A questão agrária e o boné do MST

5 de agosto de 2003

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Pela voz de Julieta, Shakespeare nos pergunta sobre o significado de um nome. Afinal, o que é um nome, o que vale para a adolescente enamorada, o nome da família adversária, diante da paixão que o jovem Romeu lhe desperta? Qual a razão de afastar-se dele, de repudiá-lo, aquele jovem de carne e osso, apenas por ter o nome inimigo? Os nomes Montecchio e Capuleto significavam ódio e horror. Eles se dizimavam em Verona, apesar das ordens pacificadoras do duque reinante; o antagonismo entre as famílias culmina na tragédia que inspira ao bardo obra imortal E no entre texto da poesia elizabetana, permanece a pergunta que atravessa os séculos: afinal, o que é um nome?

E portanto, o que é um boné e o nome que ostenta? Quantos bonés existem, como os mais variados e estranhos nomes e que tipo de crime se comete por colocar um deles na cabeça? Dir-se-á que o boné do Movimento dos Sem-Terra é o símbolo de um movimento rebelde, que desafia a ordem e legislação vigente. Um movimento que não respeita a propriedade e é acusado de saques e tomar pessoas como reféns. E que no atual Governo intensificou suas ações para criar um clima de confronto armado com os ruralistas, e assim levar suas ações as últimas conseqüências.

Pode-se até concordar, em parte, com um colunista de oposição ao Governo, segundo o qual o presidente da Republica talvez não tenha se dado conta da gravidade e das previsíveis conseqüências do seu ato. “O que, para ele, não foi mais do que um gesto fortuito e espontâneo, na verdade chocou profundamente a sociedade brasileira, escreveu em “o Estado de S. Paulo” João Mellão Neto.

O colunista tem razão ao dizer que ao colocar o boné com o nome do MST o presidente fez um gesto “fortuito e espontâneo.” Esqueceu-se de dizer que além de ter sido “fortuito e espontâneo” tudo aconteceu quando estava rodeado por um grupo de pessoas com as quais sempre teve boas relações e cujo programa básico, terra para quem quer cultivá-la, apóia e sustenta. Quanto a chocar profundamente a sociedade brasileira, fica por conta da opinião do líder ruralista.

É claro que o presidente da república não pode – e não o fez, ao colocar o boné com sigla MST – dar sustentação a movimentos ilegais, fora da lei ou condenado pela justiça. Não é o caso do MST, condenado apenas por uma parte da mídia, que desconhece a ação social do Movimento, na educação de crianças e jovens – premiado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade –, na conscientização de cada integrante de seus direitos de cidadão e na preparação do trabalhador para a lavoura e na alimenta<;ao e abrigo de milhares de pessoas, sem teto e sem comida, que vagam por este Brasil.

Ao abordar o problema do MST, a mídia destaca quase sempre as invasões de terras improdutivas, resultado desesperado da ação de homens e mulheres vítimas da política fundiária desastrosa que o Brasil pratica há séculos. E na condenação do movimento, os ruralistas que mecanizaram suas lavouras extensiva e despediram milhares, apresentam o resultado das exportações como vitória, quando o produzido, em vez de alimentar os brasileiros alimenta as burras das multinacionais exportadoras.

A questão agrária no Brasil não pode ser reduzida a discussão sobre o gesto “fortuito e espontâneo” do presidente ao colocar na cabeça um boné do MST. Este flagrante, reproduzido ad nauseam, representa apenas urna lembrança de que o problema existe e exige soluções sérias. E não apenas palavras condenatórias de quem está mais interessado em criar conflitos do que levar a paz ao campo.

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