“Os sonhos que alimentam a vida”

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No último dia 28 de abril, na Livraria Argumento do Leblon, José Gregori autografou seu livro, “Os sonhos que alimentam a vida”, com memórias e sonhos de sua honrada, digna e proveitosa vida.
Na sua obra, relembra fatos históricos dos quais foi personagem, lembrando figuras que evocam saudades, como Dona Ruth Cardoso, Dom Hélder Câmara, Marcio Moreira Alves, Mário Soares, Dalmo de Abreu Dallari, Almino Afonso, Hermano Alves, Fábio Comparato, Mario Covas, Fernando Gasparian, San Tiago Dantas, Franco Montoro, Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Renato Archer, Miguel Reale Júnior, Marcos Freire, Olavo Setúbal, Tancredo Neves, Severo Gomes, Vladimir Herzog, Paulo Freire, Rubens Paiva, Luís Carlos Prestes, Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek, Henrique Teixeira Lott, Marcílio Marques Moreira e outras personalidades que fazem parte da história.
José Gregori, ex-ministro da Justiça no governo Fernando Henrique, partícipe da política desde os tempos de estudante na Faculdade de Direito de São Paulo; companheiro de Franco Montoro no governo de São Paulo, de San Tiago Dantas e Marcílio Marques Moreira no Ministério da Fazenda, exerceu a Secretaria do Conselho Nacional de Defesa da Pessoa Humana. Foi o criador, quando Ministro da Justiça, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, tendo sido um dos mais estreitos colaboradores do Cardeal Paulo Arns na defesa dos presos e perseguidos da Ditadura Militar.
Seu livro, é um retrato por inteiro de um cidadão que dedicou sua vida, desde a juventude, à defesa dos postulados da democracia, da cidadania e dos direitos humanos.
Parte da vida de José Gregori, relatada com seus sonhos e utopias, são substanciosos exemplos rememorados. Exemplos vividos por  quem se  dedicou, com honra e dignidade, aos vários e importantes cargos que exerceu na vida pública.
As boas lembranças que traz de seus diletos amigos, ditosos companheiros e de sua querida família, em especial sua extremada mãe, Dona Esther, suas filhas e sua esposa Maria Helena —  valorosa defensora dos perseguidos da Ditadura Militar, inclusive sofrendo agruras, levada presa ao DOPS, por ordem do façanheiro e destrambelhado Secretário de Segurança Pública Coronel Erasmo Dias.
A rememoração do fantástico Padre Palácios, figura extraordinária de religioso, orador carismático, dotado de um misticismo que impregnava seus ouvintes e assistentes com sua voz grave e incisiva, chama-nos à lembrança de suas pregações humanistas e exemplos de religiosidade infinita.
As missas, as reuniões e as confabulações que promovia na sua igreja eram impressionantes pelos resultados. Muitas e muitas vezes eu assisti, depois de uma veemente pregação do Padre Palácios, a várias pessoas conhecidas — algumas delas, amigos que eu sabia ateus, comunistas e trotskistas empedernidos, e outros evangélicos — se postarem em fila, verdadeiramente convictos da fé, para receberem o sacramento da comunhão.
Conheci Padre Palácios através do amigo e companheiro de função na Presidência da República, Roberto Alves, que foi secretário particular do Presidente Getúlio Vargas. A amizade e convivência com Palácios foi de extrema importância nesse momento da minha vida, proporcionando-me momentos inesquecíveis. Passava por um período difícil,  após os dissabores e humilhações com as várias e impertinentes prisões em São Paulo e no Rio de Janeiro, culminando no navio presídio Raul Soares, onde curti um período de seis meses, parte dele em prisão incomunicável.
Ganhando a liberdade graças ao habeas corpus impetrado pelo amigo e professor Canuto Mendes de Almeida, viajei para o Uruguai, onde compartilhei de boa convivência com o presidente João Goulart, Darcy Ribeiro e outros companheiros que haviam ali se exilado. Depois de curto período no Uruguai, sem ter o que fazer, decidi voltar, completamente amargurado, frustrado, acabrunhado e descrente.
As reuniões às quais compareci na sacristia (estava mais para adega) da Igreja de São Dimas eram realmente fantásticas pelos participantes e pelos diálogos travados que se misturavam numa balbúrdia impressionante. Depois de horas de discussões, as mais variadas e controvertidas, Padre Palácios chamava para a missa, que ele dizia ser uma reunião de fé. Suas palestras e orações tinham um misticismo que transcendia à realidade num paradoxismo que misturava os acontecimentos vividos por cada um dos presentes e encaminhava, como ele afirmava, para um plano de vida espiritual mais elevado. Depois de sua preleção, que envolvia um espiritualismo transbordante de fé, era comum Palácios chamar um dos presentes para que desse um testemunho.
O que ocorria, então, era indescritível e inimaginável. Ora era um comunista ou trotskista fanático, como o ex-deputado Taibo Cadorniga, seguidor de Lênin, Engel e Marx, a falar de fé e espiritualismo; ora um ateu, como o ex-deputado Wilson Rahal, falando sobre o transcendentalismo, o misticismo e a fé na condução da humanidade (estes dois meus companheiros nos xadrezes do DOPS-SP, em abril e maio de 1964); ou então os boêmios como o empresário de artes Oswaldo Palma e o industrial  Alexandre Siciliano soluçando e dizendo dos afastamentos e reencontros com Deus; e assim por diante, como o ex-seminarista Roberto Alves, último secretário do Presidente Getúlio Vargas, lamentando a apostasia e a troca da batina pela política; evangélicos falando da vida de santos apóstolos, e assim tantos outros como eu, afastado da igreja e indiferente à religiosidade, a falar do espiritualismo e do desdobramento da fé.
Padre Palácios era um dos dirigentes do movimento da igreja, Cursilho da Cristandade, e um tenaz incentivador espiritual na tarefa de tentar levar seus convivas ao Cursilho. Algumas vezes, porém, encontrava reação ao convite e à participação, como no meu caso.
Os Cursilhos da Cristandade tiveram, no período posterior à derrubada do governo democrático do Presidente João Goulart, um grande surto de participantes em São Paulo, tendo, com a direção espiritual do Padre Palácios — um denodado incentivador e grande mensageiro da fé cristã —, alcançado um movimento espiritual extraordinário, com reuniões quinzenais que congregavam em média 50 participantes; além dos palestrantes, 2 clérigos, 6 leigos e um grupo de 7 leigos encarregados do preparo da alimentação. Os Cursilhos se realizavam numa grande residência na zona sul da capital, contendo boa acomodação para cerca de 70 pessoas e tinham a duração de 3 dias. Entrava-se na casa às 19h30min de quinta-feira e das 8h até às 20h de sextas, sábados e domingos realizavam-se palestras chamadas de “rolhos”.
Várias vezes Padre Palácios insistiu para que eu aceitasse participar de um Cursilho, tendo seguidamente recusado. Certa ocasião, Palácios, alegando que estavam faltando pessoas para ajudar na cozinha, fez uma convocação para que eu participasse, alegando saber dos meus conhecimentos e pendores culinários. Não tive como recusar, e após participar da primeira cozinha, fui logo conduzido a chefe, ou reitor da cozinha, como eram chamados os encarregados da alimentação nos Cursilhos. Exerci essa função em três oportunidades, esclarecendo que as funções da cozinha eram exclusivas e completamente distintas das reuniões.
Ao comparecer à quarta convocação para a cozinha, fui surpreendido com um estratagema preparado pelo Padre Palácios: ao me apresentar para função, fui informado que fora indicado para fazer o Cursilho. A reação foi de ir embora, aborrecido e não aceitando a substituição, no que fui dissuadido pelos amigos e companheiros Roberto Alves, Oswaldo Palma, Alexandre Siciliano e outros.
Ressabiado e contrariado, fui conduzido a um quarto, onde tive como companheiros Oswaldo Palma, o jovem Paulo Silveira e o banqueiro Amador Aguiar, que havia conhecido em Marília, durante uma visita do Presidente Getúlio Vargas às plantações de algodão e seda na fazenda do fazendeiro Iassutaro Matsubara, a pedido e instâncias do político Arquimedes Manhães e de Zezé de Almeida, diretor da Casa Bancária Almeida Irmãos.
Naquela ocasião, Amador gerenciava ou era contador da Casa Bancária Almeida Irmãos. Mais tarde, tornei a vê-lo em encontros políticos durante o governo do Dr. Ademar de Barros, na Prefeitura de São Paulo, onde Amador Aguiar foi Secretário de Finanças, por indicação do PTB e de João Goulart, então Vice-presidente de Juscelino Kubitschek, e ainda também, por ocasião da composição eleitoral ao Governo do Estado, quando, igualmente por indicação do PTB, foi cogitado para ser o candidato a Vice-Governador, o que recusou, indicando seu companheiro do Bradesco, Laudo Natel, que se elegeu e acabou governador, face a cassação de Ademar de Barros pelos militares.
Depois de acomodados, foi servido um café e voltamos ao quarto. O jovem estudante Paulo Silveira disse que foi induzido ao Cursilho por sua mãe, muito religiosa e ligada à Ordem das Carmelitas. O Palma, como eu, foi praticamente forçado e inscrito pelo Padre Palácios; trocamos algumas palavras. Já  Amador Aguiar, taciturno como era, pouco falou, demonstrando, talvez pelo mutismo, contrariedade por ter sido induzido a participar do Cursilho.
Deitei, as luzes foram desligadas e logo tanto Palma como o jovem ressonavam.
Amador Aguiar remexia-se na cama e deduzi que também, como eu, não conseguia dormir. Por horas meu pensamento divagou sobre vários assuntos e questões, fixando-me afinal sobre que resultado eu teria daquela clausura voluntária a que fora submetido, tendo em vista a convicção em que me achava de não aceitar participar de qualquer movimento religioso ou espiritual. E assim adormeci.
Os acontecimentos que ocorreram durante os 3 dias do Cursilho demandam, pelo ineditismo das palestras e resultados espirituais que produziram, que sejam tratados em outra ocasião e oportunidade, não agora, que é vez de falar do livro de José Gregori.
A apresentação do livro de José Gregori, devido a suas lembranças de personalidades do passado, em especial à rememoração de uma figura extraordinária que se tornou importante na minha vida espiritual, a do religioso Padre Palácios, descrito nas páginas  138/139, fez com que eu divagasse com passagens vividas intensamente nos tempos percorridos pelo autor do magnífico livro “Os Sonhos que Alimentam a Vida”.
As memórias do ex-ministro da Justiça do governo Fernando Henrique e atual Secretário Especial de Direitos Humanos da prefeitura de São Paulo recordam, além de sua história e carreira política, sua atuação nos tempos da repressão e o contato com personalidades da época. É recomendável a leitura. Como amostra do seu conteúdo, transcrevo a seguir um de seus impressionantes capítulos.

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