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O humano Bernardo Cabral

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Não sai da minha cabeça uma cena que, quem viveu sabe, foi absolutamente inesquecível.

O local, a Associação Comercial do Rio de Janeiro. Auditório Ruy Barreto, para ser mais preciso. Dia 10 de agosto de 2011.

Na ocasião, a ACAN, Associação Cultural do Arquivo Nacional, homenageava um amigo nosso em comum, Humberto Mota. O cerimonialista era o José Santa Cruz, estupendo humorista. Hábil, ele mostrou a uma plateia de Fla-Flu, que lotava o auditório, o Arquivo Nacional. Apresentação multimídia, uma linda tarde, memorável, com apresentação da banda de música e tudo o que tinha direito. Inclusive a presença de um gênio: o Bernardo Cabral.

Digo gênio, mas sem exagerar sequer um pouco. Para mim, trata-se de um orador primoroso. Ele acha que sou eu, mas não; eu sou pequenininho perto dele.

Volto à cena. Depois do chefe do cerimonial fazer toda a mise-en-scène, o presidente da ACAN, Lício Araújo, chamou ao palco outra estrela:

– Com a palavra, agora, o eminente senador Bernardo Cabral.

Lembro tê-lo visto se levantar da mesa de honra, caminhar até a tribuna, pegar com mãos firmes três folhas e, estendendo-as para fincá-las ao melhor raio de visão, proferir algo assim:

– Meus amigos e minhas amigas, um velho professor ensinou-me que um discurso não pode passar de três folhas – imediatamente, apresentou ao público uma, duas, três folhas, e retomou o raciocínio: – Portanto, não vou cansá-los.

Só de ter dito aquilo, ele conquistou de bate-pronto o auditório, que em cerimônias longas teme discursos às vezes maçantes. Discurso de três folhas é plenamente suportável.

O Santa Cruz lá em cima, à esquerda; e o pessoal, na mesa de honra, à direita, três sumidades sentadas, dentre as quais o presidente da Casa, Antenor Barros Leal. O doutor Bernardo Cabral, no centro das atenções, começa a ler as três folhas. Olha ora para a gente ora para as folhas, lendo um discurso como sempre lindo, mágico, palavras fáceis que brotam. Ao fim do discurso, ele entrega as três folhas carinhosamente ao José Santa Cruz, que ao pegá-las e mirar o conteúdo se espanta:

– Ué! Mas não tem nada escrito. Esses papéis estão vazios!

Ou seja, ele não tinha lido o discurso. Houvera feito de improviso. Todos que estávamos ali presenciamos o talento de alguém que sabe fazer uma mágica sempre diferente, alguém que já deve ter perdido a conta de quantos discursos já fez, em palcos do Brasil e do mundo. Grande orador. Notável orador. Com o golpe das três folhas, seduziu o auditório inteiro, que acreditava piamente que ele estava lendo.

Eis que então, na sequência, como que não satisfeito, o doutor Bernardo Cabral fez a seguinte delicadeza, ainda que excessiva:

– Eu fiz esse discurso, mas o maior orador que conheço aqui está conosco; não preciso falar o nome dele porque todos concordam com o que estou dizendo; ele é da Casa. O Fluminense dele foi um grande clube quando ele lá esteve…

E eu, sentado, pensei, “Nossa Senhora, o homenageado é o Humberto”… Eu nem estava na mesa de honra, nem tinha de estar, mas o doutor Bernardo Cabral fez uma referência à minha pessoa como se eu fosse mais orador do que ele. No final, o presidente da ACAN sentiu-se na obrigação de também dizer a mesma coisa e falou:

– Nós não podemos deixar de ouvir o maior orador!

Foi difícil. É justamente o contrário daquele que diz que vai ler só três folhas. Eu não ia falar, não tinha em mente nada improvisado, não tinha nem o que falar. Mas me levantei e fiz uma breve intervenção, brevíssima intervenção aliás, na qual disse apenas o seguinte:

– Amigos, acabamos de viver um momento mágico, no qual o orador leu páginas vazias.

E encerrei. Por isso, não posso falar aqui daquilo que sei que os outros vão dizer: do grande advogado, do grande parlamentar, do grande político. Eu quero falar do grande ser humano. O ser humano admirável que é o doutor Bernardo Cabral. Se tivesse um curso de escutatória, ele seria catedrático. Não tem; só há cursos de oratória; curso de escutatória eu nunca vi anunciar, porque todo mundo só quer falar, ninguém quer ouvir. Mas ele sabe ouvir. Quem é ser humano sabe ouvir; primeiro nos ouve e depois fala; não se faz de dono da bola. E um grande orador saber ouvir é raro, raríssimo. Ele reúne, portanto, curso de oratória com curso de escutatória. Se ele abrir esses cursos, eu me matriculo no mesmo dia para aprender. Ele é mestre em saber ouvir.

Que horas agradáveis vivi na companhia do doutor Bernardo Cabral. Como é belo envelhecer assim: lúcido, capaz de manter o bom humor, com um vivo empenho no minuto presente, que ele vê à luz de experiências intensas, amplas, muito pessoais.

Sua conversa não traduz apenas os feitos de um grande homem público, de um exímio advogado, estrela brilhante dos excelsos pretórios, mas o interesse múltiplo, afetivo e intelectual de um humanista genuíno, que conseguiu amar tanto as pessoas e a natureza como os livros, entranhadamente, as doces leituras, cujo aroma lhe assoma aos lábios na conversação, em que reponta tal verso de Malherbe ou de Bilac, tal frase de Anatole, tal lembrança da Ilíada, tal aplicação do Quixote.

Lido, vivido, viajado, claro, limpo, ágil, é um companheiro moço, a quem o tempo não agrediu, não destruiu, mas só fez requintar.

Insisto: sua palavra é como uma página de Anatole saboreada com o meio sorriso de quem prova e reconhece um vinho bom, verdadeiro e raro.

E se uma vez ele me disse que “a amizade será considerada forte quando vencer o tempo, a distância e o silêncio”, eu posso afirmar, com todas as letras e certeza: a minha amizade com ele, a nossa amizade, é absolutamente inexpugnável.