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Música, sublime música

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A última semana da esplêndida série “Música no Museu”, dedicada ao repertório de piano, levou ao público, acostumado com grandes nomes da música no Brasil e no exterior, um recital da pianista Carol Murta Ribeiro, cuja virtuose eu já conhecia. O programa fechava a série pianística de 2008 e contemplava as Mazurcas de Chopin, a Suite Espanhola nº1, de Albeniz e Prelúdios, de Gershwin.
À espera do início da apresentação, na companhia de um amigo na plateia, comentamos sobre a mazurca que iríamos ouvir. Lembramos que, em cada uma das sessenta composições, Chopin deixa impregnados os ritmos, as harmonias, os rasgos melódicos da música popular polonesa.
Nessas peças, que revelam vários estados de ânimo, Chopin emprega recursos exóticos que impõem diversas dificuldades de execução.
Carol entrou no palco, sentou-se ao piano e, como prescreveu Stanislavski, concentrou-se por alguns instantes. Em seguida, de olhos fechados, movimentou o dorso, os braços, as mãos,  os dedos ágeis, e começou a tocar, abstraída do mundo em seu entorno. Mais que uma executante primorosa, Carol incorporou a personagem interpretativa. Toda a perfeição técnica, o refinamento estilístico e a elaboração harmônica do microcosmo musical de Chopin se revelaram com uma exposição completa de um estilo único de Carol.
No primeiro intervalo, não resisti e comentei com meu amigo: o enlevo da pianista me fez lembrar a declaração do próprio Chopin, que certa vez escreveu ao amigo Tytus: “Quando componho, é como sonhar acordado em uma formosa noite de primavera à luz da lua… nesse instante, já não estou em mim, mas sim num espaço diferente e assombroso, como sempre, espaços imaginários…”
Assim também parecia acontecer a Carol Murta Ribeiro. Ela entregava-se a um sentimento lírico que acaba por quebrantar a realidade.
A apresentação continuou com a Suite Espanhola nº 1, de  Albeniz. Nascido nos Pirineus, Espanha, em meados do século XIX, famoso por suas composições de piano, converteu-se em uma das maiores figuras da história musical espanhola. Influenciado por Liszt, Debussy e Ravel, mas conservando um estilo muito pessoal, Albeniz captou os elementos da música pianística do século XVIII, mesclou-os com a música folclórica de seu país, o que contribuiu largamente para criar uma escola espanhola de música pianística. Agora, a interpretação de Carol, na força de sua execução, impunha sua presença por todos os cantos da sala. Retinha a sensibilidade de todos os presentes na reconstrução da melodia.
Em seguida, chegou a vez de Gershwin, cuja música transita do clássico ao melhor jazz. Gershwin, um dos cinco “monstros sagrados” do musical americano, ao lado de Cole Porter, Jerome Kern, Irving Berlin e da dupla Rodgers/Hart, uma vez declarou: “Me agrada pensar na música como um ciência comovente”.
Ciência da qual Carol deu seguidas provas de maestria ao exaltar com as mãos tudo aquilo que lhe ia à alma.
O reconhecimento ao talento de Carol tem sido frequente.
Ela foi a artista convidada pelo Governador Sérgio Cabral e Sra. a tocar no Palácio Laranjeiras, encerrando a temporada de Música no Museu, que completou seu 10° ano de consagração. Os amplos salões, com seus mosaicos de mármore com entalhes em ouro de 24 quilates, eram o décor mais que perfeito para ecoar os acordes de Bach e Mozart, pela magia das mãos talentosas de Carol.
Ao se programar a lista de piano, sopro, canto e percussão para a temporada de 2009 da consagrada Música no Museu, desta vez por meio de consulta popular, o nome de Carol Murta Ribeiro foi um dos mais votados. Assim, teremos o gosto de ouvi-la outra vez.