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Podemos ser duros e elegantes

Edição nº

147

05 de novembro de 2012

Podemos ser duros e elegantes

Equivocam-se todos aqueles que imaginam que foi a imprensa que motivou e forçou o julgamento do Mensalão, resultando  na condenação dos acusados pelos crimes que praticaram contra a administração pública. Se tal fosse, teríamos de abdicar do Estado de Direito que vivenciamos. Seria desconhecer a existência plena e livre da atividade e do funcionamento dos Três Poderes da República: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. É indiscutível, entretanto, que existem profundas mazelas nos três entes públicos que fazem a população, às vezes, descrer dessas Instituições e de seus membros. Os fatos negativos que acontecem cotidianamente, praticados por políticos e detentores de cargos públicos, quando levados ao conhecimento da sociedade pela imprensa dão motivo à generalizada descrença. O mal vem de antanho, de longa data, com a feitura de crimes de todos os jaezes e modalidades, conhecidos hoje como crime do colarinho branco, praticados desde então em desfavor do interesse público pela rapinagem de políticos desclassificados, que se locupletam com as torpezas que engendram. O escândalo do chamado Mensalão, que explodiu em Brasília na Câmara dos Deputados, expondo as vísceras putrefatas de bandidos trasvestidos de congressistas em conluio com banqueiros e empresários de publicidade, deu margem a que o então Procurador Geral da República, Antônio Fernando Souza, denunciasse perante o Supremo Tribunal Federal a corja de 37 criminosos, cujo indiciamento foi aceito por unanimidade pelos ministros da Corte. Coube ao ministro Joaquim Barbosa a relatoria do processo, e Sua Excelência, acompanhando a incisiva e contundente denúncia do Procurador Antônio Fernando – reiterada ainda com mais ênfase pela rigidez da sustentação oral, perante o Plenário do Supremo, pelo Procurador Roberto Gurgel –, justificou com provas inquestionáveis os crimes de corrupção passiva e formação de quadrilha pela cúpula do PT da época da campanha de Lula (2002) até a eclosão do escândalo (2005), resultando na condenação de 25 e absolvição de 12 dos denunciados. A condução do processo pelo ministro Joaquim Barbosa, relatando com   veemência a acusação escrita e produzida oralmente perante a Corte – inclusive os acalorados debates que travou com o ministro Lewandowski – na condição de Revisor, promovendo um salutar contraditório e agindo com autonomia, se coaduna com o pensamento do atual Presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Ayres Brito, que afirma que todos os magistrados devem julgar “com equidistância e desassombro, sem medo, sem receio de desagradar quem quer que seja”. As divergências havidas na Ação Penal 470 entre os ministros é salutar e expressa a complexidade das decisões a serem tomadas, para as quais é natural, e até desejável, que haja altercações. O embate de posições estabelece a tomada de opinião e torna preferível a tensão dos confrontos  que a paz dos cemitérios. A acusação que os condenados fazem contra a imprensa pelos noticiários jornalísticos que divulgaram as bandidagens cometidas contra a administração pública não procede. Inadmissível o questionamento ao destaque que a imprensa deu à brilhante atuação e ao destemor acusatório do ministro Joaquim Barbosa, que, indiscutivelmente, se tornou uma figura legendária e popular, registro fiel dos sensíveis radares dos leitores. Os  réus julgados pelo Supremo Tribunal Federal, podem continuar fazendo absurdas declarações de inocência, desmentidas por uma quantidade espantosa de substanciais provas. Podem até, como vem fazendo, manifestar desprezo pelas instituições da República. Até  o ex-presidente Lula, com sua lamentável declaração de que o povo não está interessado no Mensalão, mas nas disputas futebolistas, pode corresponder ao atual estágio da consciência política de grandes parcelas da sociedade, mas se ele assim pensa, está muito enganado; ao contrário: o julgamento do Mensalão vai propiciar um basta ao pragmatismo aético que tanto mal tem feito ao Brasil. A imprensa tem cumprido o seu papel de denúncia e de cobrança, como sempre. Assim foi também com Fernando Collor, quando a imprensa denunciou as bandalheiras da Casa da Dinda e as trampolinagens do P. C. Farias. E assim será sempre para o futuro. Os inconformados com a democracia, apoiados por currais eleitorais comprados na barganha da permanente ignorância e, consequentemente, da falta de discernimento crítico, se manifestam contra a imprensa de qualidade e contra os formadores de opinião que não aceitam a troca do embuste  contra a verdade. Entretanto, em repúdio aos verdugos e às torpezas da maledicência e da mentira, o  jornalismo e a imprensa, felizmente e sem dúvida, continuarão divulgando a verdade e sendo o baluarte da liberdade e da democracia.