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Tancredo Neves restaurou a linha histórica do Brasil

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Já muito se escreveu neste País sobre o “espírito de conciliação” que se aponta como um dos pilares da longevidade do Segundo Reinado. O centro da ação política de Tancredo Neves reside justamente nesse espírito histórico de conciliação. Os franceses dizem que não existe democracia sem l’ésprit de minorité. Posso estender essa concepção para afirmar que não existe o verdadeiro democrata se dentro dele não existe o conciliador.

Conciliar é admitir que não somos os donos da verdade e que nossas idéias podem conviver com outras idéias. É o campo da pluralidade, muito difícil de chegar na política, onde muitas vezes se torna como inaceitável a própria convivência. Mas essa postura é a do político menor, aquele que limita suas obrigações às suas verdades e aos interesses de seus Partidos e facções.

O outro terreno é o dos estadistas quando, acima da política, está o interesse de todos. Para isso é necessário tecer alianças, articular, ceder, ter paciência, prudência e, sobretudo, espírito público, fora do caráter pessoal e do caráter partidário.

Tancredo definia que a conciliação não podia ser confundida com um mero oportunismo, mas uma opção pragmática e circunstancial para um “legítimo meio de resolução de conflitos vividos pela sociedade”.

É dele a definição: “Sou um pragmático e conciliador na ação, mas sou inflexível em matéria de princípios. Sempre que você transige em princípios, ganha um episódio, mas apenas um episódio. Perde na permanência e na substância.” São palavras de Tancredo Neves.

Os extremistas e radicais nunca transformaram o mundo. A revolução e a revolta são as responsáveis pelos momentos mais tristes e sangrentos da história universal. A luta contra a iniqüidade é mais eficaz pela denúncia  que pela violência. A denúncia acaba com a iniqüidade. A violência cria uma nova iniqüidade.

Desejo situar Tancredo Neves na continuidade dessa linha histórica da conciliação que construiu e assegurou a permanência do Brasil.

Vejamos o Segundo Reinado: o Imperador era sempre inclinado ao diálogo e à moderação, graças a uma unidade subjacente de interesses de classe comandando a política interna, mesmo nas horas de grande tensão emocional, como no período que se seguiu à Regência e o das guerras do Prata. A política era uma arte da aristocracia rural, que influía na formação dos quadros do Estado e da elite. Daí essa “situação de equilíbrio” que Euclides da Cunha atribuiu ao Segundo Reinado e cuja descrição mais famosa e, ao mesmo tempo, mordaz, está contida na “boutade” de Holanda Cavalcanti: “Não há nada mais parecido com um Saquarema do que um Luzia no poder.” Foi tão forte esse espírito de conciliação no Brasil em defesa do regime monárquico que o seu mais ferrenho inimigo, Justiniano José da Rocha, terminou aceitando, como “fruto do tempo”, o Ministério de 7 de setembro de 1853, presidido pelo então Marquês do Paraná, justamente denominado de “Ministério da Conciliação”.

Cito essa fase da nossa História para fixar que há grande diferença entre Tancredo e o seu herói, o Marquês do Paraná – e ele que sempre dizia que tinha como farol o Marquês do Paraná: o tipo de conciliação que cada um deles exerceu na História do Brasil.

Não foi esse tipo de conciliação de Paraná, fundado na preservação do statu quo, que caracterizou Tancredo Neves. Ele viveu um tempo de dilaceração da sociedade e da própria humanidade. Um tempo descrito por outro grande mineiro de sua geração como um “Tempo de partidos. De homens partidos”. Foi assim que Carlos Drummond de Andrade marcou, em seus versos, essa época. Um tempo de antagonismos ideológicos inconciliáveis que, expostos pelos novos meios de comunicação do Século XX, intensificam-se perante a opinião pública e tornam muito mais difícil a aproximação, sobretudo a conciliação política. Pois foi justamente nesse tempo, diferente daquele tempo em que as posições políticas eram beatificadas ou satanizadas em função da bipolaridade ideológica, que Tancredo exerceu, com grande sabedoria e orgulhosa humildade, o sacerdócio da conciliação.

Falo hoje por um dever de consciência. Tancredo é uma falta que não pode um só momento deixar de ser invocada e uma saudade que não permite passar um só dia sem doer.

Cada vez mais fica nítida, em nossa História, a figura de Tancredo Neves como Patrono da Democracia, o construtor da transição democrática, o mártir da liberdade política.

Muitas vezes tenho afirmado que Tancredo Neves foi o homem preparado pela História para aquele momento difícil que o País viveu. Ninguém melhor do que ele seria capaz de construir o Brasil em que hoje vivemos, de uma democracia exemplar, em que a sociedade civil questiona e, num sistema de capilaridade, se derrama por todo o tecido social em organizações de classe, categorias, crenças, bairros, ruas, clubes, associações. A opinião pública, nova interlocutora da sociedade democrática, participa, expressa-se numa mídia viva, moderna, livre, sem limites, e ajuda o País a melhorar seus costumes políticos num combate sistemático contra os abusos e desvios do poder. É natural que, nesses momentos inaugurais, os excessos aconteçam. Mas o tempo os corrigirá.

Um provérbio chinês diz que, toda vez em que se vai beber água num poço, deve-se lembrar quem descobriu o poço.

Depois que deixei o Governo, recusei-me a discuti-lo, a defender-me, a dedicar-me à arte do ressentimento, da lamúria ou da exaltação. Invoquei mesmo um poema de Miguel Torga sobre Afonso de Albuquerque, que foi Vice-Rei da Índia, para justificar minha conduta:  “Do que fiz e do que não fiz não cuido agora; as Índias todas falarão por mim.” E incorporei ao meu comportamento a lição de George Washington, quando disse: “Sem nenhum ressentimento ou inveja, resolvi ficar satisfeito com todos.”

Minha grande missão, da qual tenho profundo orgulho, foi a de administrar o legado de Tancredo Neves.

Ele nunca foi um cientista político nem pensador. Não era de enredar-se em doutrinas.  Era um tático e um estrategista.

Toda sua vida foi dedicada a encontrar caminhos para o Brasil, com as virtudes que só estadistas possuem – repito -, da paciência, da prudência, da compreensão, do diálogo, sem que isso implicasse abdicar dos seus princípios.

Seu momento mais alto foi quando articulou a transição democrática, restaurou a democracia no Brasil, promoveu a alternância do poder sem dividir a casa, sem deixar hipotecas de tutela – e isso é muito importante – fato inédito que não ocorreu em nenhum país da América Latina nem em nenhum país que tenha vivido um ciclo de autoritarismo.

Ele restaurou a linha histórica do Brasil que, ao contrário da América Espanhola, não construiu a sua unidade nem o seu Estado-Nação no sangue dos seus irmãos e nas cruéis batalhas de hegemonias feudais. Tancredo construiu essa etapa importante do País como um oleiro, trabalhando pacientemente o seu barro. E o fez com o cuidado, a sabedoria e a capacidade em que ninguém o superava.

Reafirmo: a História o preparou para aquele instante. Ele foi o tático e o estrategista dessas grandes causas. Tinha uma experiência dos homens e da política alicerçada nos cargos que exerceu de Vereador e Presidente da Câmara de São João Del Rei, passando por todos os cargos da República até a Presidência da República.

O líder é aquele que consegue harmonizar vontades, unificá-las com determinado objetivo. Por isso mesmo, liderar não é uma tarefa solitária; necessita de adeptos, de coadjuvantes, de co-autores, de seguidores. Tancredo Neves liderava líderes e, nesse nível, como dizia Guimarães Rosa em relação à vida, liderar é muito perigoso.

Ele corria esse perigo permanentemente, até mesmo porque essa atividade política é feita num terreno de vaidades, interesses, frustrações, invejas, ciúmes e todos os pecados capitais do exercício de comandar.

A saída do Estado autoritário para o Estado de Direito podia ter duas estradas: a da violência, da tomada do poder pela armas, pela revolução sangrenta. Esta, sem dúvida, seria a escolha de exaltados em que nos devemos reconhecer que são sempre plenos de idealismo e de coragem. Mas, aqui e no mundo inteiro, essa virtude tem custado sangue e sacrifício. No nosso caso, não se vislumbrava  nessa saída nenhuma chance. O outro caminho, o da denúncia, da luta contra os erros, da pregação, da permanente vigilância e da demonstração da injustiça. Foi o caminho que ele escolheu. O caminho da política. Tancredo sempre acreditou nesse caminho que, ao contrário do que pode parecer, possui maiores perigos, exige maior coragem, maiores sacrifícios.

No primeiro caminho, a única preocupação é com a morte, com o sacrifício pessoal; no segundo, com a vida, com a sobrevivência de todos. Todos. Nessa palavra-chave está a chave do homem de estado. Quem melhor o definiu foi Tiradentes.

Nos autos da devassa existe uma passagem na qual se relata que, para demonstrar a prova do crime de Tiradentes, foi armada uma cilada, para que ficasse provado que Tiradentes estava conspirando. Ele foi levado perante duas testemunhas do Rei que ali estavam para comprovar o desvio de sua conduta e o possível seu ex-amigo e conspirador lhe diz: “Eu aqui estou a trabalhar para ti”.

E Tiradentes responde: “ E eu, a trabalhar para todos”.

Considero essa simples passagem dos autos da devassa como a mais precisa e mais sintética demonstração do grande estadista. Tancredo tem a marca de pensar em todos. Toda a sua vida é marcada pela palavra conciliação, pela busca de servir a todos. Não era sem motivo que ele considerava Honório Hermeto Carneiro Leão, o Marquês do Paraná, que chefiou o Gabinete de Conciliação, como o seu ídolo, a pessoa que ele mais admirava na história do Brasil.

Quando a história conduz Tancredo Neves ao comando das difíceis articulações para o fim do regime autoritário, ele não chega com as mãos vazias. Já era o ponto de referência, quando se desejava unir, neste País.

Quando Getúlio se suicida, é Tancredo Neves quem vai falar no seu túmulo. O País vive um instante de grande comoção, os sentimentos estão em combustão. À beira do túmulo de Getúlio estão as lágrimas, mas também estão as cobranças e as revoltas, estão os desejos de revanche.

Nestes momentos, a sedução do político é usar a tragédia para usufruir dividendos, destruir os adversários, estimular o povo à vingança.

Disto, encontramos exemplos emblemáticos na literatura e na história. Lembremos o discurso de Marco Antônio à beira do cadáver de César, com o povo ali em volta. Então ele diz: “Quem tem lágrimas prepare-se para derramá-las”.

E apontando para o manto de César, diz: “Todos conhecem esse manto… Capaz de levantar vossas almas e pôr a língua em cada ferimento de César, capaz de mover as pedras de Roma, até se levantarem, revoltadas”.

“ Queimaremos a casa de Brutus.”

“Avante! Vamos agarrar os conspiradores”.

Era o seu discurso. Mas Marco Antônio, ele mesmo dizia: “Sou um homem simples e tosco.” Não era um estadista; era simplesmente um político oportunista.

Tancredo Neves não era esse tipo de político; era a sublimação do político, era o estadista.

Vamos fazer a comparação do discurso de Marco Antônio como um exemplo iconográfico e o discurso de Tancredo à beira do túmulo de Getúlio Vargas naquela manhã fria de São Borja: “Com minhas palavras não desejo agitar a opinião pública nem trazer um elemento a mais para a instabilidade política na morte de Vargas” (…) ”Por isso vos falo nesses termos, ditados pela verdade e pela franqueza.”

Podemos sentir a dimensão do espírito e da grandeza deste homem público que teve o Brasil.

Naquela manhã também – não resisto –, ao ouvir a voz de Oswaldo Aranha, quando disse: “O teu apelo – apontava para o cadáver de Getúlio – será atendido. Tudo faremos para atendê-lo, para que o Brasil não viva dirigido por ódios, por sentimentos subalternos nem por vinganças ou recriminações, mas dentro da realidade generosa e fraterna”.

Assim falaram esses homens naquele momento trágico da História do Brasil.

Dias antes, Getúlio ouvira o seu filho Luthero propor-lhe: “Vamos levantar as barricadas. Vamos armar ninhos de metralhadoras. Vamos levantar o Rio Grande do Sul”. E Getúlio responde: “De jeito nenhum. Não quero ver sangue nem luta. A única morte que admito aqui é a minha. De mais ninguém”.

Esses episódios mostram perfeitamente como esses grandes homens conduziram os momentos mais difíceis da vida nacional.

Mas não é somente aí.

Como disse, Tancredo não chega de mãos limpas e vazias. Vem a crise de 1961, da renúncia de Jânio. Negocia-se. As paixões e interesses políticos estão na mesa, de forma irreconciliável. Nestes momentos, o que menos se pode exigir é que os perdedores não sejam atingidos pelo sentimento de revanche.

Havia o exército da legalidade no Sul, uma opinião pública dividida chamando em defesa da continuidade democrática. Havia uma imensa gama de interesses que se sentiam legítimos na eleição de Jânio Quadros e frustrados ali estavam, querendo a quebra do regime, com apoio militar, dispostos a tudo. Era o confronto.

A hora do confronto é a hora da política. Mas tem de se encontrar sempre um homem que assegure que a solução não seja a dissolução. Que resolva um caso emergente para não surgir outro maior. Quantas vezes houve situações dessa natureza?

Naquele instante, só havia um homem para essa tarefa, que foi aceito por todos. E quando se diz que Jango Goulart foi empossado – e criam-se várias teses –, meu testemunho, de quem viveu os fatos naqueles tempos, é de que foi o penhor do equilíbrio de Tancredo Neves, à frente do Governo Parlamentarista, a chave da solução. O Presidente Antonio Carlos Magalhães estava presente no Congresso Nacional àquela época.

Como Tancredo Neves exerceu a sua capacidade de negociar, como formou um gabinete que, na sua heterogeneidade, tinha unidade de objetivos? Quais eram eles? Manter Jango no poder? Uma questão pessoal? Não. Era atravessar uma etapa. E ele o fez admiravelmente bem. Em seguida, conseguiu quase um milagre: baixou a temperatura política do País, com a sua capacidade, com o seu temperamento, e impessoalizou sua tarefa.

Muitas vezes nos esquecemos de pequenos fatos que são demonstrativos de momentos fundamentais. É desse período uma das suas mais brilhantes tarefas que mostram o temperamento de Tancredo Neves, talvez a única em nossa história, de uma engenharia dessa natureza. Ele consegue que Jango viaje aos Estados Unidos, na era Kennedy, acompanhado de todos – todos – os Presidentes de Partido do Brasil. Mostrava, assim, à comunidade internacional, o clima de normalidade depois do vendaval por que tínhamos passado. E foi assim que tentou e negociou a dívida externa, unindo o Brasil em torno de uma questão vital naquele momento.

Mas é o mesmo Tancredo Neves, grande tático, que, depois de cumprir essa tarefa de evitar a ruptura do regime, ao renunciar o mandato de Primeiro Ministro para candidatar-se a Deputado, denuncia o Parlamentarismo como uma solução injusta para uma crise e, uma vez que esta foi superada, com toda a coragem, ele pedia o regresso do Presidencialismo.

É o mesmo Tancredo Neves que tenta mudanças no Governo Goulart, condena a rebelião dos cabos e sargentos, procura evitar a derrocada das instituições que ele mesmo salvara. Mas sem resultado. O PSD todo apóia a Revolução de 1964, e ele, solitário, é o único a não votar em Castelo Branco, de quem era amigo pessoal. Afirma: “‑ Sou conciliador, mas em matéria de princípios não transijo.” Castelo Branco, também num gesto de grandeza, escreve em letras vermelhas no processo em que a linha dura propõe a cassação de Tancredo: “Este, não!”

Tancredo Neves sabia que nem a Revolução nem a sedição iriam derrubar o regime autoritário. Era a competente negociação política, a sua arte, a arte que sabia construir e manejar.

Em março de 1978, Tancredo torna-se líder da Bancada do MDB na Câmara. Em novembro, mês que acaba o bipartidarismo, elege-se Senador. Articula, então, a criação do Partido Popular – PP, de centro, que reúne dissidentes do MDB e da Arena, inclusive o histórico rival Magalhães Pinto, na solução mineira que tanto gostava: Tancredo é o presidente, e Magalhães, o presidente de honra. É a tentativa de criar uma opção de poder de centro, democrática, diferenciada de uma esquerda radical e de uma direita também radical. No final de 1981, o Governo Figueiredo passa o voto vinculado e abate o PP, que então se funde com o PMDB. No final de 1978, cai o AI-5, de uma Emenda Constitucional da qual fui Relator no Congresso Nacional.

Eleito Governador de Minas em 82, Tancredo assume, em março de 83, e prossegue a luta pela redemocratização. “O primeiro compromisso de Minas — diz ele — é com a liberdade”. “Liberdade é o outro nome de Minas Gerais”. No Congresso, na imprensa, na prática permanente do diálogo e da conciliação ele exerce sua atividade. No Governo de Minas, acerta com Aureliano o Acordo de Minas. Aureliano, outro patriota, também grande brasileiro, a quem a Nação muito deve. Se um dos dois saísse candidato a Presidente, o outro apoiaria. Participa da campanha  por eleições “Diretas-Já” para Presidente no início de 84. Prega a união nacional. Trabalha exageradamente. Tem aquela famosa frase: “Para descansar, eu tenho a eternidade”.

Com apoio de amplo espectro ideológico, compõe, costura, aglutina as forças de oposição e dissidentes de Governo, como Marco Maciel, Antonio Carlos Magalhães, Jorge Bornhausen, eu próprio e muitos outros, e sai candidato à Presidência da República. Tece engenhosa teia política dentro do PMDB. Une os diversos grupos e as diversas correntes, rompe resistências do seu próprio Partido, recebe a adesão do grupo autêntico, atrai o apoio de Ulysses Guimarães, numa missão quase difícil, numa engenharia extraordinária de filigranas que ele sabia tão bem manejar na arte da política. Dialoga com setores do Governo, vai à sociedade civil, articula-se com lideranças militares, quebra resistências, vence manobras. Faz vibrante campanha por todo o País, recebendo a aprovação direta do povo nas ruas e nas praças. Prega a conciliação nacional como saída para o impasse e a crise.

Transige e negocia. Transforma a energia política da campanha das “Diretas-Já” em combustível da sua vitória no Colégio Eleitoral. Faz impecável engenharia política. Coerente, é sempre o moderado fiel à liberdade. Prega mudanças, promete a convocação da assembléia constituinte, pede união e condena o revanchismo. O projeto é a democracia. Tranqüiliza a todos, militares e civis. Faz o que adora fazer: política. A grande política. Daí nasce o caminho de toda a tranqüilidade, e a democracia que o Brasil vive até os tempos atuais.

Ninguém governa os tempos. Como uma tragédia grega, Tancredo Neves lidera o final da transição política convivendo com doença que talvez só ele soubesse. Dois irmãos seu haviam morrido. Luta contra o tempo: receia que se instaure uma crise político-militar de desenlace imprevisível, se não for empossado. Comprometimento do projeto democrático da Nova República. Estava informado de que o Presidente Figueiredo não daria posse a mim, o vice-presidente eleito. Luta desesperadamente contra o tempo, sofre. Ele sabia que ele estava doente. Confere seu esquema militar de apoio à transição. A doença se agrava e, com ela, o temor de crise e mesmo de retrocesso político, caso não assuma. Decide correr o risco de perder a própria vida. Imolação?

Depois de 51 anos de vida pública, a dor implacável a quinze horas da posse na manhã de 15 de março de 1985. A internação, a indicação cirúrgica e sua tenaz resistência. Não quero deter-me nos problemas médicos que atravessou, mas não admite ser operado antes da posse. Era preocupação pessoal? Não. Aos médicos resiste, luta, implora: “Eu peço, pelo amor de Deus: me deixem até amanhã e depois de amanhã façam de mim o que vocês quiserem. Mas eu tenho a obrigação. É um compromisso que eu tenho. Eu sei, de fonte fidedigna, que o Figueiredo não dá posse ao Sarney e eu preciso concluir a transição democrática”. No hospital, sua preocupação não é a sua saúde. É o País. É a conclusão da transição. Chama Dornelles e diz a ele: “Não me operarei, o Figueiredo não transmite o Poder ao Sarney.” Dornelles, no interesse de sua saúde, diz-lhe que acaba de estar com o Dr. Leitão de Abreu e que o Presidente vai transmitir o Governo a Sarney.

Só aí ele aceita a decisão e diz: “Os médicos decidam.”

A dor sem fim da família. O exemplo superior de amor e dedicação de Risoleta Guimarães Tolentino Neves e de todos que passaram aqueles momentos tão trágicos da República.

Sua longa operação demora até a manhã. Ao acordar da anestesia, sua preocupação não é com ele – é um fato extraordinário que não devemos esquecer na linha sem curvas ou desvios da conduta desse homem durante toda a sua vida. Ao acordar, sua primeira pergunta aos médicos é a seguinte: “Então, como foi? O Sarney tomou posse? Correu tudo bem?” Não perguntou se com ele as coisas haviam corrido bem. Perguntou se as coisas haviam corrido bem com o País.

Foi o dia mais angustiante de minha vida. Queria assumir junto com ele. Assumi contra minha vontade. Por imperativo jurídico e pela vontade dele, Tancredo, que disse ao sobrinho Francisco Dornelles antes de consentir com a cirurgia – aí então, já um pouco envolvido nos problemas jurídicos: “Mas tem que ser o Sarney, Dornelles”.

Do hospital, o anúncio de sucesso, a euforia dos médicos, a alegria e esperança de todo o País. A informação de que ele vai assumir na semana seguinte. Mas a situação se agrava. Vem a segunda cirurgia, no dia 20 de março de 1985, que complica ainda mais o quadro. A preocupação com o País e o governo. A carta de aprovação e apoio que me enviou em 23 de março de 1985 é uma carta para mim e também para o País, com uma finalidade política extraordinária. Tancredo sabe que eu, vice-Presidente, tinha dificuldades, grandes dificuldades naquele instante. Dentro e fora do Partido. E ele então, no hospital, em meio às suas agruras, resolve me enviar uma carta, a qual é a menos a mim, a meus dotes e a minha conduta, mas mais pensando em consolidar, em legitimar o Governo, em reforçar a transição, para que eu tivesse condições de conduzir o País naquele instante.

A imprensa toda publicou naqueles dias esta carta, que teve um efeito extraordinário na legitimação do poder que se instalava: “Caro Sarney,

A Nação está registrando o exemplo de irrepreensível correção moral que o prezado amigo lhe transmite no exercício da Presidência da República.

Na política, o exemplo é mais importante que o discurso. O discurso é efêmero pela sua própria natureza. O seu efeito termina com a leitura de sua divulgação por mais eloqüente e oportuno que seja ele. O exemplo, ao contrário, contribui para a construção ética da consciência do nosso povo que, na solidariedade que tem demonstrado, tem me dado forças para superar estes momentos.”

E conclui com outras palavras de gentileza a meu respeito, que me dispenso de ler.

Mártir, como bem definem as religiões, é aquele que não resiste ao sofrimento, que não se revolta, que aceita o sacrifício pela sua fé. Essa é a definição de mártir. Tancredo, assim, é o nosso mártir político. Ele aceita morrer porque esse é seu destino, é a exigência de sua fé ‑ e a sua fé era a democracia e a transição democrática.

Ele sabia o que custara chegar àquele instante. Se ele aceitasse hospitalizar-se dias antes, a transição não ocorreria. O problema institucional estava implantando. Por isso, no silêncio da sua dor, com as mãos frias que tantas vezes apertei, havia um sofrimento que ele não revelava, porque sua preocupação com o Brasil era maior.

Caminhou até o fim. E até o fim foi fiel ao povo brasileiro e à causa da transição democrática.

O legado de Tancredo está aí. Não devemos esquecer ‑ e é esse o sentido de minhas palavras ‑, que os dias que vivemos hoje têm o legado de Tancredo, a genialidade de sua construção política. Seu projeto, ao qual permaneci fiel, frutificou. Os que falam da década perdida acham que a economia é maior do que a liberdade.

O Brasil chega ao fim do século com uma poderosa sociedade democrática e uma das maiores democracias de massa do mundo. Atravessamos o gargalo institucional.

Em 1900, tínhamos um País feudal, uma República sem povo. Era um País institucionalmente atrasado. Não existiam caminhos nem perspectivas de romper o subdesenvolvimento. O Brasil era formado de ilhas estanques. Cada uma com uma cultura própria. Com a interligação territorial, abandonamos o mar como instrumento de unidade. O País intercomunicou-se. O povo passou a ser um só, e esse confronto de diversidades despertou a chama da igualdade. Sempre fomos elitistas e autoritários. Quando o autoritarismo não estava na lei, estava nos homens.

Com a vitória de Tancredo Neves, o Brasil muda. Legalizam-se os partidos ideológicos. As centrais sindicais são legitimadas. Acabam-se as leis autoritárias.

A Constituinte é convocada. Os direitos sociais avançam. E o povo passa a existir.

Nasce um movimento sindical legítimo, com sindicatos livres. A Igreja desagregou o padroado das elites, buscando uma ponte política com os pobres. São importantes as conseqüências das idéias que eles pregaram.

A partir de 1985, nossa sociedade encontrou um dinamismo efervescente, profundo, refletido pela liberdade que tomou formas de expansão e exercício. Foi tão rápido que tivemos Luís Inácio da Silva, um operário, metalúrgico, emigrante das secas, candidato a Presidente da República, que chega ao segundo turno e quase chega à Presidência da República. Mostra a ruptura do processo de domínio das elites e a mobilidade social.

Chegamos ao fim do século com a conquista de uma exemplar sociedade democrática e uma democracia de massas. Essa é a chave do futuro com a qual podemos superar os problemas sociais, que são graves, e as desigualdades e atrasos, que não podem mais ter efeito paralisante. A sociedade moveu-se, move-se, e mover-se-á.

Não se criaram só instituições democráticas. Floresceu no Brasil uma sociedade democrática. Esse é um ponto de reflexão. Não restauramos somente instituições democráticas. A sociedade democrática passou a existir no Brasil, e isso foi obra do gênio da articulação política, Tancredo Neves.

O Brasil não passa apenas a ter o Estado de Direito, mas um Estado Social de Direito. O consumidor, a cidadania, a opinião pública passam a existir, opinam, decidem.

Lembro apenas pequenos e importantes pontos nesse caminho: vale-transporte, vale-alimentação, seguro-desemprego, impenhorabilidade da casa própria, salário móvel, extensão da Previdência Social aos trabalhadores do campo, universalidade da saúde, direitos e conquistas sociais. O desemprego foi o mais baixo da história do Brasil.

O desemprego liquida toda a força de expansão do movimento trabalhador. Seu poder de participar das decisões, com desemprego, é nulo. Com ele não há transformações políticas importantes, e todas as decisões ficam com o capital. Não é por acaso que a maior liberdade no País corresponde à menor taxa de desemprego já existente na história do Brasil.

Foram aqueles tempos de liberdade, quando a liberdade se abria para o País.

Muitas batalhas foram perdidas, como a luta contra a inflação, mas não fomos à recessão. O Brasil cresceu 25%, e a renda, 12%, vindo de uma queda de 13%. Seguindo o exemplo de Tancredo Neves, tive a oportunidade de afirmar “Cercados, ilhados, enfrentamos o boicote da comunidade financeira internacional e a suspensão de investimentos. Mas a resistimos. Não entregamos um milímetro da soberania e dos interesses nacionais como contrapartida para qualquer negociação. Não cedi, não concedi”. São palavras minhas ao deixar a Presidência da República.

O projeto de Tancredo Neves inspirava-me, protegia-me, conduzia-me, com a noção da responsabilidade que eu tinha de administrar o seu legado político.

Governar é difícil. O suicídio, a deposição, a renúncia, o impeachment rondam os que governam este País. É preciso ter a invocação de Tancredo Neves para resistir e administrar.

O Brasil saiu tão forte que atravessou as dificuldades quase intransponíveis que surgiram depois.

Lanço os olhos no tempo. Recordo aquele 15 de março de 1985. Com a doença e depois a morte de Tancredo Neves, coube-me dirigir a Nação no seu período mais difícil, porque cheio de cobranças políticas, as mais altas de toda a nossa história.

Somavam-se esperanças e dificuldades. As liberdades, até então represadas, explodiam em reivindicações e gestos muitas vezes de intolerância. A ânsia de mudanças atropelava os fatos. Tive a tarefa gigantesca e quase impossível de administrar e dar equilíbrio a uma aliança de forças heterogêneas, que fora construída em precária engenharia política, para possibilitar a travessia do regime autoritário para o pleno Estado de Direito, com a presença de Tancredo Neves no comando desse processo. Sua ausência fazia falta.

Há um tempo de semear e outro de colher. É possível que o tempo de colher seja mais glorioso. Mas é o tempo de semear que determina o que se vai colher. Num período de múltiplas transições internas e externas que vivemos, coube-me plantar em nome de Tancredo e poucas vezes colher, no exemplo de Tancredo.

Plantei, seguindo o exemplo da paciência política, essencial à convivência democrática.

Semeei o exemplo de respeitar a liberdade de Imprensa, do rádio e da televisão até o extremo, porque entendo que a prática da liberdade corrige os excessos.

Mas Tancredo era e é a nossa inspiração. Nada fiz sem pensar no que ele faria. Substituí-lo era tarefa maior do que eu mesmo.

Tancredo Neves, como diz o Senador Antonio Carlos Magalhães, “até hoje faz muito falta”. Pedro Simon fala “que ele se imolou pelo País, como mártir”. Afonso Arinos reduziu em uma frase o que se podia dizer sobre Tancredo, o que todos gostaríamos de dizer: “há homens que dão a vida pelo País. Tancredo deu muito mais que a vida, deu a morte”.

Quinze anos se passaram. Passarão, sem dúvida alguma, séculos, mas sua memória está na pedra eterna da nossa nacionalidade.

No encerramento do discurso do Senador José Sarney, o Presidente da Casa, Senador Antônio Carlos Magalhães disse: “A Mesa do Senado faz suas as palavras do Presidente José Sarney, numa homenagem a essa grande figura que foi Tancredo Neves, imortalizado na história do País pelo seu trabalho, pelo seu êxito na vida pública, mas sobretudo pela sua paciência em saber gerir a administração e os conflitos políticos. Daí porque a palavra autorizada do Presidente José Sarney, que o substituiu numa hora de grande dificuldade para a Nação e que soube honrar a memória de Tancredo Neves, como hoje todos estamos honrando com suas palavras, nessa homenagem que não é apenas do Senado, mas de todo o Brasil”.