Destroços na correnteza

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“Somos nossa memória”, escreveu o genial Jorge Luis Borges, “este quimérico museu de formas inconstantes, este amontoado de espelhos partidos”. Somos efetivamente nossa memória — individual, coletiva, nacional, histórica. E ela nos relembra, ensina, emociona, educa, protege, adverte. Pode até nos libertar. Basta não ignorá-la.
Ela nos mostra que mesmo os bosques apodrecem e se extinguem — como lembrava Alfred Tennyson —, carregados pelas águas de um rio incontrolável. Desfizeram-se também naquele rio o Império Egípcio, junto ao Nilo, e o Império Britânico, às margens do Tamisa. Foi-se o Império Inca, como se foram igualmente com ele os conquistadores espanhóis liderados por Francisco Pizarro. Mais ao norte, os maias e os astecas — povos altamente sofisticados, que dominavam a Matemática e a Astronomia, além de desenvolver técnicas incríveis de construção e irrigação — também naufragaram nos rios implacáveis da História. Falavam com os deuses, mas naufragaram. E nada protegeu o Império Soviético das corredeiras do tempo, nem seus foguetes espaciais, nem suas armas nucleares. Sumiram assírios e caldeus, desapareceu a Babilônia.
A memória nos permite conhecer os enredos da aventura humana. Ela nos fala de todos os Impérios, de todos os regimes, de todos os poderes que os homens acumularam — e perderam. Desvenda os mistérios do nosso passado, é um encontro dramático com a fragilidade dos povos, das culturas e das instituições.
No campo minado da violência, nossa memória registra centenas de guerras, milhões de mortos. Somente na Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945, morreram 50 milhões de seres humanos. Com o fim do conflito, entramos na Guerra Fria — a presença do Armageddon, durante mais de 40 anos, em nosso horizonte próximo. Uma espada nuclear descomunal que pendia sobre nossas cabeças. Esta disputa ideológica e econômica entre Estados Unidos e União Soviética envolveu conflitos frequentes, empobreceu a humanidade com seu simplismo e emburreceu os seres humanos com seu maniqueísmo.
Com a chegada ao poder, em moscou, de Mikhail Gorbachev, as tensões diminuíram, até o almejado fim da Guerra Fria, em 1989. No dia 9 de novembro daquele ano, os alemães derrubaram a marretadas uma muralha de 160 quilômetros, erguida em 1961 para evitar as fugas dos que ainda sonhavam com a liberdade, na Alemanha Oriental.  A muralha, conhecida como muro de Berlim, simbolizava a divisão do mundo. Parecia eterna e intransponível, mas caiu da noite para o dia, como um castelo de cartas. Então veio finalmente a paz? Doce ilusão.
A partir dos anos 90, a memória registra o que a revista “Newsweek” chamou de “a volta do Tribalismo”. Conflitos tribais entre vizinhos multiplicaram-se na Sérvia, na Moldavia, no Kosovo, na Ossétia do Sul, em Ruanda. A violência se abateu sobre o Afeganistão e a Argélia, a Armênia e o Azerbaijão, o Burundi e o Líbano, a Serra Leoa e o Curdistão, o Tibet e a Córsega. A luta armada localizada varreu os cinco continentes. Chegamos ao século 21 sem sonhos e com algumas esperanças efêmeras. Talvez conseguíssemos finalmente aliar o pessimismo da razão ao otimismo da vontade. Mais uma ilusão. Logo ressurgiram os velhos lagartos, maiores e mais vorazes, a assombrar novamente o mundo com seu fanatismo. Surgiu até um personagem lambrosiano, de olhos juntos, apertados, para negar o holocausto.
Hoje as certezas dão lugar às dúvidas. O nazi-fascismo está aí mesmo. As pessoas que ainda se lembram olham-se num espelho partido. Vivem imprensadas entre frágeis esperanças e profundas desilusões.
André Malraux previu que o século 21 seria “o século da cultura”. Neste momento sem ética, porém, a correnteza da História certamente nos carrega como destroços, na direção de um abismo insondável.

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