1964 – A Malfadada Odisséia no Navio Presídio Raul Soares II (Continuação)

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Dias após a minha primeira descida aos porões do navio, continuei a ouvir nas horas do rancho as desditas dos infelizes companheiros que relatavam os fatos que ocorreram a eles e às suas famílias.
Decidi que deveria fazer alguma coisa para que os acontecimentos que ocorriam no navio fossem conhecidos publicamente. Como na ocasião, alguns jornais, que já se haviam desiludido com atos arbitrários dos revolucionários que se apossaram do governo, estavam publicando denúncias e violências por estes praticadas, escrevi, então, uma carta aberta endereçada ao almirante Paulo Bosisio, presidente da Comissão Geral de Inquéritos, enviando-a ao jornalista Marcio Moreira Alves, do Correio da Manhã, para divulgá-la. Sabia do risco que ia correr, mas mesmo assim, enviei-a em um domingo, dia de visitas, por intermédio de meu filho Júnior, que tinha então 12 anos, orientando-o a postá-la no agência dos Correios, em Santos.
A carta foi publicada, na quarta-feira seguinte, com o título “Libelo de um preso do Raul Soares” e transcrita no livro “Torturas e Torturados” de Marcio Moreira Alves, juntamente com outras denúncias de barbaridades come-tidas contra presos políticos. No mesmo dia da publicação no jornal, houve um rebuliço no navio, com retaliações contra minha pessoa, como relatarei mais adiante. A seguir, o inteiro teor da carta, como transcrito no referido livro, págs. 203/209.

“Ao Ilustríssimo Sr. Almirante
Presidente da Comissão Geral de Inquéritos – Rio de Janeiro
Senhor Almirante:
Estou preso no Raul Soares, desde 22 de julho.
Longe de mim o desejo de vir reclamar do mau tratamento que me é dado. Aceito com estoicismo e resignação as agruras que o destino me reservou.
Não compreendo, entretanto, o que vem ocorrendo neste navio, transformado em presídio, razão pela qual resolvi escrever-lhe, atentando mais para a sua condição de oficial superior da nossa Marinha de Guerra, do que, como chefe transitório e responsável principalmente pelos assuntos da Marinha, nesta cidade e neste barco.
Encontrei aqui no Raul Soares, operários que estão presos desde o dia 1º de abril. Meia dúzia deles tinham posição de liderança sindical na baixada santista. Não acredito, porém, que qualquer deles venha a ser condenado em processos regulares. Basta ver as artimanhas que se têm valido para mantê-los ainda presos. É inacreditável que isto ocorra: esgotado o prazo de 50 dias permitidos pela CGI, foi-lhes pedida a prisão preventiva, o que foi negado por duas vezes, em pedidos feitos regularmente, sendo, entretanto, estas decretadas somente após a interferência direta da Capitania dos Portos. Não deixa de causar espanto este acontecimento, principalmente a atitude de subserviência do magistrado, decretando uma medida que sabia de antemão ser injusta e infundada. Entretanto, Sr. Almirante, quando a dignidade e a consciência deste juiz, decorridos mais de 60 dias, revogou aquelas prisões, deu-se a farsa da continuidade da detenção, agora com a alegação de um novo IPM, numa encenação ridícula e absurda.
Creia, Sr. Almirante, que não desejo com esta peroração, arvorar-me como censor dos atos e atitudes dos oficiais marinheiros, mas apenas fundamentar aquilo que julgo ser meu dever de brasileiro alertar e denunciar, apesar da minha condição de preso.
Não sei se V.Sa., como militar, sabe do sentimento do povo a respeito das nossas Forças Armadas. Todos nós, os civis, temos em alta conta, respeitamos e temos orgulho delas, porque independente de serem as mesmas identificadas com o povo, elas foram sempre as vanguardeiras e símbolos das garantias dos direitos populares. E nunca vi, uma vez sequer, qualquer pessoa se referir em termos depreciativos, por exemplo, ao nosso Exército. E qual a razão disso? É que os chefes militares dessa Força jamais deixaram ou permitiram, que esta se transformasse em milícia e deixasse de ser a defensora ou a garantia, para se transformar em algoz ou opressora do povo.
Entretanto, Sr. Almirante, enquanto o Exército promove inquéritos – que não desejamos julgar da sua procedência ou não –, com a observância da máxima cautela nas prisões dos civis envolvidos, infelizmente o mesmo não ocorre com a nossa Marinha de Guerra, que se está transformando, juntamente com a Aeronáutica, em milícia policial, autêntica máquina de terror e opressão, perdendo no seio do povo, aquele calor e respeito, que lhe era devotado. E o povo sabe, através da imprensa ainda livre e desassombrada, da qual o Correio da Manhã é o timoneiro, das violências, das ameaças e das arbitrariedades, que a Marinha e a Aeronáutica estão cometendo, em Santos, São Paulo, na Guanabara, Florianópolis e diversas capitais, e o que é mais triste, prendendo, em sua maioria, gente simples, humilde, trabalhadora, que nada fez, a não ser cumprir, dentro da lei, o sagrado princípio de lutar por melhores condições de vida, para si e sua família.
E isto é tão certo que, aqui no Raul Soares por exemplo, da centena de prisioneiros apenas sete não são operários, e destes apenas um é político.
Ora, Sr. Almirante, parece até que a revolução foi feita contra os operários. Constatei, exemplificando melhor, que neste infecto e imundo Raul Soares, a quase totalidade dos presos está à disposição da Marinha de Guerra, sendo cerca de 30 portuários, 25 estivadores, cerca de 10 empregados no serviço de transporte municipal, o presidente dos bancários, o secretário dos metalúrgicos, o presidente dos petroquímicos, o presidentes dos conferentes, além de outros, de profissões várias.
O mais lamentável, entretanto, é que esses operários em sua quase totalidade, são simples e humildes trabalhadores, sem qualquer vinculação à partidos políticos, ou ideologias que, em suma, não sabem nem o que significam.
É o caso, por exemplo, de 2 arrumadores, que se encontram aqui presos há mais de 70 dias, no grupo do qual faço parte. Para seu conhecimento, e para ilustrar, esclareço que os arrumadores se constituem na categoria mais mal remunerada da baixada santista, não chegando a perceberem um salário mínimo sequer, devido a sua condição de trabalhadores autônomos. Pois estes dois arrumadores, somente nos meses de novembro e dezembro p.passado, conseguiram ganhar mais ou menos Cr$50.000,00. Os dois têm família pelas quais são responsáveis e chefes; um deles tem dois filhos, um de 3 e um de 1 ano e sua esposa aguarda o terceiro filho para o mês de outubro, tendo ela e as crianças passado, conforme seu relato, até fome, e foi graças à coleta dos demais presos deste malfadado navio, que ele pôde entregar-lhe, no último domingo durante a visita, algum dinheiro, para que ela comprasse leite e outros alimentos essenciais. Este pobre e humilde trabalhador, infeliz chefe de família, está aqui no Raul Soares desde 30 de junho último, porque apenas e unicamente cometeu o crime definido pelos valorosos oficiais da nossa Marinha, de ter ido ao comício de 13 de março, na Guanabara, tendo sido ainda, durante o seu interrogatório neste navio, ameaçado com arma de fogo, para confessar aquilo que não sabia e que não aconteceu. Este pobre coitado, que também sofre do coração, já passou por uma ameaça de enfarte, e com os bons tratos físicos desta prisão e a proximidade do nascimento de seu filho, talvez não resista à dor que lhe vai na alma pela desgraça que passa a família desamparada, e possivelmente teremos, graças a esta revolução de 1º de abril, mais quatro párias jogados às ruas de Santos.
Se isto ocorrer, Sr. Almirante, o que peço a Deus não aconteça, os responsáveis serão estes valorosos oficiais da nossa Marinha de Guerra, encarregados dos inquéritos em Santos que, não podendo prender os políticos adversários e muito menos os corruptos que andam por aí impunemente, prendem desgraçados trabalhadores como este.
O outro arrumador, preso há mais tempo que aquele, não é menos desgraçado. Tem esposa doente e três filhos, sendo um menino de 15 anos, uma menina de 9 anos, paralítica, e uma mocinha de 19 anos que, hoje com seu salário mínimo, evita que sua família morra de fome.
E assim são todos os casos, Sr. Almirante, com exclusão dos portuários presos, que contam com a solidariedade de seus colegas que mensalmente fazem listas para socorrerem as famílias dos companheiros que estão no Raul Soares.
Entretanto, Sr. Almirante, as violências e arbitrariedades cometidas contra os presos, pelos brilhantes oficiais da nossa Marinha de Guerra, são de sensibilizar uma estátua de pedra. Por exemplo, o caso do Presidente do Sindicato da Administração dos Portuários, ex-pracinha da FEB, que além de espancado, foi agarrado pelo colarinho por um valoroso e bem fardado capitão-corveta, quando prestava depoimento, para que confessasse onde se encontravam as armas do sindicato – que somente existiram na cabeça de certos imbecis retardados e lunáticos revolucionários –, e ao ter respondido ao dito oficial que “era de admirar a conduta de um oficial da Marinha, pois nem os prisioneiros de guerra na Itália tiveram um tratamento igual àquele que lhe era dispensado”, ficou durante 14 dias numa cela, no porão do navio, próxima  das caldeiras, onde a temperatura constante é de acima de 40 graus. E inúmeros foram os presos que tiveram este mesmo tratamento, no mais requintado estilo da Gestapo de Hitler, sendo que o último a conhecer este tratamento foi o meu colega, Nelson Gato, por ter se recusado a servir de faxineiro do navio.
Também neste navio, Sr. Almirante, dispensam outro tratamento digno de Hitler, que é o de  mandar os prisioneiros que não confessam o inconfessável ou não aceitam os depoimentos que não fizeram, para celas que são verdadeiras geladeiras e após alguns dias, transferem-nos para a cela próxima à caldeira, numa alternação de frio e calor que demonstra bem o requinte do barbarismo em uso no navio por parte dos “brilhantes e valorosos” oficiais da nossa Marinha de Guerra.
Não são atitudes como essas, Sr. Almirante, que manterão o conceito da nossa Marinha, aquela que o povo admira, pois essa deixou exemplos, como os de Tamandaré, Barroso, Marcílio Dias, Saldanha da Gama e tantos outros que a nação inteira venera.
E isso é tão verdadeiro, Sr. Almirante, que ainda há pouco, logo após esta revolução de 1º de abril, quando toda a polícia de Santos, principalmente a do DOPS, se mobilizava e caçava os líderes sindicais, como se fossem criminosos da pior espécie, eles procuraram a Marinha para se entregar em custódia ao Capitão dos Portos, pois receavam as barbaridades da Polícia Política. Coitados, como estavam enganados. Quando o Capitão dos Portos os encaminhou ao DOPS, esperava-se que fosse haver espancamentos e torturas; no entanto, esses líderes sindicais, que procuraram a custódia da Marinha – que eles acreditavam humana e cristã –, ao serem entregues à Polícia Civil, verificaram com surpresa e tristeza, que o tratamento  que ali lhes foi dispensado, era muito mais humano que este que hoje se recebe neste navio, inclusive por parte de nossos “valorosos” oficiais.
Outro fato, Sr. Almirante, que marca bem o sentimento de ódio e a falta de sentimento cristão, é o de impedir que os presos recebam jornais, frutas e alimentos de fora, como se esta atitude fosse ajudar a revolução ou, porventura, se a alimentação neste navio fosse de magnificência salutar.
Saiba, Sr. Almirante, que proibição como esta não existe no Brasil, nem para os criminosos dos crimes mais infamantes.
Há uma coisa, Sr. Almirante, que deve pairar acima das posições e das situações, que são sempre passageiras; não sabemos se no dia de amanhã lamentaremos algum ato ou atitude do passado, mas há algo que, nem eu, nem V. Sa. negará, lamentará ou repudiará: as nossas tradições e a nossa  condição de brasileiro que deseja o bem da Pátria e a melhoria das condições do nosso povo.
E entre as glórias e tradições que temos que preservar, indiscutivelmente, estão as nossa Forças Armadas, o nosso Exército, a Aeronáutica e a nossa Marinha de Guerra, cuja responsabilidade de preservação é muito mais dos militares do que dos civis.
Este é o sentido desta carta, no fundamental, chamar a atenção para o que está sendo visto, mas não percebido ou interpretado à luz da realidade e dos sentimentos do povo brasileiro.
E, por fim, para não me alongar demais, o caso mais escabroso, que clama aos céus, que revolta a sensibilidade e a dignidade humana.
É este da ofensa às esposas de alguns presos, principalmente dos sargentos, que estão sendo obrigadas a ouvir as sabujices babosas de certos tipos, que corrompem com a sua condição animalesca o próprio gênero humano, verdadeiras excrescências fétidas em que se trasformaram.
Espero que V. Sa. Sr. Almirante, como presidente da CGI, que tem família, dignidade e moral, mande instaurar um rigoroso inquérito e determinar a vinda de uma pessoa de sua confiança a este navio para comprovar as barbaridades cometidas, e apurar principalmente este último caso, para o qual estarei pronto a fornecer os elementos comprobatórios de minha denúncia, e para que esses desclassificados  morais não continuem a manchar e emporcalhar as fardas que vestem.
É o caso, Sr. Almirante, de supor, numa inversão de posições, a prisão, por exemplo, do Sr. Diniz e imaginar que sua esposa estaria sendo afrontada e ofendida como estão sendo as esposas dos sargentos presos. Qual a sua revolta? Qual o seu pensamento? Qual o seu sentimento  pela aviltante ofensa? E a revolta, o sentimento de seu ilustre sogro, o marechal Castelo Branco? E seu cunhado, brilhante oficial do nossa Marinha de Guerra?
Pois Sr. Almirante, as esposas dos sargentos, também têm marido, têm pais, têm irmãos e têm filhos.
Os prisioneiros neste navio, Sr. Almirante, na sua quase totalidade gente humilde, sem ter pai marechal, sem ter a possibilidade de obter habeas corpus, estão encarcerados, alguns desde 1º de abril, mas quase todos com mais de 50 dias de prisão, e ainda mantidos em cárcere, em absurda incomunicabilidade, em flagrante desrespeito, não digo à lei dos homens, que pouco está valendo  nos dias atuais, mas às próprias determinações da CGI.
Vamos pois, ser humanos, cristãos, e, sobretudo, brasileiros.
Apesar de tudo, Sr. Almirante, eu creio em Deus, creio no Brasil e creio nos homens de minha pátria. E, por ter tanta fé, acredito que Ele fará passar depressa esta noite pesada de silêncio, que se abate sobre o nosso Brasil, mas, enquanto isso não ocorrer, espero que V.Sa. dê sua contribuição para fazer cessar o ódio, imperante no Raul Soares e em outros locais, que estão separando irmãos, tiranizando e oprimindo gente humilde e simples de nossa terra, que também acredita na proteção divina, mas crê ainda e também na justiça dos homens.
Receba esta carta-libelo, Sr. Almirante, como uma contribuição aos assuntos de sua responsabilidade. Estou preso, é verdade, mas não guardo ódios ou ressentimentos. Quem os tiver, que se alimente com eles.
Do seu patrício, respeitosamente,
Orpheu Santos Salles”

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