20
jun2018

Vácuo na liderança

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filósofo e ativista político espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) escreveu em sua célebre obra “A Rebelião das Massas” algo que bem se ajusta aos dias de hoje, em nosso País. “O Estado é, em definitivo, o estado da opinião: uma situação de equilíbrio, de estática. O que sucede é que às vezes a opinião pública não existe. Uma sociedade dividida em grupos discrepantes, cuja força de opinião fica reciprocamente anulada, não dá lugar a que se constitua um mando. E como a Natureza tem horror ao vácuo, esse oco que deixa a força ausente de opinião pública enche-se com a força bruta”.

Sim, a Natureza tem horror a vácuo, como disse Aristóteles. E qualquer porção de matéria retirada é logo ocupada por outra. O poder também padece do mesmo efeito. Há quem diga que Napoleão se tornou imperador porque o vazio da França recém-transformada em República encontrou nele o líder que faltava para conter os levantes.

Nas últimas semanas do mês de maio assistimos a mais uma paralisação dos caminhoneiros que mobilizou todo o Brasil. Não foi apenas “mais uma”. Foi, muito provavelmente, a pior de todas, se compararmos com movimentos semelhantes que ocorreram com frequência na década de 1980. Deixou como saldo um prejuízo estimado em R$ 75 bilhões, valor que deverá aumentar no decorrer da contabilidade dos próximos meses, a ser feita por todos os setores afetados. Sim, é justo reconhecer que a categoria conseguiu alcançar respostas satisfatórias a boa parte de seus reclamos. Mas é igualmente sensato ponderar que não precisávamos ter chegado a este extremo.

E por isso falo sobre vácuo de liderança, um reflexo percebido no desencontro de pleitos que solicitavam desde a redução no preço do diesel até, pasmem, a intervenção militar. A questão é que se nos vemos diante da supracitada “sociedade dividida”, as forças se anulam, cria-se o vácuo.

E por isso citei Napoleão.

Depois da Revolução Francesa, em 1789, surgiu uma República que, efetivamente, galvanizou a população. A França foi atacada por vários países que, por motivos políticos diversos, queriam destruir aquela “monstruosidade”. O povo francês protegeu as fronteiras e as ultrapassou. Mas, internamente, a administração do país era medíocre. Facções políticas republicanas disputavam o poder e aquela que o obtinha, literalmente cortava a cabeça dos vencidos, para logo em seguida perder a sua própria cabeça.

Na França, o jovem Bonaparte, totalmente desconhecido e sem qualquer cargo político, mas com uma patente de general, derrotou um levante monarquista em Paris. Em seguida, de forma brilhante, derrotou os austríacos, trazendo um alívio enorme à sociedade francesa. Assim, com a propaganda que ele conseguiu fazer de si mesmo, ele derrubou o Diretório, extremamente desacreditado perante a sociedade, e assumiu o “consulado”. Depois, fez-se imperador.

Esta fórmula foi constatada em vários casos similares ao longo da história. Líderes militares que, trazendo paz à sociedade, tornam-se presidentes com poderes especiais e até ditadores. Charles De Gaule e Oliver Cromwell são dois exemplos indiscutíveis. Outros são mais sutis, como George Washington. Alguns chamam isso de “bonapartismo”, o modelo de governo no qual o Legislativo perde espaço para um Executivo centrado em uma figura populista, embora este termo tenha também outros significados.

No Brasil de hoje também estamos “cortando a cabeça” de uma inadequada ordem estabelecida – leia-se, a ­estrutura de poder contaminada até os ossos pela corrupção.

Acredito que não queremos ver surgir um espírito “bonapartista”, seja lá o formato que tiver. Acredito que os cidadãos brasileiros querem ver o País tomar o rumo do bom equilíbrio, sendo mantida sua estrutura democrática.

Daí a importância da promoção de debates que o IJC tem promovido. Os mais recentes merecem destaque nesta edição.

Leiam, reflitam, ponderem.

É necessário, mais do que nunca.

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