Lupens e abutres da nação

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OrpheuPor certo, foi com nojo e asco que a Nação assistiu pela televisão o incrível e deprimente depoimento prestado perante procuradores da República, na operação Lava-Jato, por um cidadão que, durante dezenas de anos, exerceu altas funções republicanas. Este veio à público, desavergonhadamente, com sórdida hipocrisia, se despir da postura de servidor exemplar, com que conseguiu enganar eleitores que o levaram ao Senado da República, e, posteriormente, com ajuda e apoio político, à presidência da importante estatal Transpetro, subsidiária da Petrobras.

A repugnante sordidez do relato criminoso apresentado sobre a distribuição de dinheiro público a toda uma corja de bandidos de várias categorias, composta por deputados, senadores e ministros, relacionados e nominados sem o menor pejo e vergonha pela figura lombrosiana do delator, denunciando abertamente velhos amigos e companheiros, demonstra claramente o estado putrefato em que se encontra a política nacional. A magnífica crônica do nobel José Saramago, descrevendo o ato de um aldeão tocando o sino da igreja chamando os fieis para anunciar a morte da justiça foi mal lembrada, principalmente no que se refere ao Brasil, pois nunca antes neste país, a justiça se fez tão presente como nos tempos atuais.

O conto de Machado de Assis, “roube grande”, também não se aplica mais com a amplitude que o nosso escritor maior quis consignar. Hoje, e principalmente nestes últimos anos, a justiça tem se mostrado atuante, diligente e firme, condenando com real eficácia os grandes ladrões que agem e atuam nas áreas da administração pública. São potentados da política, ministros de Estado, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, prefeitos e vereadores, transvestidos de bandidos em conluio com grandes empresários de todos os matizes, que se organizaram em quadrilhas para dilapidar e empobrecer a Nação.

Os criminosos atos praticados até em família, arrastando nas ilicitudes praticadas pais, esposas, filhos e netos, mostram o desprezo e a prática da indignidade, da infâmia e da torpeza que transformou gente em abutres, como demonstrado nos escândalos do Mensalão, da Petrobras e da Transpetro, cujo corrupto confesso e delator envolveu os próprios filhos, também já indiciados, nas falcatruas de centenas de milhões de dólares, além de outros bandidos que incluíram nos crimes praticados a esposa e os filhos. Lamentavelmente, podemos dizer, nunca na história deste país viu-se tanta leviandade, roubalheira, verdadeiro assalto aos cofres públicos, em detrimento de um povo carente que assistiu, atônito, a uma quadrilha tomar de assalto a Nação, em enriquecimentos meteóricos, escândalos infinitos no âmbito dos importantes ministérios, no desvio de verba destinada ao socorro de regiões assoladas por catástrofes.

A prática contumaz da desonestidade, que corrompe a administração pública como demonstram os escândalos, deixa à mostra, indelével e tristemente, o quadro de tantos e escabrosos atos criminosos, que emporcalharam políticos detentores de altos cargos, sem que os delinquentes que os praticaram sejam exemplarmente justiçados e levados aos cárceres, em confronto com a falta de investimento em saúde, mostrando a miséria que sangra nos hospitais públicos, jogados em macas pelos corredores e até mesmo no chão por falta de leitos. Essas imagens dolorosas confrangem a alma e o coração de quem as assiste, num transe desumano e cruel.

O remédio para combater e aniquilar esses homúnculos que se aboletaram em posições políticas de mando, para prática criminosa de atos de improbidade administrativa contra a Nação, furtando bilhões de reais que deveriam ser aplicados em benefício da desassistida população, é o recebimento, com o devido rigor, do que a lei prescreve. Também é decorrência do desvio da verbas próprias, a falta de saneamento básico em zonas propícias às moléstias geradas pelos mosquitos e outros males, resultando em maleita, hepatite A, cólera e outras doenças que matam, indiscriminadamente, recém-nascidos, crianças, idosos e outras vítimas da miséria e da pobreza, desgraça que é debitada à corrupção, que impede a construção de obras necessárias.

Outras epidemias endêmicas que poderiam já ter sido combatidas e eliminadas também podem ser debitadas na conta da corrupção, assim como a falta de atendimento em saúde, educação e moradia. A fome e a miséria poderiam ter sido pelo menos atenuadas, se não houvesse uma corrupção endêmica que, no Brasil, é superior a 50 bilhões de dólares, todos os anos.

Entretanto, enquanto essa desgraceira e miséria humana acontecem, atingindo indiscriminadamente parte ponderável de políticos comprometidos com a desbragada corrupção que avilta, degrada e desmoraliza a administração pública, felizmente e não sem tempo tem surgido, com demonstração evidente e clara, a pronta ação das instituições: Polícia Federal, Ministério Público Federal e o Poder Judiciário, com destaque especial para o Supremo Tribunal Federal e a Justiça Federal da 1a instância.

Os resultados já conhecidos decorrentes dos vários inquéritos em tramitação nos respectivos órgãos acima mencionados, com inúmeros indiciamentos, prisões, julgamentos com condenações, apropriação e recuperação de bilhões de reais de bens e valores que haviam sido surrupiados de órgão públicos já é demonstração que, apesar da demora, os corruptos estão encontrando seu caminho: a cadeia.

Neste editorial o longevo jornalista extravasa amargura e decepção de ter de conviver e escrever sobre fatos dolorosos da política pátria, apontando homens que se desviam da destinação promissora de suas vidas, que passam a menosprezar as virtudes e a formação do caráter, olvidando a moral e a dignidade para descerem ao charco da corrupção, levando em suas companhias a própria prole e a sua geradora, como marca a prova da sordidez, felonia e da indignidade praticadas.

Por outro lado, é a gratificação das esperanças renovadas com a constatação da predominância e supremacia das instituições que prevalecem sempre onde se pratica o Estado Democrático de Direito, e se exercita a aplicação da lei e da justiça.

É também de se dar graças as firmes atitudes, a coragem, as ações e as providências que vêm sendo tomadas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal através de seus aguerridos procuradores e o seu diligente diretor Rodrigo Janot, aos nove e grandes varões e as duas aguerridas juristas do Supremo Tribunal Federal, além dos calorosos aplausos ao juiz Sergio Moro, que estão mostrando que a justiça funciona e os delinquentes estão sendo apenados.

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