Edição: 135

Revista JC Edição nº135

edição nº 135 05/11/2011 Quixote do Século XXI

Nesta edição, uma homenagem ao aniversário de 90 anos do editor da Justiça & Cidadania, Orpheu dos Santos Salles, ganha forma no texto de jurista Bernardo Cabral. Também nesta edição, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, fala sobre a importância do planejamento estratégico no Poder Judiciário e a presidente da Comissão de Direito Eleitoral do Instituto dos Advogados Brasileiros, Ana Tereza Basílio, trata da soberania da vontade popular no Direito Eleitoral, em texto assinado em conjunto com André R. C. Fontes corregedor do Tribunal Regional Federal da 2ª Região.


Orpheu Salles, o guerreiro
 
Tenho dito, reiteradas vezes, que Orpheu dos Santos Salles é um guerreiro. Por inteiro.
 
Após ter exercido as funções de inspetor do Trabalho e chefe da Divisão Regional do Trabalho na cidade de Santos, onde o seu convívio com os portuários nem sempre era olhado pelos adversários com bons olhos, em 1964, estava à frente da Rádio Marconi, na capital de São Paulo, como chefe de Redação de Jornalismo.
 
Com altivez – sem fazer concessão de espécie alguma –, Orpheu não cedia um milímetro nas suas análises, pouco importando se elas alcançavam os poderosos de plantão. Isso lhe valeu, no dia 31 de março de 1964, que a rádio fosse fechada pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e ele fosse para lá encaminhado. Recolhido ao xadrez como um criminoso comum, permaneceu preso por 59 dias, sem perder a compostura e a dignidade, características marcantes da sua personalidade.
 
Altivo, os seus algozes acabaram por libertá-lo, no dia 29 de maio, sem que fosse ouvido, prestasse depoimento ou lhe dessem qualquer satisfação.
 
Amigo pessoal do presidente Getúlio Vargas, de quem foi assessor, após o seu suicídio, as perseguições sempre foram uma constante na sua vida, a ponto de lhe atribuírem forte militância comunista. Era a senha para impedi-lo – como de fato o fizeram – de ocupar cargos públicos, além da instauração de inquéritos policiais militares. E mais: suas ligações partidárias restritas ao extinto PTB e o convívio com o presidente João Goulart, quando este foi apeado do poder pelo golpe militar, levaram-no a sofrer as consequências que tiveram início nos porões do DOPS.
 
Curiosamente, Orpheu foi o primeiro preso político a ser encarcerado, em São Paulo, pela Revolução Militar.
 
Quem tiver lido os artigos que Orpheu publicou nas edições desta conceituada Revista Justiça & Cidadania, da qual é o seu editor chefe, comprovará as prisões, violências, humilhações, perseguições, sofrimentos, que se seguiram àquele fatídico dia 31 de março.
 
A ocorrência mais terrível sofrida por Orpheu ocorreu na prisão, durante seis meses ininterruptos, no navio presídio “Raul Soares”. Ali, obrigaram-no a toda sorte de humilhações, que ele próprio relata, “que afetaram a sua dignidade interior, principalmente com as ultrajantes acusações que lhe foram assacadas durante os interrogatórios a que foi submetido”.
 
Foi daí que nasceu o poema de sua autoria Navio presídio, com versos lancinantes sobre as misérias acontecidas a bordo. Ei-lo:
 
 
O navio presídio
 
E quando a noite pesada de silêncio
 
Chegou torturando as multidões aflitas,
O Torquemada indígena reeditou a sina
Que afligiu a terra ibérica latina.
E a Inquisição renasceu em nossa pátria
Ferindo forte, com ódio, vingança e infâmia,
Como se este povo não fosse só de irmãos,
Trabalhadores, poetas, professores e cristãos.
Da Guanabara loira, radiosa e bela,
A opressão mandou o carcomido barco,
Com seu casco negro, infecto, apodrecido
Para encarcerar pais, irmãos, filhos e netos.
Oh! negro navio de triste sina!
Antes te houvera o mar tragado,
Quando navegavas impávido e imponente,
A te transformares no terror da tua gente!
 
Com a liberdade temporária, partiu para o exílio, no qual ficou durante longo tempo, ora no Uruguai, ora na Argentina.
 
No seu regresso, ingressou nas atividades comerciais, sofrendo, ainda, os prejuízos morais e financeiros causados pelas medidas revanchistas do período militar.
 
O que é digno de registro é que Orpheu jamais abdicou do seu comportamento altivo, desertou dos seus ideais ou, sequer, se atemorizou com tantas perseguições.
 
Hoje, ao completar 90 anos de idade e pai de seis filhos, Orpheu pode dizer a estes, aos amigos e admiradores que ele é um idealista sem medo e sem mancha, a lembrar a divisa de Bayard.
 
Por essa razão, nesta homenagem que lhe presto, enfatizo que Orpheu é um guerreiro que carrega consigo as cicatrizes orgulhosas da guerra que enfrentou e dela saiu vencedor.
 
Parabéns, Orpheu. Pela data e pela sua luta em prol da democracia.
 
Bernardo Cabral
Presidente do Conselho Editorial
Consultor da Presidência da CNC


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