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A escolha é a alma gêmea do destino

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Discurso proferido por ocasião da aposentadoria do Desembargador Sergio Cavalieri Filh

“A escolha é a alma gêmea do destino.
Há muito tempo, uma escolha difícil se descortinou a frente de um de nossos mais eminentes colegas: prosseguir em sua liturgia divina de pregar a palavra de Deus e iluminar o caminho de seus semelhantes ou ingressar na Magistratura com a finalidade de distribuir a Justiça e buscar a pacificação entre os homens.
Certamente foi a decisão mais difícil.
Sendo fruto de uma escolha, como sempre, uma parte acaba sofrendo. Mas, Deus, soberano, atuou em nosso benefício e o guiou para essa empreitada de pura dedicação e amor.
Poucos sabem dos problemas enfrentados no início de sua trajetória. Talvez a circunstância de estudar em pé — para não ser derrotado pelo cansaço — tenha talhado todo o amor pelo viés acadêmico e a paixão pelos estudos e pela arte de ensinar.
As dificuldades vividas e as aflições pela escolha inicial não lhe retiraram o amor que trazia em seu coração pelos homens e seus conflitos, tornando-o obcecado pela causa pública. Acreditando que através de seu próprio esforço e dedicação constante pudesse contribuir ativamente para a transformação que sonhava fez de sua toga o instrumento de seu ideal assumido de tornar a Magistratura mais forte e compromissada com a sua verdadeira missão de pacificação social.
E em grande demonstração que o destino não é uma questão de sorte, mas uma questão de escolha, escreveu o seu ao promover uma revolução nos paradigmas que existiam, em um primeiro momento dando suporte aos que administravam e, em outro, exercendo a própria administração fazendo com que o Judiciário nacional passasse a repensar sua estrutura organizacional tendo como parâmetro as modificações implementadas em nosso Tribunal.
Não foi fácil. Noites mal dormidas. Abandono por vezes da família, dos amigos e do lazer reconfortante. Mas sem esmorecer seguiu em frente. E porque não dizer dos covardes ataques perpetrados contra si? Vivi um pouco ao seu lado neste momento e consegui entender o motivo de tão despropositadas atitudes em uma frase de Jonathan Swift segundo o qual: “Quando um verdadeiro gênio aparece no mundo, é imediatamente reconhecido por este sinal: os medíocres se unem contra ele”.
Mesmo podendo dar o troco na mesma moeda da ingratidão recebida, aplicava como bálsamo a aliviar sua dor o provérbio indiano de que: “Só o ignorante se zanga; o sábio compreende.” O Senador Jefferson Peres afirmou que nada incomoda mais um canalha do que um homem de bem e Vossa Excelência, meu amigo Desembargador Sérgio Cavalieri, é um homem de bem.
A saída de Vossa Excelência de nosso convívio, por imposição legal, deixará um vazio quase impreenchível, não fosse suas realizações e decisões que marcarão pela eternidade sua passagem por este Tribunal.
Conheci Vossa Excelência quando entrei no Tribunal de Alçada e frente a uma indagação que me formulou fui consultar quem era Cavalieri a meu pai e ele resumiu dizendo: “Este é um homem digno e honrado”.
O exemplo de Vossa Excelência continuará, não tenho dúvida, a servir de norte para as próximas gerações de juízes que devem acreditar que eles são responsáveis por suas vidas e que mesmo todos sendo igual aos olhos de Deus, a bondade, a sabedoria, o talento e as virtudes serão os únicos atributos que os distinguirá.
Sob sua condução e orientação, sempre soubemos seguir as escolhas do coração, com coragem e determinação. O medo foi circunstância que jamais habitou suas decisões, enfrentado com altivez e dignidade todas as adversidades ínsitas aos insatisfeitos.
Julgar, como sempre nos ensinou, é antes de tudo um ato de amor e de coragem.
Não posso deixar de realçar o significado de sua amizade.
Cecília Meireles afirmou que “há pessoas que nos falam e nem as escutamos; há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam. Mas há pessoas que, simplesmente, aparecem em nossa vida e que marcam para sempre”.
Vossa Excelência se inclui entre estas últimas. Amigo leal e verdadeiro e que demonstrou ter caráter ao preservar intimidades confidenciadas e vividas até dos seus algozes, que fizeram com que crescesse espiritualmente.
Segundo Beauchêne: “Se querem saber o que os homens pensam, não ouçam o que dizem, observem o que fazem”, e foi isto exatamente o que fiz desde a época em que assumi como Corregedor, passando a direcionar minhas ações administrativas na valorização dos magistrados e servidores e na defesa intransigente de seus direitos, e no lado pessoal rezando para aqueles que queriam meu mal.
Amigo não é aquele que diz: Vá em frente! Mas aquele que diz: Vou contigo.
Saiba, amigo Cavalieri, do privilégio que todos nós magistrados do Estado do Rio de Janeiro tivemos em relação a sua companhia. Durante anos a seu lado enriquecemos nossas vidas. Cada um — tenho certeza — levará consigo a saudade do seu convívio diário.
Permita-me rememorar uma lenda Judaica sobre o verdadeiro significado da amizade. Não são nas palavras, nos sorrisos ou nas confraternizações que destacamos os verdadeiros amigos. Escolhi a lenda do DUPLO SILÊNCIO em razão de sua personalidade:

Dois amigos cultivavam o mesmo campo de trigo, trabalhando arduamente a terra com amor e dedicação, numa luta estafante, às vezes inglória, à espera de um resultado compensador.
Passam-se anos de pouco ou nenhum retorno.
Até que um dia, chegou a grande colheita.
Perfeita, abundante, magnífica, satisfazendo os dois agricultores que a repartiram igualmente, eufóricos.
Cada um seguiu o seu rumo.
À noite, já no leito, cansado da brava lida daqueles últimos dias, um deles pensou :
“Eu sou casado, tenho filhos fortes e bons, uma companheira fiel e cúmplice.
Eles me ajudarão no fim da minha vida.
O meu amigo é sozinho, não se casou, nunca terá um braço forte a apoiá-lo.
Com certeza, vai precisar muito mais do dinheiro da colheita do que eu”.
Levantou-se silencioso para não acordar ninguém, colocou metade dos sacos de trigo recolhidos na carroça e saiu.
Ao mesmo tempo, em sua casa, o outro não conciliava o sono, questionando:
“Para que preciso de tanto dinheiro se não tenho ninguém para sustentar, já estou idoso para ter filhos e não penso mais em me casar.
As minhas necessidades são muito menores do que as do meu sócio, com uma família numerosa para manter”.
Não teve dúvidas, pulou da cama, encheu a sua carroça com a metade do produto da boa terra e saiu pela madrugada fria, dirigindo-se à casa do outro.
O entusiasmo era tanto que não dava para esperar o amanhecer.
Na estrada escura e nebulosa daquela noite de inverno, os dois amigos encontraram-se frente a frente.
Olharam-se espantados.
Mas não foram necessárias as palavras para que entendessem a mútua intenção.
Amigo é aquele que no seu silêncio escuta o silêncio do outro.

A vida sempre começa agora… Numa construção de passado que só termina quando a caixa do futuro se acaba.
Hoje testemunhamos a correção de sua escolha. A Magistratura brasileira agradece a dedicação e a honradez de todos os seus milhares de julgamentos e ensinamentos. Perante Deus, sua família, e de todos os homens tenha a absoluta certeza do dever cumprido.

Não deixe de sonhar.
Fazer um céu com pouco a gente faz;
Basta uma estrela,
Uma estrela e nada mais.
Pra ter nas mãos o mundo,
Basta uma ilusão.
Um grão de areia
É o mundo em nossa mão.
Sonhar é dar à vida nova cor;
Dar gosto bom às lágrimas de dor.
O sol pode apagar, o mar perder a voz,
Mas nunca morre um sonho bom dentro de nós.
(Mário Lago)

Obrigado por tudo e seja muito feliz!”

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“Hoje não tenho condições de falar. A gratidão é a memória do coração, e eu tenho coração. Saio daqui muito feliz em ver que o futuro desta casa será ainda mais brilhante do que foi até hoje na direção de Vossa Excelência. Para vocês todos o meu muito obrigado por tudo aquilo que vocês representaram na minha vida. Eu creio que a maioria dos desembargadores que aqui estão recebeu meu voto. Durante muitos anos estive no Órgão Especial , votei em quase todos. Nunca me arrependi”

Sergio Cavalieri Filho, Desembargador do TJRJ e Membro do Conselho Editorial