Um país prepotente

5 de novembro de 2003

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Quem lê a Constituição americana fica encantado com os princípios lá estabelecidos. Um texto de apenas sete artigos permanece há 216 anos regendo os destinos daquela grande nação. Somente 26 emendas foram promulgadas nestes mais de dois séculos. As 10 primeiras correspondem a 10 artigos de direitos fundamentais.

Os fundadores da pátria, todos de um idealismo indiscutível e de e de sólido conhecimento filosófico, deram aos Estados unidos formatação jurídica que ainda hoje provoca admiração.

Quem compara o que idealizaram os pais da pátria estadunidense para seu país, e para o mundo, com a mediocridade prepotente de seu atual limitado e inculto presidente, que destruiu uma nação árabe, a partir de mentiras convenientes e de falsas provas, por mera questão de vendeta paterna ou obsessão filial, resta estarrecido de como os ideais daqueles fantásticos pensadores foram enterrados por esse cowboy, eleito em duvidosas circunstâncias.

Li o livro de Sérgio D’Avila (documentário fotográfico) sobre o Iraque, antes e depois da destruição americana (Diário de Bagdá). É  doloroso verificar o que um presidente sem escrúpulos pode provocar, gerando uma universal antipatia a seu povo, que, se não fosse por ele, mereceria respeito e admiração das outras nações, pelo que fez na Segunda Guerra Mundial e pelo impulso que permitiu a recuperação da Europa, representado pelo Plano Marshall.

Não percebeu, o presidente Bush – hoje declarado inimigo das nações árabes – , que a presença americana no país que aniquilou, para “descobrir” inexistentes armas de destruição em massa ou supostas ligações com o terrorismo, é indesejada, já que, da mesma forma que os norte-americanos não gostariam de ter tropas iraquianas em seu território, os iraquianos não querem lá tropas norte-americanas. Mais do que isso, os valores e a cultura da civilização árabe são diferentes daqueles da nação norte-americana, razão pela qual é impossível enlata-los em modelo pré-fabricado nos ranchos do Texas.

Com o Brasil, o presidente americano não tem sido mais hábil. Não tolera a liderança brasileira. Por apresentar uma nação mais rica e mais forte, não admite oposições.

Quer a Alça livre para os produtos e serviços onde os Estados Unidos são competitivos e fechada para aqueles onde não o são. E, sabendo ser o Brasil metade da América Latina em nível de mercado e de tamanho, tudo faz para isola-lo, retaliando-o com a concessão de benesses e promessas sedutoras para os países menores, que poderiam ser aliados brasileiros. É tão aético – como já demonstrou ser nas eleições que ganhou, apesar de ter tido a menor número de votos que seu opositor, ou nos métodos condenáveis usados para produção de inverdades que não comoveram a ONU – na condução das negociações que chegou ( um de seus subordinados) a dizer que o Brasil os decepcionou por querer discutir, em uma “ Alça abrangente”, os escândalos subsídios agrícolas americanos e suas imorais sobretaxas, que incidem sobre produtos de países considerados “não colaboradores”.

Sem a ONU, e contra a decisão da ONU, invadiram o Iraque. Por defenderem o protecionismo medieval da agricultura americana, inviabilizaram a reunião de Cancun, com o apoio da união Européia, também ultraprotecionista no que  não é competitiva. Por não quererem abrir mão dos privilégios agropecuários, estão retaliando o Brasil e inviabilizando a Alça. E, como na fábula do lobo e do cordeiro, passam para o Brasil a responsabilidade do fracasso, dizendo que estão decepcionados em virtude de não nos submetermos ao “Senhor do Mundo”.

Convenço-me, por admirar a nação nação norte-americana, de que ela é muito maior do que seu minúsculo presidente. Tem ele, todavia, a força do cargo e de presidir 32% do PIB mundial e um imbatível Exercito montado com tecnologia muito superior a de todos os outros países. É, de rigor, o único país com armas de destruição em massa.

Desse embrião hitlerista, não deve o Brasil esperar senão tratamento corrosivo e cada vez mais deletério. Minha esperança é que os inúmeros interesses dos norte-americanos no Brasil, aqui legitimamente instalados, e a consciência da nação norte-americana não reconduzam o histriônico chefe para mais um mandato. Caso contrário, num mundo à deriva, o imprevisível presidente poderá complicar as alternativas de convergência e de paz de que o mundo está tão necessitado.

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