“Não passarão” e o renascer de Quixote

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NOTA DO EDITOR
Nosso estimado articulista Wagner Victer faz um paralelo de suas ações administrativas na Secretaria de Energia, Indústria Naval e do Petróleo, com as gloriosas epopéias da Espanha.

Remonta às lutas contra as tropas de Napoleão na invasão de 1808 e ao ano de 1936, quando, em defesa do Governo Republicano frente às tropas nazi-fascistas do General Francisco Franco, um voluntariado de heróis do mundo correu à Espanha para se associar aos nacionalistas republicanos, na luta contra as forças mercenárias e ensandecidas, enviadas por Hitler e Mussolini, que com torpeza e aviltamento praticaram o massacre e trucidamento das populações de Madri, Valença, Málaga, Navarra e Guernica, cidades totalmente destruídas pelos bombardeios aéreos.

Wagner também nos traz a lembrança da legendária heroína Dolores Ibarra – La Passionaria, do poeta e condoreiro do Chile, o imortal Pablo Neruda – e ainda a figura igualmente legendária do jovem Frederico Garcia Lorca, estúpida e cruelmente fuzilado por ordem pessoal do caudilho General Franco.

É oportuno lembrar o famoso quadro pintado por Picasso que retrata os horrores do acontecido em Guernica, bem como o diálogo ocorrido no momento de sua exposição em Paris, entre o pintor e um adido militar alemão que lhe perguntou: “Foi você que fez isso?”, tendo Picasso respondido: “Não. Foram vocês.”

A significativa e retumbante frase “Não passarão”, usada pelo gestor público Wagner Victer, é pertinente e se coaduna com a luta e ação que, em sua Secretaria, travou contra as forças que se antepuseram aos planos de expansão e progresso da economia fluminense.

Nos oitos anos de sua exuberante atividade, vencendo tropeços e obstáculos, por certo, nosso personagem esteve imbuído dos mesmos ideais do Cavaleiro de Triste Figura para conseguir, como provou através de perseverança e determinação, os bons resultados que galhardamente colheu, tendo proporcionado, com seu trabalho, a vinda e a instalação, no estado, de importantes empreendimentos nas indústrias naval, petroquímica, energia elétrica, papel, plástico, produção de gás e outros importantes setores industriais, conseguindo trazer, para o Estado do Rio de Janeiro, bilhões de reais em investimentos e milhares de novos empregos.
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ma coincidência que me deixa orgulhoso é ter nascido na mesma data, 16 de janeiro, do lançamento da Obra Quixote. Talvez, de alguma maneira, tenha instintivamente me inspirado nisto para empreender algumas lutas contra moinhos de ventos que, por diversas vezes, nos últimos anos, se colocaram contra o desenvolvimento econômico de nosso Estado.

Sei que o Espírito do Cavaleiro nunca morreu e, muitas vezes, se fez presente em outros momentos de resistência e perseverança, principalmente, no aguerrido povo espanhol. Também sei que buscarei, até em um abuso literário, sem cansar os leitores deste artigo, estabelecer uma relação com práticas que adotamos com o apoio integral de uma pessoa, por sua fibra, que sempre admirei: a Governadora Rosinha.

O fato é que, no momento que recebo novos desafios no sentido de buscar corrigir os rumos de nossa Companhia Estadual de Águas e Esgotos –  CEDAE – e ao fim de meu segundo mandato como Secretário de Estado de Energia, da Indústria Naval e do Petróleo, tenho orgulho de muitas coisas que realizei ou que ajudei a realizar. Tenho, porém, especial orgulho de algumas ações, que com nossa luta, impedi que acontecessem, pelo menos enquanto estive em meu posto, por serem, a meu ver, extremamente nocivas à economia fluminense e de nosso País. Tais realizações em forma de colocação de “obstáculos” que não foram transpostos me recordam o histórico brado “Não passarão”, brotado na alma do povo de Madri durante a rebelião popular contra seus opressores, o qual lembrarei o histórico na pesquisa à frente.

Gostaria, neste contexto, de destacar três fatos que, com o apoio da sociedade fluminense, não deixamos que fossem realizados dentro do espírito do “Não Passarão”:

•  a colocação de navios em estaleiros virtuais: a escandalosa licitação da Transpetro, subsidiária da Petrobrás, retirando encomendas dos estaleiros fluminenses para colocar em estaleiros inexistentes (fantasmas/virtuais), o qual, felizmente, não aconteceu até o final de 2006;

• a construção do oleoduto Rio/SP: a construção de um Oleoduto, ligando diretamente a Bacia de Campos às Refinarias de São Paulo (PDET), a qual tiraria toda a vantagem comparativa logística do Rio de Janeiro, e que com seu cancelamento, por nossa luta, culminou com a conquista da Refinaria Petroquímica (COMPERJ) para o Estado, a qual se transformou em uma vitória histórica. Neste item, o debate na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), onde “massacramos” com argumentos técnicos aqueles que defendiam o projeto, foi antológico e entrará para a história das lutas pelo desenvolvimento de nosso Estado;

•  a restrição da oferta Gás Natural ao Rio de Janeiro e ao Mercado do GNV: durante todos esses anos, algumas correntes na Petrobras (não as dominantes) ameaçaram restringir o acesso do Gás Natural ao Rio de Janeiro, em especial, ao segmento do Gás Natural Veicular – GNV –, inclusive com ameaças de aumento do preço (que não ocorreu), justificando-a em função da crise da Bolívia. Lutamos com sucesso para não haver o rompimento do Artigo 25 da Constituição Federal, que estabeleceu tal prerrogativa de escolha de atendimento ao mercado como sendo uma competência legal dos Estados e também pela não contaminação dos preços do Gás do Rio de Janeiro pelo Gás Boliviano.

 

A História do “Não passarão” e o paralelo com as Lutas Fluminenses 

“Não foi só uma vez que Madri, ao longo de sua história como capital da Espanha e do Império Espanhol, sofreu uma violência de grandes proporções. Já em maio de 1808, os madrilenhos insurgiram-se contra a presença das forças de Napoleão que, em represália, executaram um massacre contra a população civil.”

Esse horror foi imortalizado nas telas de Francisco Goya. Mais tarde, a outra vez deu-se em julho de 1936, quando as massas saíram às ruas da cidade para defender a República da Frente Popular ameaçada pelo golpe do general Franco, tomando à força, com muitas vítimas civis, o quartel dos militares golpistas. Houve uma forte reação popular que desencadeou o bombardeio de Madri, ordenado pelo general Franco.

Após o pronunciamento militar, em 18 de julho de 1936, quatro colunas fortemente armadas saíram do sul da Espanha e se puseram a marchar sobre Madri. Os principais comandantes militares liderados pelo general Francisco Franco declararam guerra a seu próprio governo, o da República dos Trabalhadores. Aos gritos de “Viva Cristo Rei! Arriba Espanha!”, a Espanha católica, tradicionalista e hierárquica – uma coligação formada pelos quartéis, pelos palácios e pelo que Pablo Neruda chamou de “raivosas sacristias”– revoltava-se com armas na mão para derrubar a República Vermelha, a Frente Popular formada por republicanos, socialistas, anarquistas e comunistas que haviam ganho as eleições de fevereiro de 1936.

As tropas faziam parte do Exército da África, majorita-riamente integradas pelos regimentos mouros vindos do Marrocos, então subjugado pela Espanha e também pela Legião Estrangeira. Forças essas que, decolando de Fez, haviam alcançado o solo espanhol graças à ponte aérea formada por aviões de transporte oferecidos por Mussolini e por Hitler.

O general Videla, o responsável pela ofensiva contra Madri, esperava, inicialmente, contar com o apoio do Quartel da Montanha, o mais poderoso aquartelamento da capital, controlado pelo general Fanjul. Seria uma operação relativamente simples. Enquanto as quatro colunas acercavam-se da cidade vindas do oeste, havia a expectativa de que ocorresse uma insurreição dentro da cidade, promovida pela “Quinta coluna”. O que permitiria a captura e imediata deposição do governo republicano.

Quanto à população de Madri, inteirou-se da rebelião das casernas, milhares de operários, de funcionários, de lojistas, de diaristas, ao invés de se acovardarem, uniram-se, atendendo aos chamados dos sindicatos, da CNT (Confederação Nacional dos Trabalhadores) e da UGT (União Geral dos Trabalhadores) para irem cercar o Quartel da Montanha. O governo republicano, depois de uma certa hesitação, acenou em entregar armas para o povo. Entre os dias 19 e 20 de julho, à tétrica sombra de 50 igrejas madrilenhas incendiadas pelos anarquistas, os ditos “los incontrolables”, travou-se uma incrível batalha ao redor do grande fortim, que, naquela ocasião, lembrou muito a Fortaleza de Bastilha assediada pelos parisienses um século e meio antes.

Nas partes baixas, encontrava-se a plebe madrilenha, armada com o que pusera a mão, de pedras à escopetas, nas seteiras da fortaleza o exército profissional disparando rajadas para todos os lados. Dolores Ibarruri, a popular La Pasionaria, percorria as ruas da capital com megafone na mão, lembrando a todos a bravura do povo local quando do levante de 12 de maio de 1808, ocasião em que seus antepassados haviam enfrentado o exército de Napoleão. “Não passarão!” exclamava ela. No dia 20, a guarnição rebelada rendeu-se. A oficialidade foi massacrada pela massa enfurecida que não parava de gritar “Avante! À luta! Avante!”. Falhara o golpe de mão em Madri.

Foi então que os lideres da Cruzada, como se autodenominava o levante nacional-fascista do general Franco, decidiram-se ordenar o bombardeio aéreo da capital. Então os céus de Madri viram-se escurecidos pelas esquadrilhas de aviões que os nazistas haviam colocado à disposição do generalíssimo. Pois, mais recentemente, depois da tragédia do dia 11 de março de 2004, a valente gente de Madri, recomposta da abominável guerra civil de 1936-1939, vestiu novamente o luto, vítima de uma outra insânia – não se sabe ainda se dos fundamentalistas do Al Qaeda. Com os sentidos ainda feridos pelo estrago das explosões da Estação Antocha, a multidão, cuidando dos feridos, doando sangue, voltou a reunir-se em resistência: “Não Passarão!”, dando o exemplo de resistência para todos os povos, inclusive para nosso Brasil, muitas vezes, acanhado em lutar por seus interesses.

Dessa forma, copiamos nessas jornadas, o Brado madrilenho e exclamamos “Não passarão!” contra as ameaças à economia fluminense, agradecendo a todos que se juntaram a mim e à Governadora nessas lutas vitoriosas, como a Revista Justiça e Cidadania, e também aos que conosco se ombrearão nas lutas e desafios futuros.

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