Entrar

Esqueci minha senha

Cadastro


Laurita Vaz: a primeira presidente mulher do STJ

Edição nº

193

01 de setembro de 2016

Laurita Vaz: a primeira presidente mulher do STJ

Orpheu, meu pai! Essa era sua foto predileta, ele usava para tudo, até para a carteira de identidade. Algumas vezes, inclusive nas cerimônias do Troféu Dom Quixote, falei sobre a grande admiração que tenho pelo meu pai. Além de amigo, confidente e conselheiro ele sempre foi o meu herói. Em todas as batalhas que enfrentava, em todas as adversidades que a vida nos impunha, ele sempre se manteve forte. Foi preso, passou pela solitária, foi privado do convívio com os amigos e familiares, constrangimentos diversos, sempre por acreditar na democracia ou por defender os seus amigos. Durante os últimos 18 anos que trabalhamos juntos passamos por muitos problemas, mas ele sempre me ensinou a ter calma e olhar para frente, acreditar no futuro e ter esperança. Desde a infância escutava que sua maior vontade era chegar aos anos 2010. Sua vontade era tanta que até Deus apareceu em seus sonhos para dizer que ele conseguiria, desde que maneirasse na comida e na bebida (essa parte ele não entendeu muito bem), mas Deus cumpriu sua palavra e deu-lhe, inclusive, uma prorrogação. Durante os últimos meses estávamos trabalhando em sua biografia, que já se encontra no prelo. Era muito gostoso relembrar suas histórias e memórias, foram momentos que jamais esquecerei. De tantas histórias, uma o define bem. Certa vez, durante um interrogatório no DOPS, um tenente o chamou de Agitador Comunista e escutou a seguinte resposta: “Alto lá, senhor, comunista não, sou Getulista e defendo os direitos dos trabalhadores, mas agitador eu serei sempre.” Orpheu era um agitador sem igual, estava sempre inventado moda. Muitas vezes eu tinha que intervir. Brigávamos pela manhã, mas ele fazia questão de me chamar para almoçarmos juntos logo depois. Com diz nosso amigo Luis Felipe Salomão, era uma dessas pessoas que não existem mais. Uma generosidade inigualável, dividia tudo o que tinha e se não tivesse para dividir procuraria alguém que pudesse ajudá-lo a dividir o que não tinha. Certa vez, um pouco abatido com a situação que estava vivendo no período da ditadura, viajando do Rio para São Paulo, parou na Catedral de Aparecida do Norte e procurou o Bispo para pedir-lhe um conselho. Disse que não estava mais suportando as perseguições e que não sabia mais o que fazer. Recebeu um conselho que seguiu durante toda a vida: “Orpheu, você é um desses homens que deve seguir a vida como uma vela, iluminando o caminho e queimando de pé até o fim.” Ele iluminou nosso caminho e ficou de pé até seu ultimo momento. Agora o céu não ganhará só uma estrela, ganhará um sol enorme! Pai, pelo seu exemplo, pela sua postura e pela sua bravura será sempre a luz que irei seguir, será sempre meu norte, meu eterno timoneiro! Orpheu viverá para sempre em nossos corações!   Tiago Salles Editor-Executivo