O encontro de muitos méritos

5 de março de 2005

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“Abençoada estrela guia/ traz do céu a luz menino/ em mensagem do Divino/ unir as raças pelo amor fraternizar…’’. Os versos do samba-enredo da Beija-Flor de Nilópolis, campeã do carnaval carioca deste ano, evocam episódios palpitantes da construção do Brasil Meridional.

Costumo afirmar que o Rio Grande do Sul é uma esquina de muitos encontros. Aqui ¬se encontram imigrantes de todas as raças, o planalto e o pampa, o verão escaldante e as neves do inverno, as areias do litoral e a vastidão das lagoas, a agricultura e a indústria, o couro e a lã, a carne e o churrasco, o homem e o cavalo. Aqui se encontraram os anseios nacionais por democracia e liberdade, e as lutas políticas pela República e pela Federação. E aqui também se cruzaram durante séculos, em duríssimas refregas, castelhanos e portugueses, índios e bandeirantes, envolvidos na tarefa de fixar as extremidades sulinas do Brasil. Dessa convergência surgiram uma cultura e um tipo humano peculiares.

O Rio Grande moderno é herdeiro dessa tradição construída com vincos tão profundos que resulta impossível não ser por ela envolvido. Fizeram-se gaúchos de alma e indumentária, assim como os índios e os portugueses, os negros, os alemães, os italianos, os poloneses e tantos outros que arribaram no Rio Grande nos dois últimos séculos, e permanecem gaúchos cultuando nossos costumes mesmo quando se espalham pelo interior do Brasil, na lida da terra e do gado.

Se a Revolução Farroupilha integra o restrito elenco das grandes epopéias da História Universal, não menos instigante foi a luta pelas fronteiras, literalmente marcadas a “pata de cavalo e ponta de lança’’, numa sucessão de confrontos nos quais se inscrevem as Missões Jesuíticas. Construídas por religiosos espanhóis e destruídas pelos bandeirantes, elas suscitaram longa guerra dos soldados do Continente do Rio Grande de São Pedro contra os índios de Sepé Tiarajú.

Os fatos e feitos cantados pela Beija-Flor no privilegiado palco da Sapucaí são exemplo de que a História, como disse alguém, acaba sendo o registro do que não pode ser evitado. E o Rio Grande do Sul moderno dá mais um dos muitos testemunhos de que confronto pode virar encontro, de que inimigos podem se tornar amigos, e de que as raças podem “fraternizar no amor’’. Os castelhanos de ontem são, hoje, nossos parceiros do Mercosul e o Rio Grande é o lugar onde brasileiros, argentinos, uruguaios e, um pouco adiante, os paraguaios, se encontram em laços familiares, fraternos e comerciais.

Quando a Beija-Flor entrou na avenida, marcando no compasso da bateria a marcha de milhares de pés de seus sambistas, o Rio Grande inteiro sabia que o maior espetáculo da terra estava descortinando ao mundo, como nunca antes, fatos memoráveis de nossa história: os choques de potências européias nos descampados do Novo Mundo. Mais uma vez, ali nas Missões, eles cobriram de sangue o solo gaúcho, em seu irrefreável destino de ser brasileiro.

As Ruínas de São Miguel passaram pela avenida como imagem daquela ‘’imensa catedral’’ edificada com o labor dos nativos. E eu me permito sugerir aos leitores, sob a emoção da vitória da Beija-Flor, que se deixem tomar pela mesma paixão que cruzou a Sapucaí e venham conhecer, no Rio Grande, o gigante de pedra que permanece como símbolo de um projeto que não se completou no seu tempo. De seu tempo restou uma cicatriz petrificada, cravada no solo do planalto missioneiro, registro de feitos hoje rememorados em fascinantes espetáculos de luz e som. Mas não se apagou da alma gaúcha o desejo que mobilizou seus construtores: um mundo novo, uma América solidária, harmônica, fraterna, que gradualmente construímos no convívio com nossos vizinhos de uma fronteira que hoje une muito mais do que separa.

Assim como o Rio Grande é aquela terra de muitos encontros a que me referi inicialmente, a Beija-Flor se uniu à alma gaúcha na Sapucaí. Foi um encontro de muitos méritos. Eles foram tantos e de tanta gente, que acabaram convergindo, de maneira irrefreável, para mais um encontro da escola de samba com o doce sabor da vitória.

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