Cervantes – Don Quijote de la Mancha. 400 anos de paixão

5 de agosto de 2005

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Pronunciamento do desembargador Paulo Roberto Leite Ventura, Diretor-Geral da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro – EMERJ, no dia 05 de julho de 2005, por ocasião da abertura do simpósio comemorativo a Dom Quixote de La Mancha – 400 anos de paixão.

O clássico “Don Quijote de la Mancha”, de Miguel de Cervantes Saavedra, ao longo dos seus quatrocentos anos, foi elevado à categoria de excelência pela crítica literária, a par de ter sido considerado pelo público como o livro mais divertido de todos os tempos, tanto que há duzentos e vinte e cinco anos passados, desde 1780, a Real Academia Espanhola publicou memorável edição de Quixote, impressa por Don Joaquim de Ibarra.

Antes de mais nada, “Don Quijote de la Mancha”, esta imortal obra de Cervantes, retrata, na sua essência, a forte e marcante imagem de um fidalgo cinqüentão dentro de uma armadura anacrônica, tão esquelético como seu cavalo, acompanhado sempre por um camponês, grosseiro e gordalhão, montado em um asno.

Quem já leu Quixote, percebeu que o tema da obra reside em uma grande ficção, aliás, verdadeira razão de ser da própria obra. Isto porque o fidalgo manchego, que é o seu protagonista central, transtornado pelas fantasias do livro de cavalaria e crendo que o mundo é como as novelas dizem, se lança então a viver aventuras exageradas e exuberantes, frutos dos seus sonhos, criando pequenas catástrofes das quais não obtém nenhuma lição de realidade. A ficção, então, se vai misturando com a realidade e fazendo daquelas fantasias um fato concreto.

Até o próprio Sancho Pança, quem, nos primeiros capítulos, se mostra extremamente realista e materialista, aos poucos se deixa envolver pelas fascinantes fantasias de Dom Quixote, entrando efetivamente naquele mundo de pura ilusão.

“Don Quijote de la Mancha” é um clássico da literatura que mostra, com muita evidência, que a ficção na vida imaginária e dos sonhos está em todos os lugares, por todas as partes, até mesmo no ar que os personagens respiram.

Ao mesmo tempo em que o clássico encerra uma grande ficção, o Quixote é, na verdade, um canto à liberdade. Vale lembrar a famosa frase dita por Quixote a Sancho Pança:

“A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que aos homens deram os céus; com ela não podem se igualar os tesouros que encerram a terra e o mar cobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e se deve aventurar a vida, e, pelo contrário, o cativeiro e o maior mal que pode acontecer para os homens”.

A idéia que D. Quixote tem da liberdade é a mesma que, a partir do século XVIII, tiveram na Europa os chamados liberais: a liberdade, segundo Quixote, é a soberania que tem um indivíduo para decidir sua vida sem pressão ou restrições, em função exclusiva da sua inteligência e vontade.

Em verdade, o que D. Quixote buscava era libertar seu próprio espírito, tanto que o clássico livro está repleto de episódios contendo uma visão individualista e uma concepção própria de justiça, pautada pelo caminho da moral.

O livro aborda, ainda, as pátrias de Quixote, dando Cervantes uma imagem de uma Espanha sem fronteiras geográficas, constituída por um arquipélago de comunidades, aldeias e povos que chamou de pátrias, as quais, ao longo do tempo, vão adquirindo uma idéia de união; fazendo crescer, assim, uma nação, pregando uma ideologia coletiva, identificando os indivíduos como patriotas na medida em que ressalta que o patriotismo é um sentimento generoso e positivo de amor, que não permite fronteiras e é capaz de acolher e ajudar qualquer um, indiferentemente da sua raça ou religião.

“Don Quijote de la Mancha” é, apesar do tempo, um livro sempre moderno. Tal modernidade se reflete na responsabilidade que o personagem Quixote assume para tornar o mundo melhor, embora se equivocasse ao implementar suas idéias de grande sonhador.

Saudação do Desembargador PAULO ROBERTO LEITE VENTURA, Diretor-Geral da EMERJ, ao Sr. Dr. Professor FRANCISCO RAMOS MÉNDEZ, Catedrático de Direito Processual da Universidade Pompeu Fabra, Barcelona, Espanha, quando, no dia 27 de julho de 2005, encerrou o ciclo de palestras DOM QUIXOTE – 400 ANOS DE PAIXÃO.

Como Diretor da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro, onde os juízes acompanham a sistemática evolução do direito em todas as variações, neste momento histórico, quando muitos países do mundo celebram os quatrocentos anos do Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, embora não tenhamos nenhuma notícia direta sobre o autógrafo que Cervantes imprimiu em sua primeira redação completa, queremos saudar muito especialmente o Sr. Dr. Professor Francisco Ramos Méndez, advogado e catedrático de Direito Processual da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, Espanha, que veio até a nossa Escola para nos dar uma aula magnífica, falando sobre a marcante influência de Dom Quixote na Justiça.

É verdade, Senhor Professor, que ao mesmo tempo em que este livro fantástico, estudado e analisado de todos os pontos de vista possíveis, não representa somente a ficção, Quixote, na verdade, é um canto à liberdade, a mesma liberdade que, a partir do século XVIII adotaram na Europa os chamados liberais: a liberdade, para Quixote, é a soberania de um indivíduo para decidir sua vida sem pressões nem condições, em função de sua inteligência e vontade, exclusivamente. Ou seja, o que vários séculos mais tarde, Isaías Berlin definiria como “liberdade negativa”, a de estar livre de interferências e coações para pensar, se expressar e atuar.

Quixote sustentava a idéia de que o fundamento da liberdade é a propriedade privada, e que o verdadeiro prazer só é completo se, ao aproveitá-lo, uma pessoa não vê recortada a sua capacidade de iniciativa, sua liberdade de pensar e atuar.

Quixote não crê que a Justiça, a ordem social, o progresso, sejam funções das autoridades, mas trabalho de indivíduos que, como seus modelos, os cavaleiros andantes, e ele mesmo, se encarregaram da tarefa de fazer mais justo, livre e próspero o mundo em que vivem. Quixote disse que as autoridades, quando aparecem, em vez de facilitarem a sua tarefa, a dificultam.

Pela sua participação intelectual neste seminário, que durante todo este mês nossa Escola viveu intensamente O Quixote, receba nosso afetuoso abraço e nosso reconhecimento por sua notável cultura e simpatia.

Muito Obrigado.

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