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Tiradentes – Descendentes Controvérsias & Fatos

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Trata-se, aqui, da descendência de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

Ilustres e conceituados historiadores indicam, entre outros, Pedro de Almeida Beltrão Júnior e suas irmãs, Maria Custódia dos Santos e Zoé Cândida dos Santos, como trinetos do protomártir da nossa Independência. Entretanto, no nosso entender, tal afirmação não se reveste de credibilidade; pois, no que se infere da real documentação histórica, inexiste o apontado liame entre eles e Joaquim José da Silva Xavier.

Em 16 de outubro de 1969, o Congresso Nacional — por admiti-los como trinetos de Tiradentes — contemplou-os com uma pensão vitalícia de dois salários-mínimos cada um, apesar de, à luz de aceitável documentação existente, não haver tal descendência.

Bem esclarecendo, com relação a Eugênia Joaquina da Silva (no cerca 1770), seu filho, que recebeu no batismo o nome de João de Almeida Beltrão, não era filho de Tiradentes, mas de José Pereira de Almeida Beltrão, conforme elucidado pelo professor Waldemar de Almeida Barbosa, ao localizar, na Matriz do Pilar de Ouro Preto, o assento de batismo de João de Almeida Beltrão[1], às folhas 354, do livro próprio, assim transcrito:

“Aos quinze dias do mês de julho de 1787, nessa igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar de Vila Rica de Ouro Preto, batizei e pus os santos óleos a João, filho natural que diz ser do cadete José Pereira de Almeida Beltrão e de Eugênia Joaquina da Silva, solteira; foi padrinho o tenente Bernardo Pereira Marques, solteiro; todos desta freguesia, de que fiz este assento. o coadjutor Antonio Ribeiro Azevedo.”

Essa descoberta — peça essencial para levar credibilidade do afastamento de qualquer vínculo de parentesco dos “Beltrãos” com Tiradentes — motivou o conceituado professor, em artigo na edição de 20 de novembro de 1961 de “O Estado de Minas Gerais”, a pôr fim a tal vetusta tradição oral não comprovada da paternidade de João de Almeida Beltrão.

Equivocaram-se, portanto, os ilustres historiadores Lúcio José dos Santos[2], Miguel Santos e G. Hércules Pinto[3], entre outros, em atribuir a paternidade do menor João de Almeida Beltrão ao Inconfidente, pois Eugênia Joaquina da Silva era a filha mais velha de dona Maria Josefa, sendo aquela, mulher de José Pereira de Almeida Beltrão, colega de regimento de Joaquim José da Silva Xavier, segundo se extrai dos Autos da Devassa da Inconfidência Mineira[4]. Aliás, se João de Almeida Beltrão não fosse filho de José Pereira de Almeida Beltrão, este, por certo, não o teria reconhecido.

Em 1807, dezoito anos após o malogro da Conjuração, toda a família de Dona Josefa Joaquina mudou-se de Vila Rica para Dores do Indaiá, acompanhando o neto João de Almeida Beltrão, que assentara praça no Regimento e fora designado para servir na Guarnição da Extração Diamantina do Abaeté, dirigida pelo Dr. Diogo Pereira Ribeiro de Vasconcelos. Esse lapso temporal é o suficiente para afastar o inconsistente argumento de alguns autores, segundo o qual a família de dona Eugênia Joaquina, por estar submetida ao infame constrangimento, entendeu mudar-se de Vila Rica.

No entanto, não é o que notifica o censo de 1804, da Capitania de Minas Gerais, dando conta de que dona Maria Josefa, filhas e netos até aquele ano, residiam em Vila Rica, inclusive Antonia Maria do Espírito Santo e Joaquina ainda estavam presentes, na antiga capital mineira[5]. Depois disso, não se teve mais notícia do paradeiro da filha de Tiradentes, ou seja, onde ela viveu e o fim de seus dias. Certo, é que o tempo esqueceu Joaquina, provavelmente falecida em Dores do Indaiá, substituída na memória familiar pelo seu primo João de Almeida Beltrão[6].

Verifica-se também que no mesmo equívoco incorreram Miguel Santos e G. Hércules Pinto ao consignarem, em suas obras “Tiradentes, Patrono da Nação Brasileira”, e “A Vida de Tiradentes”, ter sido João de Almeida Beltrão filho do inconfidente mártir. Desse modo, não havendo suporte probatório dessa assertiva, há que afastar da relação que consta nas obras suso referidas às fls. 50/52 da primeira e 57/58, 97/98, 251/252 da segunda, todas as pessoas apontadas como descendentes de Joaquim José da Silva Xavier, tais como: filhos, netos, bisnetos, tetranetos, quadranetos e quintanetos, e os descendentes do tenente da Milícia da Colônia Joaquim Paulo de Oliveira, igualmente mencionado como filho de Tiradentes. Afirmação efetivamente por demais fantasiosa, eis que, na realidade, Joaquim José da Silva Xavier, conforme suas declarações nos Autos da Inconfidência, só teve uma filha, Joaquina, batizada na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar de Vila Rica, em 13 de agosto de 1786, tendo por padrinho o tenente-coronel Domingos de Abreu Vieira, do Regimento de Cavalaria Regular de Minas Novas[7].

Entretanto, afora encontros transitórios, que acreditamos terem sido numerosos, posto que cidadão solteiro e livre de compromissos conjugais, Tiradentes, manteve estreito e íntimo relacionamento apenas com duas mulheres: Antonia Maria do Espírito Santo e a viúva de Francisco Gonçalves Teixeira, Dona Marianna Barboza de Mattos, residente em Cebolas, atual Inconfidência, distrito de Paraíba do Sul. Esta última  devotava profunda admiração por Tiradentes, e não havendo impedimento para um relacionamento mais íntimo entre ambos, todas as vezes que a escolta policiadora do “Caminho Novo”, sob o seu comando, passava pela localidade, ele se hospedava na casa da fazendeira.

Sendo Cebolas um dos pontos de pregação do movimento insurreto, determinou o acórdão régio da Alçada da Inconfidência que uma perna do conjurado fosse colocada em um poste, exposta na praça pública daquela localidade, a fim de que o tempo a consumisse. A morte do agente, a prática do esquartejamento e a colocação do seu corpo (ou de parte dele) em local público, onde o povo poderia contemplá-lo, tinham por finalidade infundir o medo, aterrorizar, com o propósito de advertir a que estariam sujeitos todos aqueles que incorressem em prática de igual crime.

Ocorre que, após a escolta do Regimento de Extremoz e Chichorro se retirar com destino a Vila Rica, Dona Marianna pediu aos filhos que, no silêncio da noite, sem retardo, dali retirassem a parte do corpo do mártir e a entregassem ao irmão dela, Padre Paulo Manoel Barboza, pároco da igreja de Nossa Senhora do Rosário, a fim de que o religioso a colocasse atrás do altar daquele templo, dentro de um caixote com sal grosso, para que ali, sigilosamente, permanecesse, o que efetivamente ocorreu, até a morte da fazendeira. E, para perpetuar o seu amor por Joaquim José da Silva Xavier, rogou Dona Marianna que, ao falecer, fosse a perna de seu amado sepultada junto ao corpo dela.

Esse fato ficou vagando no tempo por quase duas centúrias em segredo confessional absoluto, vindo somente a tornar-se do conhecimento geral a partir das pesquisas efetuadas no Livro Tombo da Matriz de Bom Jesus do Matosinho (arquivo da Paróquia de Magé), determinada, à ocasião, pelo diligente prefeito de Paraíba do Sul, Sr. Nelson Espíndola de Aguiar, quando, então, se comprovou o sepultamento do membro inferior esquerdo do mártir no mesmo ataúde de Dona Marianna Barboza, conforme seu pedido.

Vejamos o texto da página do Livro Tombo do Santuário de Bom Jesus do Matosinho, que serviu de ponto de partida para as buscas, na localidade de Inconfidência, dos restos mortais de Joaquim José da Silva Xavier.

 

11o

“No sobrado da Fazenda de Cebolas que ainda hoje existe, e que pertence a Dona Marianna Barboza de Mattos, viúva de Francisco Gonçalves Teixeira, hospedava-se sempre em suas viagens para a Corte, Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, o qual era muito amigo de toda família Barboza, e quando morto no Rio de Janeiro, seus membros esquartejados foram mandados para serem expostos nos lugares mais públicos da estrada de Minas, para servir de terror aos futuros conspiradores, coube também a Capella de Cebolas uma perna, que esteve exposta muitos dias, durante as quaes depois da Missa, um Comissário de Polícia em nome do Vice-Rei D. Luiz de Vasconcellos dava vivas a Rainha reinante D. Maria 1a, e morte aos Inconfidentes.”

12o

“Passados já muitos dias e quando a perna já estava em avançada decomposição, os filhos de D. Marianna Barboza, consternados por tão hediondo espectaculo, em horas mortas da noite, tiraram do poste a perna, e foram sepultá-la dentro da Capella, que hoje serve de Matriz, junto ao Altar de N. Senhora do Rozário, assistindo a essa cerimônia o Pa Paulo Manoel Barboza, irmão de D. Marianna Barboza, e tudo isso feito sobre o maior segredo possível, porque a mesma Família Barboza, tinha sido denunciada como cúmplice do Tiradentes, e foi acareada na devassa, e da qual se livrou.”

13o

“Quando o infeliz Tiradentes em suas viagens ao Rio de Janeiro, tratava da conspiração, estando em Cebolas, fez ahi um voto ao Divino Espirito Santo, que então se festejava com muita devoção nesta Igreja, de dar uma corôa de prata, e sceptro para servir aos imperadores da festa, cuja coroa depois desaparecera, sem saber hoje qual o seu destino; e o objectivo do seu voto, o feliz êxito da Inconfidência.”

14o

“Na Fazenda das Pedras, hoje pertencente ao Sr. Tenente Antonio Francisco Nunes, junto ao rio que outrora se chamava de Boa Passagem, houve também uma Capella que a tradição aponta sob a invocação de N. Senhora da Conceição, e que numa epocha, isto é, no meiado do século dezoito, pertencera ao Capitão Francisco da Cruz Alves, que tivera sua Fazenda por carta de sesmaria, e por sua morte, os seus herdeiros abandonaram-na por estéril, e pelo motivo de ter-se mudado a antiga estrada que vindo do Rio da Cidade, transpondo a Serra das Araras, que chamam Maria Cumprida passava em frente à Fazenda das Pedras e que depois mudara para a Fazenda dos Correias, passando pelas da Olaria, Sumidouro, tornando a encontrar-se com a antiga na Fazenda do Secretário. Hoje acha-se extinta sua Capella.”[8]

Com a confirmação do valioso achado, ao inteirar-se do fato, o então Governador do Estado do Rio de Janeiro, Sr. Raymundo Padilha, sobremodo sensibilizado, determinou a construção, na localidade de Cebolas, do prédio do Museu Sacro Histórico, que compõe o conjunto arquitetônico Tiradentes, para a guarda daquela relíquia, solenemente inaugurado no dia 21 de abril de 1972.

Desse modo, ficou revelada a manifestação do amor sublime e puro daquela campesina ao não permitir que a voragem do tempo consumisse, como determinou a Sentença Régia, os restos mortais de nosso mártir. Serviu, outrossim, para transformá-la em verdadeira heroína, levando a quem hoje visita o monumento erigido em Cebolas a compreender a grandeza do seu amor pelo patrono cívico da nossa Independência.

Assim, cremos haver, sucintamente, dado nossa colaboração para deslindar a descendência do protomártir de nossa Indepen­dência, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

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Referencias Bibliográficas

CÂMARA DOS DEPUTADOS – Autos da Devassa da inconfidência Mineira – Volumes 1, 8 e 9 Brasília, DF, 1976.

CAMILO, João. “História de Minas Gerais”, v. 3. ed. Difusão Paname­ricana do Livro. Belo Horizonte MG.

FOUCAUT, Michel. “Vigiar e punir: a ostentação dos suplícios”, 27. ed. Editoras Vozes: Petrópolis, RJ, 2009.

GÓIS, Carlos. “História da Terra Mineira”, 2. ed. Tipografia Beltrão: Belo Horizonte, 1914.

HURIAM, Eduardo Arantes. “A Tortura como crime próprio”, Juarez de Oliveira: São Paulo, 2008.

JUNIOR, A. de Lima. “Capitania das Minas Gerais”, Ed. Itatiaia: São Paulo, SP, 1978.

PINTO, G. Hércules. “A Vida de Tiradentes”. Editora Alba Ltda.: Rio de Janeiro, 1962.

SANTOS, José Felício dos. “Memórias do Distrito Diamantino de Serro Frio”. Livraria Itatiaia Editora Ltda.: Belo Horizonte, 1976.

SANTOS, Lúcio José dos. “A Inconfidência Mineira”. Imprensa Oficial: Belo Horizonte, MG, 1982.

SANTOS, Miguel. “Tiradentes, Patrono da Nação Brasileira”.

VASCONCELLOS, Diogo L. A. P. de. “História Média de Minas Gerais”. Ed. Instituto Nacional do Livro. Imprensa Nacional: Rio de Janeiro, 1948.


[1] “Altos da Devassa da Inconfidência Mineira”, v. I, pág. 145, Câmara dos Deputados – Brasília, Distrito Federal, 1976.

[2] “A Inconfidência Mineira”, pág. 34

[3] In “A vida de Tiradentes”, pás. 57/58 e 97/98, 1962.

[4] Notas 1, 2.1, pág. 125, v. I. “Autos da Devassa da Inconfidência Mineira”. Câmara dos Deputados, Brasília, DF, 1976.

[5] Notas 1 e 2.1, pág. 58, v. 9. “Autos da Devassa da Inconfidência Mineira”. Câmara dos Deputados, Brasília, DF, 1976.

[6] Notas 19 e 21, pág. 57, v. 9. “Autos da Devassa da Inconfidência Mineira”, Brasília, 1977.

[7] Pág. 125, 145, v. I, “Autos da Devassa da Inconfidência Mineira”,  Brasília, 197

[8] In “Tiradentes em Paraíba do Sul”, 5. ed. 21/4/2003.