Tancredo Neves restaurou a linha histórica do Brasil

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Já muito se escreveu neste País sobre o “espírito de conciliação” que se aponta como um dos pilares da longevidade do Segundo Reinado. O centro da ação política de Tancredo Neves reside justamente nesse espírito histórico de conciliação. Os franceses dizem que não existe democracia sem l’ésprit de minorité. Posso estender essa concepção para afirmar que não existe o verdadeiro democrata se dentro dele não existe o conciliador.

Conciliar é admitir que não somos os donos da verdade e que nossas idéias podem conviver com outras idéias. É o campo da pluralidade, muito difícil de chegar na política, onde muitas vezes se torna como inaceitável a própria convivência. Mas essa postura é a do político menor, aquele que limita suas obrigações às suas verdades e aos interesses de seus Partidos e facções.

O outro terreno é o dos estadistas quando, acima da política, está o interesse de todos. Para isso é necessário tecer alianças, articular, ceder, ter paciência, prudência e, sobretudo, espírito público, fora do caráter pessoal e do caráter partidário.

Tancredo definia que a conciliação não podia ser confundida com um mero oportunismo, mas uma opção pragmática e circunstancial para um “legítimo meio de resolução de conflitos vividos pela sociedade”.

É dele a definição: “Sou um pragmático e conciliador na ação, mas sou inflexível em matéria de princípios. Sempre que você transige em princípios, ganha um episódio, mas apenas um episódio. Perde na permanência e na substância.” São palavras de Tancredo Neves.

Os extremistas e radicais nunca transformaram o mundo. A revolução e a revolta são as responsáveis pelos momentos mais tristes e sangrentos da história universal. A luta contra a iniqüidade é mais eficaz pela denúncia  que pela violência. A denúncia acaba com a iniqüidade. A violência cria uma nova iniqüidade.

Desejo situar Tancredo Neves na continuidade dessa linha histórica da conciliação que construiu e assegurou a permanência do Brasil.

Vejamos o Segundo Reinado: o Imperador era sempre inclinado ao diálogo e à moderação, graças a uma unidade subjacente de interesses de classe comandando a política interna, mesmo nas horas de grande tensão emocional, como no período que se seguiu à Regência e o das guerras do Prata. A política era uma arte da aristocracia rural, que influía na formação dos quadros do Estado e da elite. Daí essa “situação de equilíbrio” que Euclides da Cunha atribuiu ao Segundo Reinado e cuja descrição mais famosa e, ao mesmo tempo, mordaz, está contida na “boutade” de Holanda Cavalcanti: “Não há nada mais parecido com um Saquarema do que um Luzia no poder.” Foi tão forte esse espírito de conciliação