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Beijo Lamourette

23 de maio de 2013

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Um amigo de longa data, em conversa recente, registrava a desfaçatez com que certos políticos brasileiros se comportam, desrespeitando e afrontando as mais comezinhas regras de compostura pessoal. Recordava ele o aperto de mãos, os abraços que eram trocados entre os adversários de ontem, a ponto de um chamar ao outro de ladrão, assaltante dos cofres públicos, e, agora, prestarem juras de fidelidade
recíproca nas futuras eleições.

O mais grave – apontava ele – é que tais acontecimentos não tinham como protagonistas políticos de 2a classe e sim do mais alto nível, envolvendo presidente, ex-presidente, governadores e ex-governadores, senadores, prefeitos e ex-prefeitos, num verdadeiro desprezo aos correligionários de ontem, os quais tinham cortado as relações amistosas com os vizinhos na defesa do seu candidato. E eles, os novos e convenientes aliados – numa amnésia moral sem adjetivação – eram só sorrisos, defendendo os interesses pessoais recíprocos como a bússola eleitoral que os orientará no futuro próximo. E concluía: indisfarçáveis sacripantas.

Lembrei a esse amigo da vida inteira a figura do Abade Lamourette, sacerdote evoluído, que conseguira eleger-se deputado à Assembleia Nacional da França, logo após a Revolução Francesa.

Com a queda da Monarquia – época em que era Vigário-Geral em Arrás – e após a sua eleição àquela Assembleia – nitidamente composta de revolucionários – traçou ele o seu desempenho legislativo como figura conciliadora, alcançando posição de destaque entre os seus pares, a tal ponto que, certo dia, ao proferir um discurso intensamente enfático concluiu a sua peroração conclamando todos os seus colegas ali presentes à concórdia, à paz, o que acabou por conseguir que todos se abraçassem e trocassem beijos fraternais.

Todavia, essa euforia inesperada durou apenas 48 horas. O que é pior, as desavenças, as hostilidades, os desencontros, recomeçaram mais terríveis do que outrora, resultando daí o significado que passou a ter o chamado Beijo Lamourette: toda a aproximação ou reconciliação entre inimigos ou adversários declarados acabará por se transformar em composição transitória, efêmera, que os ódios anteriores acabam por tornar letra morta.

Paradoxalmente, o próprio Abade Lamourette, envolvido por esse inafastável ódio e pelas desavenças, acabou sendo executado na guilhotina, em 1794.

Por certo, a guilhotina nos tempos atuais é o voto do eleitor.

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