratum.

O exemplo aventureiro de Quixote está presente na parte mais recôndita de nosso “ser”, e o invejamos pela coragem com que norteou sua vida errante na realização de seus projetos. Quanto a nós, guerreiros apenas no plano ideal, nos deixamos manietar pelas difíceis injunções da vida contemporânea que impõem a rotina das nossas agendas e compromissos. E não sabemos nos desligar do contexto que sufoca e oprime sem que o percebamos.

Dom Quixote está mais vivo do que nunca em todas as manifestações humanas. A verdade é que jamais perecerá. Enquanto houver criaturas habitando o planeta, a rica saga emanada do gênio de Cervantes, há de nos encantar e assombrar, como paradigma do desassombro, como exemplo da aventura criativa, como materialização dos sonhos mais fantásticos que povoam nosso imaginário.

Acredita-se que Dom Quixote é o livro mais lido depois da Bíblia. Talvez em comum, o hino de amor ao semelhante, o respeito aos seus direitos, a exaltação da força poética fundamental da alma humana.

Quantas vezes, em nossas vidas, somos chamados a enfrentar os moinhos de ventos, a acalentada busca da alma gêmea, a doce e inatingível Dulcinéa, musa de todos os devaneios, e o desejo de sempre contar com um amigo e confidente do perfil desinteressado de um Sancho Pança, fiel escudeiro na verdadeira acepção da palavra.

De algum modo, todos somos “Dons Quixotes”. A cada manhã, neste imenso Brasil, milhões de homens e mulheres vestem suas roupagens de luta e, sem Rocinante, sem lança e sem Sancho Pança, partem para a batalha do quotidiano, lutando por sua própria sobrevivência e pela de seus familiares. Dir-se-ia que essa guerra, sem glória e sem medalhas, não valeria um traço da privilegiada pena de Cervantes. E eu direi que não há heroísmo maior do que esse tipo de batalha, aquela anônima, travada dia a dia, num país de tantos contrastes e de tanta injustiça.

Somente “Dons Quixotes” perseveram, porque o pior do que a derrota é a saída do campo antes do jogo terminar. Certamente fazemos parte desse time, cada qual em sua posição, com acendrado e atuante otimismo, acreditando que as coisas hão de melhorar um dia.

O maior desafio das criaturas é encontrar o ponto de equilíbrio entre a fantasia e a realidade. Quantos não se distanciam desta, a ponto de não distinguir a dimensão em que vivem.

Nos tempos modernos, as teorias psicanalíticas elaboradas por FREUD revelam atitudes contrastantes da natureza humana, num duplo movimento de atração e repulsa. É como se houvesse uma “dupla navegação”, do imaginário à realidade. As ambivalências e as contradições presentes em nosso espírito constituem o maior desafio da humanidade.

Permitam-me um imperdoável elastério, referindo-me ao exemplo patriótico do alferes Tiradentes, que parece ter-se impregnado dos paradoxismos do fidalgo, para levar a cabo o grandioso projeto libertário do País, via Diamantina, cujas sementes germinaram anos após o sacrifício.

Sabe-se que a história da Inconfidência não é um relato de combates, de choques armados, de rugir de bombardas, de fumaça de pólvora e de derramamento de sangue entre setores conflagrados, como conta Donatelo Grieco.

Muito longe disso.

Foi uma curtíssima conspiração de poucos meses e de poucas pessoas, que sofreram na própria carne, por alimentarem um sonho legítimo, porém – força reconhecer – “quixotesco”, de expulsar do País a presença estrangeira naquele momento histórico. A briga era desigual, e por isso o sangue correu, não nos campos de batalha, mas na insidiosa tortura e no suplício impiedoso dos conjurados, cujas únicas armas eram seus ideais libertários.

Na rotina das idas e vindas, de casa para o trabalho, na contemplação da imponente estátua de Tiradentes, junto ao Paço Imperial, de nossa querida cidade do Rio de Janeiro, não me sai da cabeça o supremo ato solitário e heróico do grande mártir da Independência, que a poeira dos tempos jamais apagará.

A responsabilidade por dias melhores é de todos os brasileiros. É preciso honrar a saga de nossos heróis, convocando o povo, não o que folga e dorme, mas o que trabalha, sua e chora; que sabe tão bem, melhor talvez que os sábios, quanto cria o seu trabalho, e quanto fecunda o seu suor e as suas lágrimas.2 Nessa luta – repetindo ANTERO DE QUENTAL – não haverá necessidade de canhões com que havemos de afirmar a nossa vitalidade nacional, mas com perseverantes esforços de inteligência e da vontade, com trabalho, estudo e retidão. Nem a nossa dignidade está dependente de um couraçado, ou de vários couraçados, mas só e exclusivamente da energia de nossa vida moral.

Intriga-me sempre a coragem dos arautos, que emergem geralmente das camadas populares.

Na comarca vizinha de São Gonçalo, minha terra, surgiu um homem que perdera a família em um incêndio ocorrido em um circo. O fato, dizem, teria lhe perturbado as faculdades mentais. A partir daí, tornou-se outra pessoa, um filósofo, por assim dizer. Passou a se chamar “Gentileza”. Enfrentou o mundo a pé, por não ter nem um cavalo magro por companhia, e nem sequer o rócio de um amparo amigo.

Nada a acompanhá-lo senão a longa e espessa barba, o cajado, as sandálias franciscanas e a tábua das virtudes humanas que escrevera, sabe Deus como, contendo os preceitos do perdão, do amor ao próximo e da caridade.

No ar profético que ostentava, com os olhos perdidos no espaço, lembrava a figura de Moisés ao lançar objurgatórias contra o sistema. A mensagem de seu testemunho está inscrita nas paredes dos viadutos, junto aos terminais rodoviários do Estado. Curioso é que ninguém ousou apagar o que lá está escrito, ainda hoje. “Gentileza” tornou-se personagem nacional. Mereceu destaque em samba-enredo da Viradouro. Granjeou simpatia popular. E desapareceu…, como que por encanto, após haver cumprido sua missão apostolar.

O bispo da transposição das águas do São Francisco ousou desafiar os poderes do Príncipe. Com a idéia da ameaça da auto-imolação, dividiu o país. Ganhou, porém, a promessa de um estudo de impacto ambiental mais acurado. Já é alguma coisa, em um país que é governado pelo poder incontrastável de um soberano.

Até aqui as doces e naturais fantasias de personagens que acreditaram, e saíram ao mundo em busca da realização de sonhos de conquistas legítimas. CERVANTES, se aqui vivesse nesses conturbados tempos contemporâneos, certamente encontraria inspiração para outro livro, de sucesso garantido. Contaria a estória de um mago tupiniquim, obcecado pela idéia da erradicação da fome, porque conheceu a seca das caatingas do interior nordestino.

Esse arauto vivia a proclamar em seus arroubos retóricos:

“Se um dia chegar ao Poder, não descansarei enquanto meu povo não tiver em sua mesa três lautas refeições: no café da manhã, no almoço e no jantar.”

Não haveria assim, mais fome em nosso país! Contudo, chegou o arauto ao cume, abjurou a promessa e a fome continuou, no mesmo passo!

São as inexplicáveis ambigüidades que acompanham o ser humano quando alcança o Poder.

Vivemos difíceis e sucessivas quadras de dominação, em que o Estado é o cruel verdugo do cidadão, impondo-lhe sucessivas “derramas” sob o peso de 74 tributos, entre impostos, taxas e contribuições, e se somar os auto-serviços – educação, previdência social, saúde e segurança privada –, porque não há como confiar nos serviços públicos que ele oferece, o peso do confisco alcança algo entre 65 e 70% de tudo o que a economia produz.

Fica difícil chegar ao fim do mês sem recorrer aos cartões de crédito, com as conhecidas e gritantes taxas de juros, que empobrecem cada vez mais o cidadão brasileiro. A cada dia mais impostos a pagar e menos salário a receber. E os que perderam seus empregos?

Nem o mais ganancioso imperador teve coragem de confiscar tanto.

A ordem jurídico-social não pode mais conviver com medidas que afrontam a consciência coletiva. O homem público precisa dar exemplo de cidadania e respeito à Nação que o credenciou a agir em nome dela. O Estado precisa cumprir suas obrigações institucionais, sob pena de desestabilizar-se. Daí o percuciente e corajoso brado maranhense, do ministro Edson Vidigal, Presidente do Superior Tribunal de Justiça:

“É preciso mobilizar a sociedade, as forças vivas da nação e os formadores de opinião pública para constrangerem as elites políticas, pressionando para que a reforma política, eleitoral, partidária seja realizada. A sociedade tem que pôr os políticos na parede”.

Agride o caráter ético do País a possibilidade de candidatos a cargos eletivos responderem a processos penais e ainda conseguirem eleger-se, conquistando a impunidade que avilta e degrada as pessoas de bem.

A conseqüência aí está: colegas julgando colegas em CPI’s intermináveis, em vez de cumprirem a sua missão legislativa, aliás, da qual há muito já abriram mão, quando se permite ao Executivo o poder de legislar. Através de medida provisória muda-se até o entendimento cristalizado do Supremo Tribunal Federal. Nunca se legislou tanto, tão apressada e casuisticamente, nunca se invadiu tanto os direitos individuais, nunca foi tão irremediavelmente confusa a noção do respeito a garantias jurídicas, nunca instituições antes respeitadas se tornaram instrumento de ativismo ideológico, demagogia e estrelismo.3

O País, paralizado, vive à sombra de CPI’s, com poderes investigatórios, como se fossem instâncias policiais e judiciais.

Revela Saulo Ramos, estudioso do assunto4:

“Para que se tenha uma idéia exata de como nossas comissões parlamentares estão se transformando em desaguadouros de inutilidades, basta atentar para um detalhe: nos últimos dez anos o Supremo Tribunal Federal requereu ao Congresso Nacional 153 licenças para processar parlamentares acusados da prática de crimes. Nenhuma foi concedida. Nenhuma! Muitos destes pedidos de licença referem-se a delitos imputados a parlamentares, ou a pessoas que depois se elegeram para o Parlamento, pelas próprias comissões de inquérito. Se a CPI, com o estardalhaço costumeiro, aponta um crime e um culpado, e o Parlamento depois não concede licença para processá-lo porque veio a ser eleito congressista, que autoridade moral poderá haver nas demais acusações proferidas pelos parlamentares?”

Para nada servem as leis quando o Estado, encarregado de fazer cumpri-las, se enfraquece e se distancia, ampliando o dissenso entre a sociedade e os grupamentos políticos incumbidos de fazê-lo funcionar.

Não devemos nos permitir que aposentemos a armadura de lata do cavaleiro andante, da luta pelo bom combate, apesar dos desânimos que nos assaltam em alguns momentos, com a constatação ad nausean do câncer da corrupção que projeta suas metástases sobre todos os segmentos da administração pública.

A epidemia alcança até famílias, em que pais e filhos, ligados ao poder, agem na formação de conciliábulos para lesar os cofres públicos. Não há nada mais triste quando se assiste filho e pai encarcerados, cumprindo pena juntos, expostos ao escárnio da Nação.

E sobre esse drama pungente, que liga pai e filho sob o aspecto criminógeno, Farid Attar, ano 1140, na “Linguagem dos Pássaros”, lança libelo contra todos aqueles que não levam em consideração o preceito bíblico, segundo o qual não se deve “acumular riquezas na terra, porque os ladrões roubam e as traças corroem…”

E nos conta a seguinte história:

“Um homem avarento morreu, deixando escondido um cofre de ouro. Um ano depois, ele apareceu em sonho a seu filho sob a forma de um rato que, com os olhos cheios de lágrimas, corria para cá e para lá, ao redor do lugar onde escondera seu tesouro. Seu filho lhe perguntou: “Por que vieste aqui, meu pai? Dize-me!” O pai respondeu: “Vim para ver se alguém descobriu o ouro que aqui deixei escondido.” O filho perguntou novamente: “Por que tens a forma de um rato?” Ele respondeu: “O coração no qual cresceu o amor pelo ouro assume esta forma no plano espiritual. Presta atenção e beneficia-te do que vês. Renuncia ao ouro, distribuindo-o aos pobres, ó filho meu!”