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O sonho com Deus

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Há mais de 30 anos, tive o privilégio de sonhar com Deus. Sonhava que pintava a bonita paisagem ensolarada dos morros que confrontam com o lado direito da minha propriedade em Maricá. Era dia de descanso, e aproveitando a beleza do entardecer, resolvi pintar, inspirado na vista do sol esmaecendo com sombras os contornos dos morros. Antes, havia terminado uma pintura com a configuração arquitetural das arcadas da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo que havia prometido ao ex-presidente Jânio Quadros, em retribuição ao quadro de sua autoria, representando a figura de um menino tristonho, com o qual me havia presenteado. Enquanto pintava as arcadas, rememorava os tempos passados e os fatos vividos, mesclando as alegrias, o entusiasmo e a gratificação pelas boas ações e resultados colhidos e, principalmente, pelas oportunidades de ter convivido com personalidades que foram figuras marcantes na história do Brasil. Revivi, também, tristes e amarguradas passagens, em função das quais sofrimentos, mágoas, humilhações, pesares e adversidades propiciaram meu enrijecimento para poder suportar as desgraças havidas e enfrentar e revidar as adversidades com ânimo, coragem e determinação.

No sonho, via com perfeição a figura de Deus, pintada por Miguel Ângelo. Estupefato, ouvi Deus perguntar o que estava pensando, e respondi “Deus sabe o que penso”, ao que Ele afirmou: “Sim, eu sei, mas quero que você diga o que estava pensando, mais concentrado no pensamento do que na pintura”.

Disse-lhe: “Bem, pensava que gostaria de chegar ao ano 2010 para, durante esse tempo, poder usufruir da minha família, principalmente dos filhos e netos, nos quais deposito esperanças, almejando vê-los felizes e realizados. Também veria o resultado dos trabalhos feitos com sacrifício, persistência, ânimo e determinação conquistada nas lutas, muitas delas ganhas graças à fé, à esperança e aos talentos que, como referidos na Bíblia, foram adquiridos e aplicados, possibilitando-me contrapor aos inúmeros revezes e obstáculos que surgiram. Mesmo assim, afirmo que procurei cumprir a missão que me foi destinada na Terra: tive filhos e netos, plantei árvores e colhi frutos, escrevi e publiquei livros, e não me omiti, ajudando e transmitindo aos próximos os bons exemplos, conhecimentos e ensinamentos. Deus sabe dos dissabores, humilhações e  perseguições perversas que enfrentei, sabe igualmente das duras e difíceis ocasiões em que, desesperado, cheguei a perder a fé e a esperança diante das brutalidades sofridas. Sabe, também, como foi demorado o reencontro com a razão e a fé, e o quanto me foi difícil encontrá-las.

Pensava, também, o quanto havia sofrido, suportando as cruéis perseguições políticas do governo militar, com mentiras, infâmias e acusações infundadas de participar, com o ex-presidente João Goulart, do financiamento de movimentos políticos contra os militares, cujas acusações sem fundamento me obrigaram, em consequência das perseguições, a encerrar as atividades profissionais da empresa que mantinha 14 escritórios no País, face às dificuldades administrativas impostas pela ditadura militar. Esta proibiu a continuidade dos negócios que mantinha com as corporações química farmacêutica e cinematográfica da China, com a proibição da exibição e a apreensão dos filmes, e as medidas proibitivas para a importação de produtos químicos farmacêuticos baixadas para atender ao protecionismo relacionado aos interesses de firmas concorrentes internacionais. Inclusive, o que mais prejudicou e feriu de morte a minha empresa, que foi forçada a encerrar as atividades em um momento de expansão, no qual assistia e assessorava cerca de 2.000 clientes, entre os quais as maiores firmas do País, com a revogação desastrosa, pelo governo militar, da Lei 5.316/1967, de iniciativa do senador e ministro do Trabalho e Previdência Social Jarbas Passarinho, a qual continha alto sentido social. Ela beneficiava os trabalhadores com a prevenção de acidentes, bem como incentivava, com a redução tarifária da taxa do seguro, as empresas que aplicassem, nos locais do trabalho, medidas e ações práticas de prevenção, inclusive com ensinamentos tendentes a minorar os infortúnios laborais”.

Assombrado pelo quanto havia falado, calei, e Deus disse: “Continua falando do que pensavas”. E  prossegui:

“– Igualmente, pensava no ocorrido, quando preso no navio “Raul Soares”, na tristeza, nas amarguras e humilhações sofridas, e no momento em que, aproveitando a confusão no dia em que o auditor militar fez uma diligência a fim de ouvir um prisioneiro, desci ao porão e constatei a miséria em que viviam os encarcerados nos xadrezes imundos, fétidos, com excrementos escorrendo pelo chão do corredor, e no momento da aproximação do presidente do sindicato dos metalúrgicos de Santos, Waldemar Garcia, que passou os braços pela grade, apertou as minhas mãos e, soluçando, não consegui falar, provocando igual emoção. Nesse dia, revoltado, resolvi escrever uma carta denunciando os horrores que aconteciam no navio. Chegada ao Correio da Manhã, às mãos do jornalista Marcio Moreira Alves, a carta foi publicada no jornal, com a manchete ‘Libelo de um prisioneiro do navio Raul Soares’, e no seu livro Torturas e torturados. A publicação no jornal provocou uma brutal e acirrada inquirição, que resultou em quatro costelas quebradas em minha transferência para a enfermaria do navio. A audácia e o sacrifício do feito, entretanto, valeram, porque dias após a publicação, o chefe da Casa Militar da Presidência da República, general Ernesto Geisel, fez uma diligência no barco, constatou as torpes mazelas denunciadas e promoveu a desativação do navio transformado em presídio. A maioria dos cerca de 600 trabalhadores foi libertada.

Pois bem, após a morte do presidente Getúlio Vargas, em decorrência dos trabalhos procedidos em razão da função exercida no Ministério do Trabalho, na Delegacia Regional em Santos, consegui evitar a greve da Marinha Mercante que ameaçava a paralisação de todos os navios brasileiros em todos os portos do mundo, com a aceitação da proposta de conciliação. Esta pôs fim ao ruinoso intento grevista de tão grandes consequências e prejuízos para o País, e seu êxito só foi possível com a imposição do afastamento das autoridades do Ministério da Marinha, que se opunham às negociações com o comando da greve, instalado no porto de Santos, face à denúncia de que a paralisação programada pelos marítimos era um movimento subversivo, comunista e anarquista.

Entretanto, apesar do bom resultado conseguido com a conciliação, evitando a greve, dias após, em razão da necessária atitude de afastar as autoridades da Marinha das negociações por exigência do comando de greve, fui abruptamente demitido das funções da chefia da repartição e, em seguida, também do cargo de inspetor do Trabalho, sob a inverossímil e absurda acusação de ser comunista e agitador. Os recursos e as defesas apresentadas, inclusive pessoalmente, às novas autoridades do governo do presidente Café Filho, nenhum resultado trouxeram para impedir a efetivação da demissão do cargo, apesar de ter recorrido pessoalmente ao ministro do Trabalho, senador Alencastro Guimarães, meu conhecido e companheiro político no PTB, e ao general Juarez Távora, chefe da Casa Militar da Presidência da República, também conhecido dos tempos em que assessorava o presidente Getúlio Vargas no Palácio do Catete. Esses dois pusilânimes, que sabiam não ser eu comunista e ter cumprido, por dever de ofício, as ordens expressas do presidente Getúlio Vargas e do ministro Alexandre Marcondes Filho, de intervir e agir com pronta e imediata atuação para evitar a greve da Marinha Mercante, se negaram, covardemente, a colaborar para esclarecer a verdade que conheciam sobre a minha ideologia”.

Continuando o relato do que pensava enquanto pintava, disse: “Também pensei e divaguei sobre fatos que se constituíram em grandes gratificações, como em Santos, no período de 1953/1954. Titular da Delegacia do Ministério do Trabalho, recebi homenagens de sindicatos de trabalhadores de inúmeras categorias profissionais, entre as quais estivadores, portuários, metalúrgicos e moageiros, face aos resultados conseguidos em várias oportunidades. Nestas, a ação conciliadora da repartição atuou em pleitos de reivindicações salariais, evitando greves e agindo com parcimônia quando elas eclodiam, com a paralisação do trabalho, conseguindo o retorno às atividades, com a celebração de acordo salarial promovido pela intervenção direta da repartição.

Lembrei, também, que atuei em São Paulo, em 1963/1964, como jornalista e radialista, na Rádio Marconi, transmitindo programas dedicados aos sindicatos e aos sindicalizados. Lembrei, principalmente, de minha atuação durante a grande greve de 1963, que paralisou milhões de trabalhadores, e do que ocorreu na comemoração do término da greve, no parque D. Pedro II, pelos resultados das reivindicações conseguidos, com os calorosos aplausos e manifestações que me foram dirigidas pelos cerca de 300.000 trabalhadores presentes. Estavam agradecidos pelo apoio e pela efetiva participação dada por meio da emissora, durante a campanha de aumento salarial e melhoria das condições de trabalho, numa demonstração de reconhecimento pelos trabalhos desenvolvidos, o que se constituiu uma das maiores e mais significativas glorificações que me foram concedidas.”

E continuei: “A par desse relevante e gratificante conforto recebido, pensava também nas injustiças e nos malefícios sofridos, como a humilhante prisão que sofri, na qual, sem qualquer pergunta, fui encapuzado e pendurado num ‘pau de arara’ por cerca de duas horas, sem nenhuma explicação ou motivo e, após, fui retirado do instrumento de tortura e colocado, inerte, num banco, no qual fui deixado por tempo impreciso, sozinho, até que os desalmados agentes policiais voltaram e, abruptamente, um deles informou: ‘Saiba que o acontecido foi para refrescar a sua memória para que você  lembre bem do que fez e para quem entregou o milhão de dólares que o Jango mandou do Uruguai’. Pasmo, estarrecido, mas com raiva diante do absurdo da acusação e da humilhante tortura sofrida, de pronto, levantei da cadeira, arranquei o capuz e, diante dos estupefatos e desqualificados policiais, disse-lhes com voz alterada e firme: ‘Vocês estão loucos, o presidente João Goulart não mandou nenhum dólar; o dinheiro que recebi a mando dele, oitocentos mil cruzeiros, foi parte do produto da venda do seu apartamento na Avenida Atlântica, Edifício Chopin, destinado à compra de gado, que comprei e tenho recibo; o gado está na Fazenda Três Marias, em Mato Grosso!!!’

Pensava, também, em outra desdita ocorrida em São Paulo. Na época, eu estava fora do País, vivendo um exílio forçado no Uruguai, portanto alheio a qualquer atividade política contra o governo militar. Nessa ocasião, foi armada uma trama em que fui envolvido como participante dos movimentos contestatórios que aconteciam em São Paulo, com ações armadas e assaltos a bancos. Por maquiavelismo, divulgaram nos jornais um assalto a uma joalheria do qual eu era o autor. Convencido de que a infâmia visava à minha apresentação para contestar a mentira e a vilania, ocasião em que seria mais uma vez preso para interrogatório referente aos movimentos oposicionistas em curso, preferi, por cautela e experiência, continuar no exílio. Quando voltei, após um tempo, soube da existência de um processo que havia corrido à minha revelia e que se encontrava em vias de julgamento na 9ª Vara Criminal, na qual me apresentei. Durante a audiência, diante do dono da joalheria assaltada, este, ao ser indagado pelo juiz, declarou não ter sido eu o bandido que assaltou a sua loja, e sim um cidadão amulatado. O processo foi arquivado.”

Se mais falei não lembro, e ao término do relato que julguei ter sido o que pensava enquanto pintava a bucólica paisagem dos morros ensolarados da minha residência em Maricá, Deus disse:

“O tempo de tua passagem na Terra corresponderá à maneira como te comportares, desde que restrinjas o uso que fazes da bebida e da comida. Segue o conselho dado pelo cardeal Carmelo de Vasconcellos Mota, em Aparecida, quando o procurastes na busca de paz e conforto às tuas amarguras e desilusões. Lembra-te das palavras ditas pelo cardeal naqueles tempos de sofrimentos e desespero: ‘Orpheu: não há como esmorecer. Você é um predestinado, e como tal, tem que continuar, com ânimo, lutando com coragem e com idealismo, e prosseguindo como uma vela acesa, de pé, iluminando até o fim os passos da sua vida, cheia de percalços, mas também de importantes conquistas e reconhecidas glórias’”.