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11
ago2014

Lançado documentário sobre a vida de Pedro Aleixo

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webdoor-A15-ed168Da esquerda ao centro, depois para a direita e, por fim, novamente à esquerda. Assim foi a trajetória política do professor, advogado e jornalista Pedro Aleixo (1901-1975). A história de um dos principais personagens da cena política brasileira, que apesar da intensa movimentação é reconhecido e aplaudido pela coerência entre a forma de pensar e agir, é remontada no documentário “Parto para liberdade – Uma breve história de Pedro Aleixo”, dirigido e produzido pelo cineasta Jesus Chediak.

O filme, orçado em R$ 1,3 milhão, foi produzido com o patrocínio de Furnas e lançado recentemente em Minas Gerais. Outras apresentações estão marcadas para ocorrer no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Após os lançamentos regionais, o documentário entrará em cartaz nas diversas salas do País.

“Parto para liberdade” mostra como o então vice-presidente da República, Pedro Aleixo, e o então presidente Costa e Silva (1899-1969) acabaram se tornando vítimas da ditadura militar e do terrível Ato Institucional no 5. Para contar essa história, Chediak reuniu material de época e tomou depoimentos de diversas personalidades que viveram aquele momento político. “Filmei quase 50 horas. Para editar tudo isso foi uma dificuldade”, relatou.

Confira a íntegra da entrevista.

Revista Justiça & Cidadania – O que o motivou a dirigir um filme sobre Pedro Aleixo?
Jesus Chediak – Resolvi fazer esse filme porque as pessoas estão descrentes da política, principalmente a juventude. E se todos estão descrentes da política, quem, no futuro, vai tomar conta das nossas instituições? Procurei na história do Brasil uma figura que pudesse servir de exemplo, por mostrar que a política é importante. Pensei, inicialmente, em falar de duas figuras: Luiz Carlos Prestes e Rui Barbosa. Mas desisti, por eles serem estigmatizados como de esquerda e de direita. Queria mostrar a política de um modo geral; afinal, seja qual for a conotação ideológica, a política é fundamental para o desenvolvimento da sociedade. Então, me veio a figura do Pedro Aleixo. Ele transitou da esquerda para o centro, do centro para a direita e, depois, novamente para a esquerda.

Quais momentos da vida de Pedro Aleixo o filme aborda?
O filme aborda toda a trajetória política do Pedro Aleixo. Ele teve 45 anos de vida pública e nunca ninguém teve nada contra ele do ponto de vista político. Cito como exemplo a votação na, Câmara, do aumento para os deputados. Aleixo era contra. O aumento passou e ele decidiu, então, devolver aos cofres públicos o dinheiro que achava que não deveria receber. Ele, portanto, era absolutamente coerente com a forma como pensava. E isso é um exemplo para a juventude. A trajetória dele mostra que nem tudo está perdido que nem todos os políticos são corruptos.

Que outros pontos da trajetória de Aleixo o senhor destaca?
O filme mostra diversos outros aspectos da trajetória de Aleixo. Por exemplo, a da participação dele na Revolução de 1930. Ele era progressista e apoiou Getúlio Vargas. Em 1934, ele foi o principal constituinte e colocou na Constituição o voto feminino e os direitos trabalhistas. Mas veio o Estado Novo e, em 10 de novembro de 1937, Getúlio deu o golpe. Pedro Aleixo mandou um telegrama para Vargas dizendo que não aceitava participar de um regime totalitário. Ele voltou para Minas, onde encontrou Juscelino Kubistchek. Os dois eram muito amigos, embora fossem adversários políticos: O Juscelino era do PSD; e o Aleixo, da UDN. Em 1941, o Getúlio mandou o Benedito Valadares, na época governador de Minas, oferecer à Aleixo a prefeitura de Belo Horizonte. Ele não aceitou. Disse que só aceitaria após a redemocratização. O Benedito Valadares, então, convidou o Juscelino. Por ser muito amigo de Aleixo, Juscelino o procurou para perguntar se a amizade dos dois ficaria abalada se ele aceitasse o convite. Pedro Aleixo respondeu que não e, como prova, deu seu filho mais novo, Sérgio Aleixo, para Juscelino batizar. Veja como é a história. Se Aleixo tivesse aceitado ser prefeito de BH, Juscelino não teria assumido o cargo, não teria sido governador nem presidente e todo o projeto que ele realizou no Brasil, como a construção de Brasília, não teria ocorrido. Mas Pedro Aleixo recursou e acabou se tornando um dos signatários do movimento dos mineiros e co-redator do manifesto a favor da liberdade e do fim da ditadura de Vargas. Veio a democratização do País e veja que contradição: Aleixo terminou com um dos participantes da Ditadura de 1964.

Como isso ocorreu?
Os mineiros temiam um golpe de esquerda no Brasil, que instaurasse uma república sindicalista e toda aquela confusão do Partido Comunista. Então, houve o movimento de 1964, apoiado, inclusive, pelo próprio Juscelino. O Castelo Branco que traiu a todos. Ele prometeu assumir até 1965, ano em que estavam previstas as eleições. Ele disse: “Passarei a faixa presidencial para aquele que for eleito”. Só que, ao invés de fazer as eleições, ele se perpetuou no Poder. E aí teve início a ditadura.

Pedro Aleixo era ministro da educação do Castelo. Nesse período, houve a eleição indireta e ele se tornou vice-presidente do Costa e Silva. Eles se tornam grandes amigos. Quando houve a promulgação do AI5, que foi a coisa mais hedionda que esse País já viu, Aleixo foi o único a dizer que não aceitava o tal ato. Naquele momento ele teve a coragem de ir contra o AI5, e os militares acabaram por o colocar na berlinda. Na sequência, o Costa e Silva morreu. Aleixo iria assumir, mas a Junta Militar não permitiu que isso acontecesse. O filme, então, mostra como tudo isso ocorreu e com muito material inédito.

Quem o senhor ouviu para o documentário?
Entrevistei o Rondon Pacheco, chefe da Casa Civil do governo Costa e Silva, que está com mais 90 anos e ainda muito lúcido. Também colhi depoimentos de outras pessoas, como o jornalista Carlos Chaga, na época chefe da Assessoria de Comunicação Social (do Planalto), que nos relatou todos os bastidores do AI5. Entrevistei o Pedro Simon (atualmente senador pelo PMDB/RS); o coronel Affonso Heliodoro, principal amigo de Juscelino naquala época. Também tenho os depoimentos do Ziraldo (cartunista); do Sergio Cabral pai (jornalista e político); do Modesto da Silveira, advogado de presos políticos; do ministro (das Minas e Energia) Edison Lobão, na época jornalista do jornal A Última Hora; e do Ricardo Zarattini, um dos 12 banidos do País que foram entregues no resgate do sequestro do embaixador dos EUA. Zarattini, aliás, deu um depoimento emocionante sobre o Pedro Aleixo. Foi Zarattini quem entrou com um pedido no Supremo Tribunal Federal para que Aleixo fosse reconhecido presidente da República. Mas eles não são os únicos. Entrevistei mais pessoas e toda a família de Aleixo. O Padre José Carlos Aleixo, por exemplo, foi co-produtor do filme e me ajudou a escrever o roteiro.

Qual é a duração do filme?
Uma hora e quarenta minutos. Mas eu filmei quase 50 horas. Para editar tudo isso foi uma dificuldade.

Além das entrevistas, que outros materiais compõem o documentário?
Consegui um material de arquivo muito interessante da cinemateca brasileira, em São Paulo, da TV Globo, em Minas Gerais, do Arquivo Nacional e dos principais jornais, como Folha, Estadão, Estado de Minas, Jornal do Brasil e O Globo, assim como da Revista Veja e do Centro de Referência Áudio Visual de Minas Gerais.

Quanto tempo o senhor levou para produzir o filme?
Três anos.

Quais foram as maiores dificuldades que o senhor enfrentou?
Como sempre, o patrocínio. Infelizmente não existe no País uma política para o cinema nacional. Tenho amigos que têm roteiros há muito tempo, mas não conseguem produzi-los por falta de patrocínio. Filmes que realmente refletem sobre a realidade brasileira não interessam. Dificilmente o empresário se mobiliza, a não ser que seja para esses filmes água com açúcar.

Quando o filme será lançado?
O filme foi lançado no dia 7 de junho, em Belo Horizonte, por sinal com muito sucesso. O lançamento foi no Palácio das Artes e no Cine Humberto Mauro, com o apoio do Jornal Estado de Minas, da Academia Mineira de Letras, da ABI – Minas Gerais e do Instituto dos Advogados de Minas Gerais. Foi um sucesso tão grande… no dia, ficou gente do lado de fora.

Quando o documentário entrará nas salas do País?
Antes vou lançá-lo no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Brasília Depois desses lançamentos, o filme entrará em circuito.

O próximo lançamento já tem data?
Provavelmente no final de julho, na ABI, no Rio.

Na sua opinião, qual é a importância da Lei 12.486/2011, promulgada pela presidente Dilma e que reconheceu Aleixo como presidente da República, após a morte de Costa e Silva?
Essa lei resulta de uma proposta encaminhada pelo Eduardo Azeredo, deputado federal por Minas Gerias (PSDB). A lei foi aprovada pelo Congresso e, em razão dela, hoje Pedro Aleixo é considerado um dos presidentes da República. A lei corrigiu um erro histórico.

O golpe militar completou 50 anos em 2014. Na sua avaliação, qual foi o aprendizado para o País que o acontecimento deixou?
Eu fui do Partido Comunista e acreditava na ditatura do proletariado. Achava que tínhamos que fazer uma ditadura do trabalhador e que depois de termos um Estado absolutamente livre sequer precisaríamos mais de Estado. Esse era o nosso sonho, mas hoje, em realidade, digo que não há como se ter uma cidadania plena fora do ambiente da liberdade. A coisa mais preciosa que o ser humano tem, na minha opinião, é o livre arbítrio: o poder de decidir sobre a sua vida e de ser responsável por suas decisões. Então, hoje acredito no socialismo pactuado de dentro para fora, pela decisão do sujeito e não por imposição externa. Na minha opinião, esse é o mais alto estágio da civilização.

Sobre a Constituição de 1988, que avaliação o senhor faz do período que a Carta está em vigor?
Digo que temos uma democracia apenas formal, ou seja, no papel. Nossa Constituição não é cumprida porque vivemos numa sociedade corrompida. A democracia de nada serviu a não ser para tirar das nossas cabeças aquele cutelo assassino do AI5. Sim, porque os militares nos sequestravam e não tínhamos para quem apelar. Era como se fossem nossos donos, faziam conosco o que bem entendessem. Mas ainda não vivemos uma democracia plena, e sim formal, pois nenhum direito social é aplicado: nem o direito ao trabalho, à segurança, à educação e à saúde. O Brasil não avançou.