Viver morrendo

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“Deixa-me morrer às mãos dos meus pensamentos, e à força das minhas desgraças, eu, Sancho nasci para viver morrendo, tu para morrer comendo.

” Don Quixote de La Mancha cap. LIX, Miguel de Cervantes.

Dificilmente se encontrará em qualquer texto da literatura ocidental uma frase que se aplique com tanta propriedade a realidade nordestina, como essa, de Cervantes. E assim que vive o homem do campo, nordestino, chapéu de palha e enxada no ombro. Tem algo de quixotesco nisso tudo. Dai a citação: “Nasci para viver morrendo, tu para morrer comendo.” Ter inveja de quem come, parece ironia. Fome: nenhuma palavra e mais associada a região Nordeste do Brasil do que essa. Do brilhante da coroa de D. Pedro II, não empenhada em 1877, na mais brutal seca da história do pais, já se vão quase seis gerações. Naquele ano, praticamente metade da população do Estado do Ceara morreu de sede, fome e em conseqüência de epidemias. E inacreditável que 130 anos depois, no século XXI as mesmas coisas estejam acontecendo.

Vontade política e o que falta para solucionar o problema. Mas será que é isso mesmo? Foi ainda no Império que se deu a primeira atitude digna de nota para o combate a seca no Nordeste. A construção do açude do Cedro, na cidade de Quixadá, o marco de uma política que iria se consolidar por mais de um século: A açudagem. Muitos outros açudes foram se seguindo, mas o problema não minorava. A estiagem continuava ceifando vidas. Cansado de tudo isso, em 1908, no Governo de Afonso Pena, tomou-se uma atitude no mínimo hilária: transportar a população cearense para outros Estados da federação. O Ceará viraria um imenso deserto, deixaria de existir. Mas o povo se revoltou, e a classe política não aceitou, procurando-se outra solução, sem tirar ninguém do seu canto. Então, em 1909, criou-se o IFOCS, embrião do atual DNOCS, hoje em processo de extinção. E outros órgãos foram sendo criados, com o mesmo intuito de desenvolver a região Nordeste. Na década de 50 vieram o Banco do Nordeste do Brasil e a Companhia Hidrelétrica do São Francisco. Na Década de 60 a SUDENE, os Bancos Estaduais e os Bancos de Desenvolvimento, um em cada Estado. Bilhões e bilhões de dólares foram gastos. Mas o problema persistia.

“Viver Morrendo.” A única saída para o nordestino foi essa: emigrar para a Amazônia, e para o Sudeste brasileiro. Fugir da fome era o que importava. O sofrimento que o nordestino passou nos seringais da Amazônia, é uma história que ainda não foi contada direito. Celso Furtado fala, rapidamente, em seus livros, das péssimas condições a que eles eram submetidos durante o cicio da borracha… Isolados, famintos, com febre amarela, malaria, longe da família, submetidos a um regime de servidão; suas condições de vida eram bem piores agora. 0 emigrante europeu que veio construir a São Paulo cafeeira e a pecuária sulista, tiveram um tratamento oposto ao deles. Recebiam casa, alimentação, salários, terra para plantar e outras comodidades. O nordestino recebia apenas a passagem de ida, que seria descontada durante sua permanência. Os víveres também eram comprados do patrão. Não e precise dizer que os senhores nunca deixavam a divida terminar. O tempo vai passando e a realidade não muda. Estiagem e sinônimo de emigração. Estava caracterizado o êxodo rural nordestino. Como consequência, na década de 30, surgem as primeiras favelas brasileiras, inchando as capitais e as cidades. Massas de nordestinos famintos abandonam seus lares, suas plantações e saem a procura da sorte na cidade grande. Começava a desruralização do Nordeste. A população do Ceará, foi a que mais sofreu com o fenômeno, já que era a mais pobre da região. Só para se ter uma idéia, entre 1950 e 1960, a população de Fortaleza dobrou de tamanho. Nessa década sua população cresceu 91%. Dificilmente se encontrara um índice mais elevado do que esse, no pais, em contingências semelhantes. Só para comparar, João Pessoa, sua parceira em pobreza, leve um índice de crescimento de 30%. As consequencias desse crescimento desordenado, hoje já são bastante conhecidas: desemprego, falta de moradias, violência, prostituição infantil e outras mazelas. Nossas cidades se tornaram imensos barris de pólvora. Todos os dias esses pequenos barris explodem. O problema da periferia de nossas cidades formada pelos emigrantes da zona rural, são de longe a nossa maior chaga. Tudo decorrente de políticas públicas equivocadas, de quase descaso com esse povo tão sofrido.

‘Viver Morrendo”. O objetivo aqui é mostrar a falta de uma política governamental para fixar o homem no campo. E com isso, óbvio evitar também o crescimento estúpido das cidades. Tudo isso contribui para a degradação e o empobrecimento da região Nordeste. E inacreditável, mas nesses últimos 50 anos o PIB nordestino só decaiu, aumentando a disparidade regional. Em 1939 o Nordeste participava com 30% do PIB brasileiro. Em 1955 caiu para apenas 13,5%. Hoje é de apenas 12,9%. Parece que ninguém consegue enxergar essa realidade, o Nordeste continua se distanciando do restante do pais. Fala-se, por exemplo, de uma ilha de prosperidade em relação ao Ceará. Mas como? Se temos 48% de sua população adulta incapaz de escrever um bilhete de quatro linhas. Se no Município de Solonópole morrem 200 crianças por 1.000 nascidas vivas. Se 85% da população cearense ganha ate 150 dólares mensais, e apenas 3% de toda população adulta ganha mais de 1 ,000 dólares mensais. E o fosso não esta diminuindo com o tempo. Os índices acima são do próprio Governo do Estado do Ceara. É triste saber que quem esta mantendo o homem na zona rural são as aposentadorias e pensões do INSS. Ou seja o Governo Federal tem total conhecimento de que a economia sertaneja e de subsistência. É a mesma situação vivida no nordeste colonial de economia escravocrata e da monocultura da cana-de-açúcar.

“Viver Morrendo”. A tão propalada industrialização do Nordeste que a transformaria em oásis, não tem se confirmado. É só olharmos ao nosso redor. Neste ano de 2001, que está sendo apontado como o da pior seca dos últimos 70 anos, a velha história se repete. Saques, invasões, êxodo. Grande parte dos municípios estão em estado de calamidade publica. Desde o fim de janeiro que essa situação foi constatada. As cenas nos jornais, televisão, na imprensa em geral já são lugar comum, como uma novela. Famílias inteiras de sete, oito pessoas morando em casas de barro batido, bebendo água barrenta, sem feijão, esperando pelo Padre Cícero, pelos carros pipas e pela cesta básica que não chega. É incrível que mesmo após oito meses de constatada a situação de emergência, somente agora chegam as primeiras cestas de alimentos. Parece burocracia de país de economia planificada. E mais, estas cestas contém alimento suficiente para manter uma família de três pessoas com uma ração mínima, que possa apenas mantê-los vivos. Essa lógica perversa interessa a quem? Como ‘tiver no sertão, morrendo de fome?

O que tira o homem do campo é a falta de atitudes não muito complexas, que se implementadas evitariam  êxodo rural. Vamos ser realistas, nós não temos uma política agrícola, A agricultura está fora dos projetos dos governos. Nossa vocação agrícola foi esquecida e os Estados apostaram tudo na industrialização enquanto não priorizarmos a agricultura como principal atividade das zonas rurais que é a vacação do sertanejo, não dotarmos o sertão de infra­estrutura médico-hospitalar e educacional, o problema continuará. Dizer que nos últimos vinte anos a mortalidade infantil caiu para termos aceitáveis, e esquecer o quanto a taxa de fecundidade também caiu. O matuto deslocado do seu roçado, das suas raízes, encontra um inferno de Dante na favela. Seu destino é a marginalidade. A quem interessa essa situação? Esforços foram realizados, mas este estado de coisas não tem mudado. Viver assim e ficar preso ao destino de Quixote, mas sem a imaginação do Don: “Deixa-me morrer às mãos dos meus pensamentos, e a força das minhas desgraças”, continua bradando o nordestino.

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