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Lágrimas de Raiva

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(Editorial originalmente publicado na edição 61, 08/2005)
 
Por três vezes na minha longa vida, face incríveis e inesperados fatos, senti e passei por extremada frustração, e dos meus olhos brotaram lágrimas de raiva.
 
A primeira vez foi em 24 de agosto de 1954, quando, no exercício e função de Delegado do Trabalho na cidade de Santos – SP, ao saber da morte do Presidente Getúlio Vargas, que motivado e ferido pela violenta e soez campanha de infâmias, calúnias e humilhações, patrocinadas pelo jornalista Carlos Lacerda, além das safadezas e traições praticadas por amigos e companheiros que enlamearam o seu governo, o levou a praticar o suicídio. A veneração que dedicava ao Presidente Vargas, motivou, em face da sua absurda morte, violenta revolta, raiva e lágrimas.
 
A segunda vez ocorreu na noite de 31 de março de 1964, quando ao microfone da Rádio Marconi, em São Paulo, protestava contra a arbitrariedade do presidente do Congresso Nacional, Senador Áureo de Moura Andrade, que havia declarado vago o cargo de Presidente da República e empossado na Presidência o Deputado Ranieri Mazilli e ainda criticava o apoio e a participação golpista dos Governadores Ademar de Barros, Magalhães Pinto e Carlos Lacerda e as traições dos Generais Amaury Kruel, comandante do 2º Exército, Justino Alves Bastos, Comandante do 4º Exército e Humberto Castelo Branco, Chefe do Estado Maior do Exército.
 
Nessa noite, por volta das 21 horas, os policiais do DOPS invadiram os estúdios da rádio e determinaram o encerramento. Não tendo como resistir, nos despedimos dos ouvintes com as palavras: “Conforme já vínhamos informando, a emissora acaba de ser invadida, o Delegado Alcides Cintra Bueno determina o encerramento por ordem do Governador Ademar de Barros; não temos como resistir, mas queremos declarar que voltaremos um dia para continuar a luta em favor da emancipação econômica, social e política da nossa pátria. Até a próxima oportunidade”.
 
Novamente, face a impossibilidade de resistir, fui acometido de violenta raiva e chorei. Fechada a rádio, fui levado aos porões do DOPS, tendo ali começado uma via crucis em diversas prisões, inclusive no navio presídio Raul Soares, onde permaneci por 6 meses.
 
A terceira vez ocorreu em fins de 1976, quando João Goulart, que se encontrava no exílio em Montevidéu, mandou que me entregassem a importância de 1 milhão de cruzeiros, produto da venda de seu apartamento no edifício Chopim, em Copacabana, com a recomendação que comprasse mil cabeças de gado para a Fazenda Três Marias, em Mato Grosso.
 
Decorrido um mês após a compra do gado, se apresentaram em meu escritório em São Paulo, dois investigadores que me intimaram a acompanhá-los ao DOPS onde fui levado a uma sala, encapuzado e sem qualquer explicação pendurado no “Pau de Arara”, onde permaneci por mais de 3 horas.
 
Durante o tempo em que permaneci no “Pau de Arara”, além da dor atroz e dilacerante, dava tratos à memória e não encontrava uma plausível ocorrência que justificasse a torpe ação policial que me havia sido imposta. Horas depois, voltaram à sala onde havia sido deixado e, pela primeira vez, me dirigiram a palavra me perguntando se eu já estava pronto pra confessar o recebimento dos dólares enviados pelo Presidente João Goulart e a quem eu havia feito a entrega.
 
Estupefato, diante do absurdo do motivo da prisão e revoltado pela forma utilizada para obterem uma confissão, tive ímpetos de revolta e com extremada raiva e lágrimas, reverti a situação e posição e, arrancado o capuz, passei a increpar os policiais, denunciando a torpeza da tortura desnecessária e inútil, face às explicações e provas da realidade contra acusações e denúncias infundadas.
 
Estes três fatos por mim intensamente sofridos e que estão indeléveis na memória, causadores que foram de lágrimas e prantos de raiva, por certo se assemelham à raiva e choro da grande maioria dos petistas, que, durante 25 anos, cultuaram na política as práticas da moral, da ética, do civismo e de patriotismo e , de repente, se vêem de frente à derrocada dos seus ícones e paradigmas da moralidade, traídos que foram por um grupelho acanalhado do Partido.
 
Os tristes, lamentáveis e criminosos acontecimentos que a Nação estarrecida tem assistido nas Comissões Parlamentares de Inquérito, com a quebra da esperança e confiança com que milhões de brasileiros esperavam do operário Luiz Inácio Lula da Silva, é mais frustrante e traz a revolta da maioria da população, que aguardava e confiava nas modificações sociais e a implantação da ética e da moralidade, como foram apregoadas e anunciadas durante as passadas campanhas eleitorais do PT.
 
O desencanto só não será maior se a revanche que é esperada pelos estafantes trabalhos e disposição dos membros das CPIs, sob o comando do Senador Delcidio Amaral e dos atuantes Deputados e Senadores que investigam e apuram as falcatruas de delinqüentes que emporcalham o Congresso Nacional, resultar efetivamente no que se espera: a cadeia.