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Viva Quixote!

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Descendentes dos romanos, espanhóis e portugueses – primos carnais – lançaram-se ao mar,  descobrindo o caminho das Índias, do Japão e conquistando a África e as Américas.

Na América do Sul, dividiram territórios em cumprimento ao Tratado das Tordesilhas.

As lutas do passado pertencem à  história.

O samba unido ao tango, às guaranias e ao bolero no Mercosul, consolidam o parentesco nobiliárquico que fez nascer o condado Portucalense do heroísmo nos campos de batalha.

A fraternidade imperante entre os sul-americanos tem, por certo, origem no DNA que forjou os tipos humanos tão bem retratados por Cervantes: os imortais Don Quixote de La Mancha e seu fiel escudeiro Sancho Pança.

No delírio de Afonso Quijano, o genial Cervantes criou a figura inconfundível do nobre cavaleiro de triste figura, realçando as contradições do ser, do querer ser e do dever ser nas brumas da loucura quixotesca e na lucidez do personagem às vésperas da morte e pintando, com cores firmes, as virtudes do altruísmo.

No drama vivido pela insânia delirante do cavaleiro, o culto permanente ao amor e às virtudes, contrastando com o riso realista motivado pelo ridículo das quiméricas aventuras contra os moinhos de vento.

Valorizando as virtudes humanas, objurgou Cervantes as injustiças do seu tempo, contra elas lançando o cavaleiro andante desornado, a combater irrefletidamente o mal.

O querer ser de Alonso Quijano, conduziu-o à crença de ser nobre, no Quixote.

E “do querer ser ao crer que já se é vai a distância do trágico ao cômico. É o passo entre o sublime e o ridículo”, como acentuou Ortega Y Gasset nas (Meditaciones Del Quijote”, pág. 153).

O heroísmo, a fé e o amor de Quixote estão presentes na alma espanhola e portuguesa.

O altruísmo, a altaneria e a nobreza do Quixote se juntaram ao pragmatismo fiel de Sancho, na forja onde se amalgamou o caráter dos descendentes das nobres linhagens que nasceram, vivem e constroem o presente e o futuro no continente sul-americano.

A verdade, senhores, é que temos em cada um de nós, impregnadas na alma, as virtudes do Quixote.

Pena que permaneçam firmes as injustiças, a maldade e o desamor entre os homens.

Prolifera a violência, sucedem-se as guerras, disseminam-se os vícios. Ampliam-se as carências do homem distanciado do ser e esquecido do dever ser. Vive-se o egoísmo exacerbado, com a propaganda incessante do ter, do consumir.

As guerras de conquista, mal disfarçadas em anúncios de nobres propósitos democráticos, fomentam o ódio fratricida, conduzindo crentes às práticas repulsivas do terrorismo, ceifador de vidas inocentes.

O quadro  internacional conturbado  pelos conflitos armados, sugere a predominância da fábula de La Fontaine – O leão e o cordeiro – sobre a de Cervantes.

Mas não pode haver neutralidade entre a virtude e o crime. Há de combater-se o bom combate, com a força do heroísmo cavalariano cantado por Cervantes.

Heróis, os temos nos homens dignos, nos bons cidadãos e exemplares chefes de família, homens e mulheres, combatentes em todos os quadrantes da tragicomédia da vida.

Conheci e convivo com cavaleiros de todos os matizes. Distingo-os na dedicação às virtudes, ao bem social, à causa pública, na devoção ao direito, na dura luta pela concretização da Justiça, no padrão ideal ainda não alcançado.

Os longos e difíceis caminhos percorridos não permitem divisar o Éden. Precisamos armar cavaleiros andantes para enfrentar o mal, que ainda se apresenta disfarçado sob a arquitetura dos moinhos de iniqüidade.

No Brasil, tenho que o incomparável Rui Barbosa é o protótipo do altruísmo, da nobreza, do patriotismo, do destemor na defesa de nobilíssimos ideais. Revestido de coragem cívica, ornamento típico de poucos vocacionados à política, na acepção filosófica da melhor conduta humana, Rui combateu os poderosos. No jornalismo, na advocacia, exercida nesse Palácio,  sede do Supremo Tribunal Federal, no Parlamento, na Corte de Haia,  ninguém o excedeu.

Pena não o tenham ouvido quando,  Ministro da Fazenda, proclamou não seria independente o País se não implantasse a indústria. Sofreu, por isso, a mais intensa das campanhas jornalísticas de que se tem notícia,  patrocinada pelos senhores da terra, donos do poder, definidos por Raimundo Faoro, cafeicultores, criadores de gado e até  cacauicultores, aliados aos exportadores britânicos e americanos. Era o tempo da imposição da “vocação agrícola do Brasil”. Foi derrotado duas vezes na candidatura à presidência da República que construíra.

Nada o afastou do ideal. Sofreu o exílio, enfrentou os donos do poder,  perseverou,  altaneiro,  nas lutas mais renhidas pela democracia, cavalheiro andante pela instauração do Estado Democrático de Direito.

Bem armado cavaleiro, não foi professor nas salas de aula,  mas fez discípulos e notáveis, como os irmãos Mangabeira, João e Otávio,  que tive a honra de conhecer, estudar e de ter como líder no partido  libertador,  sigla que reuniu, no Rio Grande do Sul e na Bahia, sob as lideranças de Raul Pilla e Otávio Mangabeira,  uma plêiade de juristas e políticos de escol,  dentre os quais Paulo Brossard, Luiz Viana Filho, Aluysio de Carvalho Filho, Nestor Duarte, João Borges de Figueiredo, Josaphat Ramos Marinho e Álvaro Peçanha Martins, os três últimos muito chegados a mim e com os quais aprendi, desde cedo, a amar e a servir à pátria.

Foram altruístas, tolerantes e generosos. Reuniram,  com lucidez,  as qualidades humanas realçadas pelo gênio de Cervantes.

Combateram o bom combate e sempre estiveram nas liças,  ganhando e perdendo,  mas perseverando na luta pela felicidade do povo e da nação.

Assim como eles o fizeram, bons brasileiros se dedicam a servir à causa pública em todos os rincões da amada pátria.

Somos homens de boa vontade, sempre prontos ao bom combate por nobres ideais.

O espírito de Quixote se incorporou à alma brasileira,  no cadinho de raças, tipificadora da união fraterna que deve reinar entre as nações. Brancos, pretos, amarelos, mulatos e mamelucos,  constituímos um povo altruísta,  generoso, cultor do amor, alegre e disposto à vida digna nos padrões éticos e morais perseguidos por Quixote, sem abandonar o senso pragmático de Sancho Pança, eternos personagens do teatro da vida.