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A liberdade, Sancho…

5 de maio de 2005

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Em 1605 foi publicada, em Madri, “El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha”, obra escrita por Miguel de Cervantes Saavedra. Nesse mesmo ano, centenas de exemplares chegaram ao México e à Colômbia, e daí ao Panamá e ao Peru. O que não havia conseguido Cervantes conseguiu-o Quixote: chegar à América. Cervantes sempre desejou embarcar para a América e, quem sabe, “Dom Quixote” teria sido escrito no Novo Mundo. Desde seu nascimento, “Quixote” é uma obra intrinsecamente enraizada na cultura da América Ibérica, da América que fala espanhol e português.

Em 2005, comemoramos os 400 anos da publicação de “Quixote”, a novela mais famosa e universal de toda a história. Essa data é celebrada na Espanha, nos países em que se fala espanhol e em todos os países do mundo, sobretudo da Europa e da América, onde “Quixote” é um referente cultural, um autêntico patrimônio universal. Também a celebramos no Brasil, país onde “Quixote” é particularmente querido. Recordemos que a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro guarda uma das melhores coleções públicas de edições da obra; que em São Paulo está uma das melhores coleções privadas; que “Quixote” é um ícone para diversas instituições: destaco a figura de Quixote como símbolo da “Revista Justiça e Cidadania”.

A obra de Cervantes e o Quixote são uma referência para os estudos hispânicos no Brasil. Para a história da arte do Brasil, recordo as famosas gravuras que Portinari realizou para ilustrar “Quixote”. Para programas de inclusão social através da cultura, onde crianças refletem, brincam e criam, a partir da figura de Quixote. Chama a atenção o grande número de edições da obra publicadas no Brasil, algumas com a colaboração de grandes escritores e críticos brasileiros.

A presença da Espanha no Brasil e as estreitas relações entre os dois países também lembram Cervantes e Quixote. Não nos esqueçamos de que, em 1605, a Espanha e o Brasil estavam integrados na união das duas coroas. As culturas artística e literária eram as mesmas: o humanismo barroco. E isso, em virtude do esforço conjunto da Espanha e de Portugal, que restituíram a Bahia ao Brasil, na famosa ação encabeçada por Fradique de Toledo, em 1625, da qual Cervantes teria se orgulhado, e afirmado, como disse de Lepanto em “Quixote”: “A mais alta ocasião que viram os séculos passados, os presentes, e não esperam ver os futuros”.

Séculos mais tarde, a presença educativa da Espanha no Brasil recebe o nome de Colégio Miguel de Cervantes, e a presença cultural, o nome de Instituto Cervantes, além dos numerosos centros da colônia espanhola, que se sentem identificados com Cervantes.

Na Espanha, nos outros países ibero-americanos e também no Brasil serão programados inúmeros eventos para celebrar o quarto centenário de “Quixote”. Em 23 de abril, particularmente, comemoramos o dia das Letras Espanholas. É a data da morte de Cervantes, um dos grandes nomes da literatura em língua espanhola, como Paz, Neruda e Borges. Esses nomes, junto aos grandes nomes da literatura em língua portuguesa, Camões e Machado de Assis, constituem o legado literário em espanhol e português na Europa e na América. Recordemos que Cervantes conhecia o português, e Camões escreveu também em espanhol. É o Renascimento ibérico, que irradia seus ideais pelo Novo Mundo, a América.

Quixote encarna os ideais do Renascimento ibérico: a perseguição do ideal, a ficção e a vida, o humanismo, a modernidade, a liberdade, ideais esses que inspiraram a criação do Novo Mundo e, por isso, enraizados na cultura comum da Europa e da América e partilhados por todos os países ibero-americanos. Ideais que ainda hoje nos guiam e unem. Estou seguro de que a lembrança de Quixote vai contribuir, nessas datas, para renovar o extraordinário elo de simpatia entre o povo brasileiro e o espanhol. Uma simpatia que se enraíza não só em uma história comum ou em alguns interesses econômicos comuns, mas, sobretudo, nesses ideais comuns. Ideais compartidos por todos os povos ibero-americanos.

Desses ideais compartilhados, a liberdade é mais importante para Quixote, como lembra sua frase universalmente famosa: “A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que aos homens deram os céus; (…) pela liberdade, assim como pela honra, pode-se e deve-se aventurar a vida…”.

A Espanha e o Brasil compartilham hoje um espaço de justiça e liberdade, que justifica a associação estratégica que ambos os países mantêm e que se plasma, entre outras coisas, em ambições tão dignas do Quixote, como o esforço comum por uma ordem internacional mais justa, orientada, antes de tudo, para uma luta contra a fome e a pobreza. Aqui vão, portanto, estas palavras como uma homenagem a todos os que assumem a aventura do Quixote.

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