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O presidente Getúlio Vargas e as suas previsões

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Dentre todas as pessoas que conviveram com o Presidente Getúlio Vargas, por certo, foi o jornalista Assis Chateaubriand quem melhor o definiu, como consta no discurso de posse que pronunciou na Academia Brasileira de Letras ao homenagear o imortal a quem sucedeu naquele cenáculo da cultura literária brasileira.
O conhecimento de ambos data de 1927, quando Getúlio governava o Estado do Rio Grande do Sul e Chateaubriand o procurou com o intuito de adquirir um empréstimo para fundar o seu primeiro jornal diário; o que conseguiu graças à interferência de Getúlio com um banqueiro gaúcho. Foram 28 anos de intensa participação pessoal e política, com os quais o jornalista obteve apoio e ajuda financeira para a formação da maior rede de rádio e jornalismo no país; inclusive a instalação da primeira televisão no Brasil, a TV Tupi.
A sofreguidão de Chateaubriand para montar a grande máquina de comunicação nem sempre manteve e produziu um bom relacionamento com o Presidente Getúlio Vargas, a ponto de, em agosto de 1954, na crise política que ocorreu com o assassinato do Major Vaz, o jornalista ter deixado de atender o pedido que o Presidente lhe fez para sustar o uso da televisão por Carlos Lacerda, que na ocasião movia violenta campanha contra o governo, e, inclusive, virulenta e infamante contra o próprio Presidente da República.
O laudatório e substancioso discurso pronunciado por Chateaubriand na Casa de Machado de Assis, enaltecendo as qualidades de Getúlio Vargas, reflete a admiração e o respeito do jornalista ao grande político e estadista, no qual reconhecia o amor ao poder, mas também a responsabilidade de exercer as funções com dignidade, honestidade e patriotismo.
Os pressentimentos do Presidente Getúlio Vargas sobre os acontecimentos que lhe foram postos, motivaram sempre, desde a adolescência, a tomada de posições que evidenciassem  seu conhecimento e responsabilidade. E isto aconteceu desde os tempos de estudante em Ouro Preto, na passagem pela Escola Militar, na fase universitária na Faculdade de Direito, nos primórdios da sua entrada na política do Rio Grande do Sul, no desempenho no governo e, com realce e destaque, quando participou da revolução de 1930, chefiando-a.
A capacidade intuitiva, de percepção e até premonitória de Getúlio Vargas se fez sentir na eclosão da revolução, quando pela primeira vez ele fala em “vencer ou morrer”. Infelizmente, a sua intuição veio a se concretizar em 24 de agosto de 1954, quando cometeu o suicídio, evitando uma guerra civil e o sacrifício do seu povo.
Na conceituação do jornalista, expressa claramente na oração com que o pranteou na Academia Brasileira de Letras, Vargas demonstrou o pressentimento de aconteci­mentos futuros, pelo que por duas vezes lhe disse, com “o conhe­cimento íntimo da morte. E ambas no campo da luta civil. A ideia da morte traduz invariavelmente um estado emocional de luta de responsabilidade e de beatitude da espiritualização. Isto mostra quanto o polo do sofrimento tinha uma elevada representação na natureza dessa criatura, Vargas alinhava a bravura à serenidade, para encarar, face a face, o enigma da morte”.
A capacidade intuitiva, de percepção e premonição, de Getúlio Vargas sobre a sua morte foi por ele proclamada por várias vezes no decorrer da sua vida: em 1930, pela primeira vez, quando partiu para a revolução, ele fala em “vencer ou morrer”; em 1934, durante a tramitação da Constituição motivada pela revolução paulista de 1932, quando, sentindo-se acuado pelo clima implantado por desafetos, declara: “Resistir à violência para me depor do governo é um dever. Lúcido e consciente, estou resolvido a esse sacrifício para que ele fique como um protesto, marcando a consciência dos traidores”. E, finalmente, em 24 de agosto de 1954, quando cumprindo o que previra em 1929 comete o suicídio, deixando para os seus seguidores um brado de coragem, renúncia e incentivo à luta pelo direito dos trabalhadores e pela defesa do patrimônio público, interesses nacionalistas e econômicos, além de denunciar os atos de corrupção praticados pelos inimigos da Nação.
Getúlio Vargas, além de ter vaticinado a própria morte, durante a sua existência também teve premonição de outros acontecimentos, transcendentes e importantes na vida e história do País, dentre os quais a ascensão dos trabalhadores à chefia do governo, como repetidamente discorreu em  pronunciamentos incentivando os trabalhadores à sindicalização e à filiação a partidos políticos, tendo inclusive profetizado no discurso de 1º de maio de 1951 no estádio do Maracanã, na presença de 120 mil pessoas: “Trabalhadores do Brasil, tendes de prosseguir na vossa luta para que não seja malbaratado o nosso esforço comum de mais de vinte anos no sentido da reforma social, mas, ao contrário, para ser consolidado e aperfeiçoado. Para isso não cabe nenhuma hesitação na escolha do caminho que se abre à nossa frente. Não tendes armas, nem tesouros, nem contais com as influências ocultas que movem os grandes interesses. Para vencer os obstáculos e reduzir as resistências, é preciso unir-vos e organizar-vos. União e Organização devem ser o vosso lema. Preciso de vós, trabalhadores do Brasil (…) Chegou, por isso mesmo, a hora de o governo apelar  para os trabalhadores e dizer-lhes: uni-vos todos em vossos sindicatos como forças livres e organizadas. O sindicato é a vossa arma de luta, a vossa fortaleza defensiva, o vosso instrumento de ação  política. No regime democrático, a maioria é que governa. Vós trabalhadores sois a maioria; organizai-vos no sindicato e no partido político para galgar o poder”.
Pelo visto a mensagem do Presidente Getúlio Vargas foi ouvida e colocada em prática pelos trabalhadores sob a liderança de um torneiro mecânico, que organizou e arregimentou os sindicatos, formou o Partido dos Trabalhadores e galgou o governo.
Inúmeras são as ocorrências havidas em que as suas intuições se tornaram fatos, como a previsão da traição ocorrida em 1945, em que os seus mais íntimos generais, Eurico Gaspar Dutra, Pedro Aurélio Gois Monteiro e o mensageiro Cordeiro de Farias o traíram, e impuseram a sua deposição em 29 de outubro — e mais tarde, 10 anos depois, a funesta previsão de sua morte em 24 de agosto de 1954 —, com a traição do seu Ministro da Guerra, General Zenóbio da Costa, em que, despudorado e vergonhosamente, após a reunião ministerial em que ficou acertada, com sua afirmativa palavra, a licença do Presidente, esse patife desqualificado, de volta ao seu gabinete no Quartel General, declara aos generais presentes que o Presidente Getúlio Vargas não voltaria mais, estava deposto.
A traição de Zenóbio é comunicada por telefone por um General a Alzira Vargas, que leva a informação ao seu pai, que calma e tranquilamente lhe responde: “Eu já antevia essa traição”.
Mas a mais surpreendente antevisão premonitória de Getúlio Vargas foi a conversa havida em 1946, em sua instância em São Borja, logo após o resultado das eleições que elegeu o Presidente Eurico Gaspar Dutra, graças ao apoio declarado de Getúlio Vargas; eleição em que foi eleito senador por São Paulo e Rio Grande do Sul, e deputado estadual em 7 estados.
Terminado o churrasco, sentaram-se em volta do Presidente, que tomava chimarrão, diversos convivas. Dentre os quais, recordo-me de Danton Coelho, Alexandre Marcondes Filho, João Goulart, Manoel Vargas, Paulo Baeta Neves, presidente do PTB, José Brochado da Rocha, Roberto Alves, José Vecchio, Hernani Fittipaldi, Guilherme Arinos, Euzébio Rocha, Alberto Pasqualini, José Gomes Talarico e outros. Lembro que depois de muitos casos contados e situações sobre a campanha, comícios e passeatas, alguém perguntou: “E agora, Presidente, que ficou demonstrado o seu prestígio, o apoio e a bem querença do povo, o senhor não pretende voltar à Presidência da República?”
Getúlio olhou o interlocutor, deu uma sugada no chimarrão, olhou para o alto, em seguida para o entardecer do campo e respondeu: “Voltar é improvável e nem está nas minhas cogitações. Acedi em concorrer nas eleições proporcionais para fortalecer o Partido e a legenda. Entre os estados que disputei eleições e venci, escolhi a senatoria do Rio Grande porque é a minha terra. A caminhada no Congresso Nacional, se me dispuser a tanto, não será tranquila, devido aos ódios e malquerenças que se formaram. Estou cético do apoiamento contra as provocações que virão contra mim e o meu governo, muitas vezes contarão com as defecções e até apoio de companheiros que participaram da administração, mas que agora escolherão ficar à sombra do novo governo. Não sei se terei vontade de comparecer às disputas que irão ocorrer. Estou certo de que a ajuda eleitoral que demos ao General Dutra propiciando a sua vitória não nos trará reconhecimento e razoável participação no governo. Os novos áulicos do Presidente Dutra farão de tudo para incorporar a UDN ao governo e não tenho dúvida sobre as ofensas e mentiras que atirarão às minhas costas. Prevejo até que as conquistas sociais alcançadas e as reservas financeiras que acumulamos com as economias de guerra sejam desbaratadas com medidas predatórias contra os interesses do povo e da Nação. Prevejo para o futuro dias tumultuados e difíceis, mas antevejo também que o Rio Grande do Sul conseguirá fazer mais seis gaúchos na Presidência da República, sendo que São Borja terá o privilégio de fornecer ao Brasil mais 3 presidentes.”
Esta profecia se tornou quase totalmente realidade com a posse dos três presidentes militares, Artur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, nascidos respectivamente em Taquari, Bagé e Bento Gonçalves; e mais os próprios presidentes Getúlio Vargas e João Goulart, naturais de São Borja.
Se a previsão se concretizar, como acredito, em decorrência dos fatos premonitórios antecedentes previstos pelo Presi­dente Vargas, não é de se desdenhar o futuro do atual Ministro da Justiça Tarso Genro, já que é o único político de São Borja em evidência com possibilidade de atender à profecia do Presidente Getúlio Vargas, cuja ocorrência, entretanto, não acontecerá  em 2010, tendo em vista a sua previsível vitória ao governo do Rio Grande do Sul, mas possivelmente ocorrerá em 2014, em 2018, ou então, fatalmente, em 2022.