Tribuna da Imprensa 57 anos de história

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NOTA DO EDITOR
Transcrevemos o oportuno e apreciado pronunciamento na tribuna do Senado Federal, pelo senador Álvaro Dias, sobre a importância histórica dos 57 anos do jornal “Tribuna da Imprensa” e de seu valoroso e combativo diretor.

Sou confrade do jornalista Hélio Fernandes há mais de meio século, tendo discordado algumas vezes de suas opiniões sobre questões políticas. Entretanto, é de se reconhecer nesse homem, que não há como se contestar que é o maior e mais independente jornalista brasileiro vivo.

Hélio Fernandes, entre outras e inúmeras honrarias, é detentor do troféu “Dom Quixote de La Mancha”, e creio que não existe, na imprensa, em todo o mundo, uma personalidade dedicada ao jornalismo que tenha tantas qualidades que se coadunem com o idealismo da figura criada por Miguel de Cervantes de Saavedra, entre as quais destacam-se a coragem, a intrepidez, o amor, a renúncia e a devoção à verdade.
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(Publicado no jornal “Tribuna da Imprensa” em dezembro de 2006)

A “Tribuna da Imprensa”, um jornal heróico e histórico brasileiro, fundado por Carlos Lacerda e desde 62 de propriedade de Helio fernandes, que o adquiriu não do governador e líder da UDN, mas de Nascimento Brito, do “Jornal do Brasil”, que o teve em sua posse por apenas 1 ano, completou seus primeiros 57 anos de existência no dia 2 deste mês.

Carta do senador Paulo Otávio publicada esta semana recorda a data, que conduz a uma saga belíssima, absolutamente singular no jornalismo brasileiro. Isso porque é impossível escrever-se a história política do Brasil de 1949 aos dias de hoje sem citar Lacerda, que morreu jovem, em 1977, aos 63 nos de idade, Helio Fernandes e a “Tribuna da Imprensa”, paixão e vocação de ambos.

Carlos Lacerda, Hélio Fernandese esta folha são personagens fortíssimos e eternos de nossa história, sem distinguir convergências e divergências, além de testemunhas essenciais do tempo. Vão viver para sempre na memória nacional e assim devem ser destacados, a cada aniversário da obra que criaram. Helio Fernandes, um espadachim, tornou-se inclusive o jornalista mais atingido pelo arbítrio e pela ditadura militar, de 64 a 85, da vida brasileira.

Confinado três vezes, preso dezenas de outras, cassado e o único proibido de escrever, ameaçado, perseguido, com seu jornal bloqueado economicamente, censurado de forma brutal nos governos Médici e Geisel, ainda por cima alvo de violento ataque terrorista em 81, governo João Figueiredo. As rotativas da Rua do Lavradio foram explodidas, o prédio incendiado. O Exército e a polícia, até agora, não descobriram os autores, mas a “Tribuna” sobreviveu firme. Aqui está ela, orgulho da liberdade de imprensa no Brasil.

O nome “Tribuna da Imprensa” era o título de uma coluna diária que o jornalista Carlos Lacerda assinava no antigo “Correio da Manhã”. Fez durante alguns anos. Certa vez, entretanto, criticou o empresário Soares Sampaio, proprietário da Refinaria de Capuava, amigo de Paulo Bitencourt, dono do jornal e seu colega de turma na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Paulo Bitencourt não tinha razão.

A coluna fora visada pelo temível redator-chefe, Costa Rego, ex-senador por Alagoas, que era considerado o inimigo número um do general Góes Monteiro, chefe do Emfa no governo ditatorial de Vargas, que começou em 37 e acabou em 45. Paulo Bitencourt chegou a publicar um tópico, em 48, lamentando a saída de Lacerda. Mas deu o título da coluna de presente ao repórter. Em 2 de dezembro de 49, ele transformou a coluna neste jornal que estamos lendo há 57 anos.

Carlos Lacerda e a “Tribuna da Imprensa” foram os maiores personagens da crise de 54 que culminou com o trágico desfecho de 24 de agosto. Um ano depois, em 55, Carlos Lacerda e Helio Fernandes tiveram sua primeira divergência frontal. Helio Fernandes assinava a coluna Fatos e Rumores no “Diário de Notícias”. Lacerda, um gênio absoluto, mas não um democrata, opôs-se tenazmente à posse de Juscelino na presidência da República, eleito naquele ano. Ocupava diariamente o microfone da Rádio Globo. Helio Fernandes, ao lado do resultado das urnas, portanto a favor.

Reencontraram-se na sucessão de 60, ambos apoiando Jânio Quadros. Nesse ano, Lacerda elegeu-se governador da Guanabara. Mas em 61, agosto, menos de um ano depois, chocaram-se novamente, no episódio da renúncia. Lacerda contra a posse de João Goulart. Hélio Fernades a favor. Jango assumiu e os dois proprietários da Tribuna  reencontram-se de novo na oposição. Helio Fernandes foi preso em 63 por ordem do general Jair Dantas Ribeiro, ministro da Guerra.

Depois da tempestade de 64, deposição militar de Jango, Lacerda candidato da UDN às eleições presidenciais de 1965, vieram as estaduais de 65. Na Guanabara, Lacerda apóia Flexa Ribeiro, que perde para Negrão de Lima por maioria absoluta. Outro conflito entre Carlos Lacerda e Hélio Fernandes: o primeirocontra a posse de Negrão, Helio Fernandes a favor. Lacerda passou a jogar todas as fichas num golpe contra o general Castelo Branco, então presidente da República. Helio Fernandes escrevia, penso eu, para preservar a etapa democrática de 66, não teve êxito.

O general Costa e Silva, ministro do Exército, aproveitou a contradição militar: garantiu Castelo Branco, mas ao preço de se acabar com as eleições diretas. Em 66, ele próprio elegeu-se indiretamente. Lacerda havia detonado pelos ares seu próprio projeto de chegar à presidência da República. O destino seria cruel com ele, mesmo sendo lacerdistas, Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo. Chegaram os que disputavam seu cumprimento e seu sorriso. O próprio Lacerda não chegou. Tendo morrido misteriosamente em 1977, o maior orador de todos os tempos não assistiu à posse de Figueiredo.

Em 1966, Carlos Lacerda e Hélio Fernandes aproximaram-se novamente em torno da Frente Ampla, movimento de redemocratizaçao que reuniu JK e Jango em torno do retorno democrático do País. A Frente Ampla viveu pouco. Em dezembro de 68, Costa e Silva, prisioneiro dos militares radicais, edita o Ato Institucional número 5. Helio Fernandes e Carlos Lacerda são presos juntos no quartel da Polícia Militar da Rua Salvador de Sá. São estas as ruas da vida profissional dos dois proprietários desta folha.

Nenhum órgão de imprensa sofreu o que a “Tribuna” sofreu, sobretudo em prejuízo econômico. Venceu em todas as instâncias judiciais. O jornal espera pela indenização da União, responsável histórica, até hoje. Pagam-se pensões duvidosas a falsos perseguidos. Não se indeniza a “Tribuna da Imprensa”. Deixo este tema para o presidente Luís Inácio Lula da Silva. E esta página para a história do Brasil.

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