O Congresso e o cálculo da vergonha

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Afinal, qual é a hora de o Congresso mostrar a cara diante do país, depois da absolvição do deputado Queiroz, de todos os alcances, tamanho família, no valerioduto? Quem será o primeiro pescoço a baixar no alfanje, ciente o Legislativo de que o facilitário de dezembro não pode prosperar, nem vai o país esquecer o bolero do mensalão em todos os seus arranjos?

Levado pelo roldão da opinião pública a Câmara passa a outra estratégia com Vanderval, Roberto Brant, Professor Luizinho e agora, de forma menos nítida, com Pedro Correa, o próprio presidente do PP. De saída, se dá pela condenação contrafeita na Comissão de Ética. E é por um só voto que Brant vai ao hipotético abate pelo plenário. Nem é menos apertada a promessa do cutelo ao Professor Luizinho. Mas o cenário aí está para que o primeiro cálculo de enfrentamento da vergonha não fuja dos trilhos, e vá à sabedoria final do acórdão, de todos os estuários. Os processos saem de pauta, voltando a todo exame, sem prazos, pela Comissão de Constituição e Justiça, preguiçosos na última procrastinação. E Roberto Brant não tem dúvida quanto aos novos precedentes, que em maiorias lustrais levarão sua casa a perdoá-lo, corrigindo as hesitações da Comissão de Ética. É como se prevalecesse a biografia sobre a traquitana a querer-lhe a companhia, e manter-lhe o mandato. E, por ele, a permitir que a fila que se lhe segue saia do patíbulo.

A laxidão é tão generosa quanto democrática. E aí se desenha o vencer-se o pesadelo do julgamento de Eduardo Azeredo, senhor do latifúndio da integridade, na melhor nobiliarquia do tucanato de todas as plumas. Deixou o cocar da Presidência do PSDB, mas, dificilmente, pode ficar, agora, nas dobras do esquecimento e da aposta do Brasil de memória curta, depois das provas do sangue derramado, de Roberto Jefferson e José Dirceu.

Na verdade, a assombração inédita baixada sobre os inconspurcados varões da República, confia ainda que as CPIs não perderam os freios do “deixa-disso’’, de todos os tempos, e do controle final, pelos próprios deputados, do seu desfecho e deu seu sair de cena. A diferença do governo Lula é o da passagem das averiguações para a polícia, paralelamente ao tatibitate das comissões com os dossiês, de álibis e culpas que não mais se abafam nos tapetes da Câmara. Atingem tucanos e pefelistas, ao lado dos aliados do governo. E o valerioduto tilintou à abundância nos cofres da campanha do ex-governador de Minas, reiteram seus auxiliares de então. Ou nos trocados de larguíssimo prazo, em que o deputado João Hermann no apoio a Azeredo foi um dos protobeneficiários do esquema, até como babá do carro de campanha.

Quanto demorarão, o país e os movimentos sociais, a entrar com ações populares frente à esbórnia dos dutos e contradutos, do voto contratado, e de cravo certo nos placares do Congresso? E como qualquer partido, mesmo completados os vexames das comissões, se alinhará para explicação aos eleitores, sem as cabeças degoladas dos indigitados beneficiários do comércio do mandato? Sorte, de toda forma, e morna, da tepidez enojada, tem esse Congresso, que não enfrentou liderança emergente, capaz, em verdade, de tomar a palavra pelo “virar de página’’ de uma época, e a exposição de todos os dígitos, no voto escorrido pelo valerioduto. Esta recidiva do velho moralismo não permitiu, voz comparável a de Lacerda, ou de fala análoga, que a tanto se levantasse – nos debates em que os velhos plenários, de Afonso Arinos, ou Aliomar Baleeiro, poderiam cobrar, hoje, a impostação tateante, ou o olhar para as câmaras da cozinha mediática, do soslaio para casa, ou para apoteose das CPIs nos instantes invasores de suas pseudofalas cívicas.

Nos consensos, habilíssimos, do acordão em marcha, se pode começar a descrer até, de fato, do mensalão. Não é outro o sentimento, aliás, da polícia, no caso de José Dirceu, a pesquisar, até agora em vão, qualquer prova da denúncia. Mesmo que, a partir de julho último, se tenham afrouxado as fidelidades ao governo, e os fazeres das antigas maiorias. Mal começa, entretanto, a CPI do governo FH e do tucanato, a partir da denúncia da cornucópia da emenda constitucional pró-reeleição e do lusco-fusco das privatizações. O PT, novato na liça e neopecador, sabe que os velhos profissionais, da mais antiga tentação parlamentar, não podem, a esta altura, tirar do bolso o petardo para atingi-los. A mensagem que sobreviva de Lula, para além do partido, não passa, entretanto, pelo “tudo bem’’ de sempre. Seu cálculo da vergonha é de uma credibilidade, ainda, à frente. Não o de um Congresso que, nesta altura, dizem as pesquisas, só reelegeria 6% dos atuais deputados.

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