Dr. Raul e o farol da liberdade

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Tecio-Lins-e-SilvaAdvogar é compreender os dramas humanos. A lição, de simples e extraordinária importância, orienta meus passos desde os bancos da faculdade. É dos mais marcantes ensinamentos que me foram dados por aquele que tenho o privilégio de chamar de mentor e pai: dr. Raul Lins e Silva.

Referência para muitos profissionais de diferentes gerações, dr. Raul completaria 100 anos em 2013. Seu coração parou cedo, em 1968, em uma desastrosa cirurgia cardíaca, que privou o Brasil de um dos seus mais talentosos advogados em plena oposição ao regime militar. Todavia, dr. Raul nunca partiu de nossas vidas. Fez-se presente pelo exemplo de generosidade, gentileza e defesa da liberdade que cultivou, tanto na profissão quanto na vida pessoal, e que se estendeu para muito além dos 54 anos que passou entre nós.

Nascido em berço simples, era o quarto de 13 filhos de uma família humilde de Olinda. Mudou-se para o Rio de Janeiro com a família ainda criança. Dotado de extremas sensibilidade e simplicidade, gostava de ir trabalhar de ônibus, porque se sentia parte do povo. Nutria aquele amor ao próximo que o fazia advogar independentemente da remuneração. Fosse o cliente rico ou pobre, dedicava–se com a mesma integridade. Aonde quer que fosse, fazia-se respeitar sem ser arrogante. Em casa, na rua ou no tribunal, foi um homem genuinamente modesto. O mais generoso e mais compreensivo que conheci.

Dr. Raul notabilizou-se como democrata militante, que acreditava na igualdade. Sua essência libertária logo o conduziu à defesa de presos políticos, já no Estado Novo de Getúlio Vargas. Foi também um dos primeiros advogados a opor-se aos militares após o golpe de 64. Chamava colegas para dividir as causas e atuava sem alarde nos bastidores para obter habeas corpus e quebrar a incomunicabilidade dos presos políticos. Quando nos deixou, dr. Raul estava em plena atividade. Fui eu, então, o encarregado de dar sequência aos seus processos, oportunidade inestimável de mirar-me, mais do que nunca, em seu exemplo e de colocar em prática o que ele me ensinou.

Com sua incrível capacidade de observar a alma humana, dr. Raul exercitou na advocacia um humanismo fundamental, que o situa como um dos mestres das artes de ouvir e de inquirir. Jamais conheci alguém com tamanha habilidade para conduzir audiências. Dono de incrível intuição, ele sabia perguntar e sabia ficar calado. Ainda hoje, quando me vejo em situações delicadas em audiências, e me questiono se deveria seguir inquirindo ou se estaria na hora de parar, penso em como dr. Raul se comportaria, que caminho seguiria.

Era um advogado completo, desde a primeira relação com o cliente até a construção do processo e a elaboração da causa – verdadeiro ourives, obsessivo trabalhador da prova e do processo. Aprendi com ele a necessidade de conhecer em detalhes a causa, reconhecer seus pontos fortes e fracos para, então, construir a melhor defesa. Dr. Raul acreditava que o advogado era tanto melhor quanto mais imerso na dimensão humana dos processos. E que isso não seria possível sem navegar pelos clássicos: dizia que, para entender os dramas humanos, era preciso ler Dom Quixote.

São lições de um apaixonado pela advocacia, que sempre incentivou os mais novos. Nestes meus 49 anos de foro criminal, encontrei inúmeras vezes seus contemporâneos, companheiros de trabalho, que falam com entusiasmo e comoção do engajamento do dr. Raul. Seu legado de retidão, combatividade e independência foi construído no seio das mais diversas relações, desde familiares e colegas, até clientes e juízes.

É triste observar que a democracia que ele tanto defendeu não tenha, ainda, se infiltrado de maneira mais profunda na Justiça brasileira. Mas dr. Raul não se deixaria lamentar. Ele nos mostrou que há sempre uma porta a se abrir, mesmo diante do maior problema ou do mais feroz inimigo. Cabe a nós, advogados, mantermos viva a luta pela liberdade, defendendo aqueles que dependem de nós para acreditar em um país mais justo. Um país no qual os novos advogados tenham em quem se mirar para seguir adiante, feito faróis em tempos de trevas.

Centenario-Raul

Nota do Editor ______________________________________________________________

É sumamente confortante ler e refletir sobre as consi­derações que o consagrado e conceituado criminalista Técio Lins e Silva faz à memória de seu ilustre e saudoso pai, que segue como rumo de sua vida, o que também se assemelha e se coaduna com o longevo jornalista, que, decorridas seis décadas, lembra-se bem das lições de dignidade, ética, respeito e alta consideração que o seu querido e ausente pai David lhe incutiu, cultivando-as na memória. Ainda hoje, decorrido quase um século, são princípios morais que perduram como marco imorredouro.

Técio Lins e Silva é bem um privilegiado, que segue na trilha da moralidade que herdou, e se impôs, seguindo e aplicando a norma e o sentido da Parábola dos Talentos, transmitindo aos outros os ensinamentos que herdou e aprendeu.

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