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Cervantes o criador do romance

5 de fevereiro de 2005

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Há 400 anos Portugal e Brasil pertenciam à Espanha. Com a morte de D. Sebastião em Alcacer-Kibir e a subida do cardeal D. Henrique ao trono de Portugal, um dos herdeiros passou a ser Felipe II de Espanha, que, afastando outro herdeiro – D. Antonio, do Crato -, passa a ser o soberano de Espanha, Portugal, Brasil e toda a América Latina. Nessa época, em janeiro de 1605, sai em Madri o livro de Dom Miguel de Cervantes Saavedra, Don Quijote de la Mancha.

Estava ele então com 57 anos. Passara por inúmeras aventuras e dificuldades. Apesar da infância pobre, fez amizade com os letrados de sua terra e, aos 22 anos, foi para a Itália como camareiro. Estava-se em plena Renascença, os italianos da época eram Ariosto, Maquiavel, Aretino, Tasso, Cellini, Tintoreto, Leonardo da Vinci. No meio de tudo isso, Cervantes alistou-se nas tropas do papa que combateriam contra os infiéis. Ferido na Batalha de Lepanto, tornou-se herói elogiado por D. Juan da Áustria. Juntamente com seu irmão Rodrigo, ele regressa à Espanha no navio Sol, que é atacado pelos turcos, que levam Cervantes, seu irmão e os outros soldados pontifícios como prisioneiros.

Foram cinco anos de trabalhos forçados e torturas, depois dos quais houve o resgate conseguido pela família de Cervantes, que liberta os dois irmãos. Cervantes chega de volta à Espanha aos 33 anos. É então enviado a Portugal com parte das tropas espanholas ali sediadas. Mas logo viu que, para ele, a carreira militar não dava. Felipe II quer vingar-se da Inglaterra por ter levado à morte a rainha católica da Escócia, Mary Stuart, e prepara uma frota de 60 navios com 22 mil soldados para invadir a Inglaterra. O confronto poderia ter acontecido se a frota espanhola não acabasse destroçada por uma tempestade que dispersou todos os navios.

Imagine-se hoje a situação. Do lado de cá, trabalhando agora no setor de alimentos para os soldados da Invencível Armada, estava Cervantes. No lado de lá, trabalhando como ator e autor em Londres, achava-se Shakespeare. Os dois maiores escritores de uma época, em países de temperamentos diferentes, idiomas diversos, mas representando ambos um movimento cultural que, tendo começado na Grécia e no Oriente Próximo em geral, já produzira um grande poema, Os Lusíadas, de Camões, publicado em 1572. Tal movimento chegava então aos países que se expandiram primeiro pelo Atlântico – e criariam os países que hoje são os nossos – e pelo Índico e Pacífico, indo encontrar-se com civilizações mais antigas: Índia, Japão, China.

Com Dom Quixote, criou Cervantes o romance contemporâneo. Com ele e com outro extraordinário livro seu, Novelas exemplares, deu início a toda a ficção dos últimos séculos. De Dom Quixote até hoje, até o mais recente livro de contar histórias à moda cervantina, foi todo um desenvolvimento do uso da palavra para colocar o ser humano – comum e incomum – em contato com os caminhos da vida, os amores e ódios, a fome cotidiana de comida e de compreensão, a sede insaciável de conhecimento, de realizações e de preservação das memórias que são a base de cada avanço.

Ler e reler agora Dom Quixote é pegar na fonte mesma de um gênero literário que há quatro séculos nos empolga. Toda a paisagem social da Espanha aparece em Cervantes. E a Inglaterra, diante desse exemplo de um novo gênero, andou às voltas de si mesma, em busca de seus romances, com Smollett, Fielding e Sterne, conseguindo erguer o tecido social do país e colocá-lo em narrativas. Fielding obtém êxito – bem depois, em 1742 – com os seus Quixotes e Sancho, isto é, com o seu História das aventuras de Joseph Andrews e de seu amigo Abraham Adams. Aí se acham o Quixote e o Sancho da Inglaterra.

Tendo publicado apenas a primeira parte de Dom Quixote em 1605, só dez anos mais tarde Cervantes completaria o trabalho e lançaria o final de sua história. Numa curiosa coincidência, sempre se acreditou que Cervantes e Shakespeare teriam morrido no mesmo dia: 23 de abril de 1616. Há contudo, a opinião de que os dois países, Espanha e Inglaterra, diversos sob tantos aspectos, também passaram algum tempo ligados a calendários díspares e que as datas podem não ser as mesmas.

Vale a pena terminar esta celebração de ‘’Dom Quixotes’’ com a frase de Azorín, citada por Brito Broca em ensaio sobre o assunto. Esta: ‘’O Dom Quixote não foi escrito por Cervantes; escreveu-o a posteridade’’.

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