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Transportes: iniciativas que podem aperfeiçoar o setor

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(Matéria originalmente publicada na edição 109, 08/2009)
 
Os pontos e itinerários dos ônibus na cidade e na Região Metropolitana do Rio de Janeiro estarão disponíveis, a partir de setembro, a todos os usuários na Internet. O anúncio sobre o novo serviço foi feito pelo Presidente Executivo da Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor), Lélis Marcos Teixeira, durante palestra no V Seminário – Questões Jurídicas Relevantes no Transporte Coletivo. O evento foi promovido pela Fetranspor em parceria com a Escola da Magistratura do Estado do Rio (Emerj), entre os dias 6 a 9 de agosto último, em Mangaratiba. Participaram juízes, defensores públicos, advogados e membros do Ministério Público.
 
Lélis Teixeira explicou que a divulgação desses dados se tornará possível a partir de uma parceria com o Google, desenvolvida para sanar uma necessidade dos usuários de ônibus no Estado, identificada por meio do serviço de atendimento ao cliente da Fetranspor. A Federação recebe, em média, 1.500 ligações por dia. Oitenta por cento delas, visam à obtenção de informações sobre paradas e percurso das linhas. O mapeamento permitiu esclarecer o porquê de tantas dúvidas: ao todo foi constatado que 41,62% dos pontos de ônibus não possuem placas. Deste total, 29,83% também não contam com abrigos.
 
“O call center nos orienta a tomar decisões. O que fizemos a partir daí? Desenvolvemos um programa chamado Vá de Ônibus, em que, em conjunto com o Google, mapeamos as linhas e todos os pontos da região metropolitana. O Google colocará isso no ar a partir de setembro. O usuário, de qualquer lugar, poderá acessar essas informações para saber, por exemplo, como ir de Copacabana à Tijuca: qual é o meio mais rápido e o mais econômico, qual oferece menos baldeações. Isso resultou dos 80% das ligações feitas para pedir informações”, disse Lélis Teixeira, afirmando ainda, aos operadores jurídicos presentes no seminário, que a criação de canais de comunicação com os usuários tem sido uma política da Fetranspor. Ele citou como exemplo o chat que a entidade lançou para que o cidadão tenha mais um meio para fazer sugestões, reclamações ou elogios.
 
Essa não é a única iniciativa desenvolvida pela Fetranspor para melhorar as condições de transporte no Estado. Outra que se destaca é a que visa o treinamento de quem atua nesta área. Mais uma vez a percepção acerca desta necessidade surgiu das manifestações dos usuários. Lélis Teixeira contou que o setor emprega hoje 100 mil profissionais.
 
“Por meio da central de relacionamento, passamos a ter maior ideia do que pensam nossos clientes, quais são as críticas que eles têm ao setor do transporte. Vimos que a maior parte delas dizia respeito ao comportamento do motorista. Mais de 84% das reclamações eram por causas de ultrapassagem do sinal vermelho, não ter parado no ponto ou tratamento inadequado às pessoas, sobretudo aos idosos”, afirmou o Presidente da Fetranspor.
 
“O motorista pode ter um ônibus zero km, mais moderno e com a mais nova tecnologia. O comportamento dele, ou seja, a postura que ele terá perante a legislação de trânsito e o cliente dependerá de uma maior educação”, completou.
 
Diante da necessidade de maior capacitação, a Fetranspor assumiu o desafio de treinar todos os 100 mil profissionais que atuam no setor. Para isso, criou a Universidade Corporativa do Transporte. Também firmou uma parceria com a Fundação Getúlio Vargas, por meio da qual oferece um curso específico para motoristas. Já foram treinados 11 mil, de um total de 36 mil motoristas.
 
“É preciso haver uma formação adequada, para que haja um mínimo de qualidade no serviço. Em função de a educação ser uma deficiência em nosso País, entendemos que deveríamos oferecer uma qualificação complementar, não apenas por meio do Sistema S (Sest/Senat) ou de cursos promovidos pelas escolas”, afirmou Lélis Teixeira. “Queremos ter na rua pessoas que respeitem as pessoas e prestem um serviço de qualidade”, acrescentou.
 
A capacitação não se restringe apenas a motoristas e cobradores. O Presidente da Fetranspor afirmou que também houve preocupação de qualificar quem está à frente do setor. Nesse sentido, foi criado um curso de pós-graduação em transporte destinado a quem ocupa cargos de chefia. “É para dar treinamento às lideranças, diretores e gerentes. Quem ocupa hoje esses cargos? Geralmente economistas e engenheiros, que não têm formação específica em transporte. Então, sanamos isso”, frisou Lélis Teixeira, destacando ainda o curso de marketing voltado para essa área.
 
Ele ressaltou que o objetivo da criação deste curso não é vender o serviço, mas promover a mudança de foco dos trabalhos internos das empresas, de modo que possam pensar no cliente. “A universidade é uma face menos conhecida do transporte, mas muito importante”, disse.
 
Números que impressionam
Segundo Lélis Teixeira, pensar a melhoria do transporte coletivo é uma necessidade. “A nossa missão é desenvolver o transporte coletivo. Temos um planejamento estratégico renovável anualmente, em que procuramos repensar o transporte, a empresa e a partir disso traçar planos de ação para que possa haver o desenvolvimento do transporte coletivo no sentido de melhorar a mobilidade e a qualidade de vida das pessoas. É fundamental a organização voltada para essas realizações”, contou.
 
No seminário, ao falar sobre o funcionamento do transporte, Lélis Teixeira justificou essa necessidade com números que demonstram a grandiosidade e importância do setor. Ele lembrou que, por mês, os meios coletivos são responsáveis pelo transporte de 135 milhões de pessoas. Em cidades com mais de 60 mil habitantes, a estimativa é de que sejam realizadas mais de 170 milhões de viagens por dia.
 
No que diz respeito a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, são mais de 9 milhões de viagens diárias feitas pelo transporte coletivo. O município conta com 47 empresas de ônibus, enquanto no Estado contabiliza 238. A frota hoje em circulação chega a 20.500 veículos — sendo 85% destes para atender somente a Região Metropolitana.
 
“O Rio tem uma das malhas de transporte mais diversificadas e amplas do País, por isso permite maior flexibilidade ao usuário, que pode realizar uma viagem apenas pegando um ônibus. Ou seja, o cidadão não precisa pegar mais três ou quatro conduções. Ele consegue fazer mais viagens com menos baldeações”, disse.
 
De acordo com ele, a malha rodoviária fluminense tem 22.965 quilômetros, que não são modificados na mesma medida em que se registra aumento no número de viagens, “daí uma das causas cada vez mais frequentes de congestionamentos”. “É muita coisa, foge aos padrões internacionais. Aí vem a responsabilidade, que independe de nossas escolhas: faltou um planejamento urbano. Ou seja, ações do Estado e dos municípios com vistas a maiores investimentos no setor de transporte”, criticou.
 
De acordo com Lélis Teixeira, contribui também para o caos no trânsito o uso crescente de meios de transporte individuais. Atualmente os carros são responsáveis pela mobilidade de três milhões de pessoas — número que representa apenas um terço das que fazem uso do transporte coletivo. “Quem tem mais renda e, portanto, um automóvel, ocupa mais espaço do que quem não tem renda”, constatou.
 
Além do transporte terrestre, há as barcas, com quatro linhas e 23 embarcações. O Metrô tem duas linhas, a Um e a Dois, que interligam bairros da Zona Sul à Norte, sendo este último até a Pavuna. São 29 composições apenas para atender 33 estações, em uma média de 500 viagens por dia. A esses meios, soma-se ainda o Trem, com 89 estações distribuídas em uma malha de 220 quilômetros. Esse meio é responsável pelo transporte de 550 mil pessoas por dia.
 
De acordo com Lélis Teixeira, se somados, os ônibus municipais e intermunicipais são responsáveis por 74% do transporte de passageiros. O transporte alternativo fica com 16%, enquanto o Metrô e o Trem, com 3% cada um. “É preciso maior investimento no transporte de massa por trilhos”, afirmou o Presidente da Fetranspor.
 
Os investimentos se justificam ainda mais diante da arrecadação promovida pelo setor. Anualmente, são mais de R$ 2 bilhões pagos em impostos. “Hoje o setor de transporte é um dos grandes arrecadadores para o governo federal, estadual e municipal. Isso nos traz uma preocupação, porque esses impostos são retirados das tarifas. Com a desoneração tributária, poderíamos ter uma tarifa 45% menor. Ou seja, uma tarifa de R$ 2 poderia certamente ser reduzida para R$ 1,20, o que beneficiaria a população. Procuramos conscientizar, não em benefício do setor, mas dos usuários, sobretudo de baixa renda, que não têm recursos e que precisam sair para procurar emprego ou acesso à saúde”, afirmou.
 
Conforto e bem-estar
Diante dos números, conforto e bem-estar se tornaram as palavras de ordem nas iniciativas em prol do aperfeiçoamento do serviço. Em agosto último, a Fetranspor inaugurou ônibus com GPS, TV a bordo, câmaras de segurança interna e externa, rede wi-fi (internet sem fio) e aviso sonoro para informar sobre os pontos de paradas. Os novos veículos atenderão, nesse primeiro momento, usuários da Barra da Tijuca e Zona Sul que se deslocarem para o Centro.
 
O RioCard também é outro projeto que se destaca. “Temos uma empresa com 350 funcionários que foi instalada para o desenvolvimento do transporte. O mais visível é a emissão do RioCard. Temos hoje, em conjunto com a operadora Oi, o gerenciamento de 1,5 milhão de cartões de gratuidade da Secretaria de Estado da Educação”, explicou Lélis Teixeira, comentando que o objetivo é aperfeiçoar ainda mais esse serviço.
 
“Lançamos cartões em parceria com a Visa e Mastercard. A ideia é massificar o uso dos cartões, facilitando a vida do usuário, que ao invés de ter de três ou quatro cartões, poderá ter apenas um, tanto para o transporte como para a realização de suas atividades econômicas no dia a dia. É um sistema moderno, que tem como referência o que é utilizado em Hong Kong”, explicou Lélis Teixeira. “Nosso Estado é o único com a implantação de sistemas inteligentes no transporte, inclusive com a tecnologia trazida de outros países”, acrescentou ainda.
 
A Fetranspor também tem desenvolvido iniciativas na área social. Promover a acessibilidade da população é uma delas. Lélis Teixeira contou que as empresas do Rio resolveram, já nesse ano, adequar os veículos em circulação, trocando-os, inclusive, nos casos em que são necessários. Em maio último, foram inaugurados 500 ônibus adaptados, com elevadores para locomoção de cadeirantes. De acordo com o Presidente da Fetranspor, desde então, foram inaugurados mais 314 veículos. Os investimentos realizados até agora são estimados em mais de R$ 15 milhões.
 
“Nossa meta é a de que, até 2011, todos os ônibus sejam adaptados. Estamos resgatando uma dívida para com a sociedade. Embora sejam 7%, aqueles que têm dificuldade são pessoas que precisam ser incluídas. É uma questão de conscientização. Uma cidade que exclui uma parcela de sua população não é feliz”, afirmou.
 
A entidade também encampou uma série de outros projetos, entre os quais o que visou à erradicação da Dengue e à disseminação da Lei Seca. Também doou cinco ônibus ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), para o desenvolvimento do programa Justiça Itinerante, por meio do qual leva-se o Judiciário a municípios que não possuem comarcas. Foram beneficiados ainda o Tribunal Regional Eleitoral, com três veículos, e a Defensoria Pública, com um.
 
Chama atenção ainda o programa na área ambiental. O setor é responsável pelo consumo de mais de 50 milhões de litros de óleo diesel. Diante disso, a Fetranspor promoveu — em conjunto com a Petrobrás, a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema) e a Secretaria Estadual do Meio Ambiente — projeto para avaliação dos veículos atualmente em circulação. Para isso, comprou 16 unidades móveis com laboratórios próprios para fiscalizar a emissão de poluentes.
 
“Assinamos o convênio selo verde e assumimos as auditagens dos nossos veículos, no que tange à questão ambiental. Com isso, diminuímos a emissão de gases, o consumo de diesel e melhoramos o desempenho da frota. Não há ônibus com fumaça preta no Estado do Rio”, disse.
 
De acordo com Lélis Teixeira, desde 1997, quando o programa ambiental teve início, já foi possível a redução acumulada de 930 mil toneladas de CO2 e 20.400 toneladas de material particulado. A iniciativa também possibilitou a economia de mais de 50 milhões de litros de diesel por ano, por meio da manutenção adequada dos veículos, e a utilização de combustível alternativo.
 
“Ainda, mesmo que se faça um programa ambiental e de mudança de combustível, acabaremos emitindo poluição. Por isso, resolvemos neutralizar o que foi emitido com replantio de árvores para que haja o maior equilíbrio. No primeiro ano, plantamos 120 mil mudas, para termos o desenvolvimento do transporte sustentável”, afirmou.
 
Principais desafios
Segundo Lélis Teixeira, são muitos os desafios para o melhor desenvolvimento do setor. “Quais são os nossos principais desafios? Um deles está relacionado ao fato de o transporte no País ter registrado queda de 28,8% nos últimos 10 anos. Temos que trazer aquele usuário que deixou de usar o transporte coletivo. Isso nos permitirá diminuir a poluição, o número de carros nas ruas e os congestionamentos. Teremos uma cidade melhor”, ressaltou.
 
Outra questão a ser enfrentada está relacionada à concorrência com o transporte alternativo, à carga tributária e à segurança pública. Esse último impressiona. De acordo com ele, são registrados, em média, 692 assaltos por mês.
 
“Estamos em contato permanente com a Secretaria de Segurança, onde passamos informações dos locais com maior incidência e o tipo do assalto. Também tivemos muitos problemas de incêndios. Qualquer problema que haja em uma comunidade, o tráfico queima o ônibus para chamar a atenção. Tivemos prejuízo de 76 milhões, desde 2000, com os ônibus queimados e depredados. Somente neste ano já foram 32 veículos destruídos”, lamentou.
 

 
Da Redação