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Perigosas circunstâncias políticas

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No dia 1º de maio de 1954, 114 dias antes de seu sacrifício, praticando o suicídio para evitar uma convulsão social, o presidente Getúlio Vargas, na costumeira festa anual para os trabalhadores, fez significativa pregação política incentivando a classe trabalhadora a se organizar e ingressar aos sindicatos, com a seguinte proclamação:

“Trabalhadores do Brasil! Venho, novamente, neste 1º de maio, dia de festa dos trabalhadores, confraternizar convosco. O Brasil vive hoje num regime democrático e na democracia quem governa é a maioria, portanto, torna-se necessário que vos organizeis nos sindicatos para, em seguida, participar ativa e efetivamente na política nacional para galgar o poder. O sindicato é a vossa arma de luta, a vossa fortaleza defensiva, o vosso instrumento de ação política.”

A pregação do presidente Vargas foi seguida com a arregimentação em massa dos sindicatos e firme atuação classista, com disputas acirradas por posições sindicais entre os adeptos do comunismo, do trabalhismo e apoiados pelas  forças ligadas às entidades religiosas. Da morte do Presidente Vargas até a deposição do Presidente João Goulart, os sindicados tiveram apoio decidido do Ministério do Trabalho, formando lideranças de expressiva força, principalmente entre os metalúrgicos, ferroviários, bancários, portuários e outras tantas categorias.

Com a instalação dos governos militares, a pressão sob os dirigentes sindicais foi violenta, com intervenções nos sindicatos, prisões, tortura e, inclusive, mortes como as do jornalista Wlademir Herzog e o metalúrgico Manoel Ferreira, ocorridas nas dependências do Doi-Cod em São Paulo e, ao contrário do que era previsível, serviu para aumentar a disposição da luta dos trabalhadores que passaram através dos sindicatos a uma participação mais  ativa nas lutas salariais, revelando a ascendência de lideranças que se destacaram na condução de greves de grande repercussão nacional, como as comandadas pelo metalúrgico Lula, na região do ABC, em São Paulo, que de imediato obtiveram o apoio de intelectuais liberais e da esquerda, artistas, jornalistas, advogados e políticos engajados na luta contra a ditadura, criando condições para a formação do Partido dos Trabalhadores, o PT que depois de várias tentativas, finalmente chegou ao poder.
Neste momento, em que pela segunda vez o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva é contemplado com a confiança da maioria da nação através dos 53 milhões de votos, forçoso é reconhecer que os respectivos votantes pertencem em sua totalidade às classes mais desprotegidas da sociedade os pobres e miseráveis – que recebem do governo a diminuta, mas proveitosa, ajuda financeira com os aumentos reais do salário mínimo e o “bolsa-família”.

O primeiro mandato trouxe grandes decepções, por não ter cumprido os repetidos compromissos de campanha, favorecendo enormemente às instituições financeiras nacionais e internacionais e, inclusive, sofrendo com a atuação de companheiros mais próximos, envolvidos em atos de traição, e de comprovada corrupção, o que provocou um aviltamento político que resultou em verdadeira debandada de seguidores indignados por essas ações. A grande maioria da “inteligência” do partido formada por intelectuais, artistas e outros partidários inconformados com os rumos seguidos pelo governo, abandona o partido.

Paradoxalmente, o acontecido com o presidente Lula, se assemelha em muito aos fatos que levaram o presidente Vargas ao suicídio; principalmente, ao crime praticado pelo seu então chefe de segurança, Gregório Fortunato, que ao assassinar um oficial da Aeronáutica, que prestava segurança ao deputado Carlos Lacerda, motivou a instauração de inquérito policial militar, cujo desenrolar causou uma violenta e insidiosa campanha publicitária em jornais, rádios e televisão, trazendo à luz, além da malfadada traição de Gregório, fatos de corrupção praticados por servidores do palácio, à revelia do presidente Getúlio Vargas.

Assim também os atos de comprovada corrupção e traição praticados pelos qualificados companheiros do presidente Lula, só não causaram um mal maior, no caso o impeachment, porque no momento maior da crise, com as denúncias do deputado Roberto Jefferson, a oposição não encontrou apoio popular; como também faltaram líderes credenciados para deflagrarem uma campanha que pudesse levantar os ânimos e causar uma revolta necessária para tal.

Ocorreu ainda que o Congresso Nacional, notadamente a Câmara de Deputados, se encontrava completamente desmoralizado com a desidiosa corrupção, que apesar das comprovadas provas contra diversos deputados, acabou encobrindo e inocentando “seus companheiros” em uma ação puramente corporativista.

As tratativas que o presidente Lula está mantendo com os demais partidos, com vistas a conseguir um governo de coalizão, tornam-se extremamente necessárias para evitar – como se prenuncia pela perspectiva de instauração de novas Comissões Parlamentares de Inquérito, para apurar as várias denúncias em andamento – que seu segundo governo seja inviabilizado.

Não há dúvida que o novo mandato precisa decorrer e operar de forma tranqüila, a fim de não desanimar os 53 milhões de votantes, e principalmente, também, para que os 37 milhões que votaram na oposição, não venham a se incorporar  a esta onda.

A confiança e a esperança dos que acreditaram e aguardam as melhorias prometidas, não se podem frustrar. Os homens e mulheres que formarão o Governo, no novo mandato, terão de possuir e demonstrar capacidade, altruísmo, honestidade e efetiva competência, para corresponder à confiança popular recebida pelo presidente Lula.

A premonição do presidente Getúlio Vargas, pregando a arregimentação e organização dos trabalhadores se realizou. Compete ao presidente Lula não desperdiçar a oportunidade, evitando que aconteça no Brasil o que aconteceu na Polônia com a ineficiência do sindicalista Lech Walesa.