Protagonista da liberdade

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O dia 31 de março deste ano – lembrar para não acontecer jamais – registrou 47 anos do Golpe Militar de 1964. O cardeal emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, completará 90 anos de vida este ano, uma vida dedicada ao verdadeiro sacerdócio: amor ao próximo. Dom Paulo é uma das mais respeitadas autoridades em direitos humanos, no Brasil e no mundo. Para ele, nada é mais importante do que o exercício pleno da liberdade.
E foi com a sua fé inabalável que, em 1973, ele criou a Comissão de Justiça e Paz. Mais do que um organismo da Igreja Católica, é um permanente olhar sobre a vida. Um instrumento para defender a justiça, promover a paz, baseado no respeito à democracia – naqueles tempos duros da ditadura, um valor a ser reconquistado. A liberdade sempre foi um sagrado direito para o bom pastor, Paulo Evaristo, o cardeal Arns.
As cicatrizes dos regimes de opressão sofridos pelos países da América Latina, em especial o Brasil, estão não apenas nos corações e mentes dos que combateram por você, por mim, por nós. São marcas também nos milhões de excluídos deixados pela falta de desenvolvimento em mais de duas décadas de opressão. Triste herança que, até hoje, não teve solução. Porque persiste, embora concretos avanços, a indignidade da falta de saúde, educação, trabalho, segurança.
A batina de dom Paulo traz, entranhada no tecido, a poeira imunda das prisões nas quais foram torturados aqueles que defendiam a liberdade. Porque não houve gemido que ele não tenha ouvido, se fizesse presente e levasse conforto. E sempre de maneira corajosa, exigisse respeito. Sua imagem, voz, gestos são inesquecíveis para aqueles que, como eu, mereceram sua mão sobre a cabeça nos momentos mais sofridos, quando do injusto castigo imposto pelos ladrões da liberdade. É impressionante como ele soube, em nome de Deus, fazer com que os carcereiros e torturadores aceitassem suas ponderações em favor dos crentes e dos ateus, sem discriminar ninguém.
São muitos os episódios que recordam sua fraternidade: na Pastoral do Migrante, no Glicério; com as mães solteiras na Pro Matre Paulista; nos cárceres do DOPS, na Rua Piauí; nas favelas das zonas Sul e Leste; nas unidades da FEBEM; nos corredores da PUC; nos estúdios da Rádio América; nas páginas do “O São Paulo”; nos movimentos populares; nos estádios de futebol em meio à barulhenta torcida do seu Corinthians – porque, até nisso, seu sentimento estava sintonizado com o povo, com a maioria.
Pequeno, gestos contidos, voz doce. Grande, gestos firmes, voz determinada. Dom Paulo segue, às vésperas dos 90 anos, corajoso, solidário, lúcido, informado, consciente dos problemas e defensor de possíveis soluções. O guerreiro continua vivo! O pastor, o mestre, o jornalista, o escritor, o ativista – o eterno homem de fé, de esperança, de respeito ao semelhante não se aposentou. Um ser humano completo, para quem viver é participar. Uma lição de vida, um exemplo, um cidadão brasileiro a ser – por inquestionável merecimento – reverenciado e jamais esquecido.

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