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Marcelo Moutinho: encantado pelas palavras

1 de julho de 2015

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Foto: Leo Aversa - Crédito obrigatório. No limiar entre o conto e a crônica; na fronteira entre o Jornalismo e o Direito. É assim que vive o escritor e superintendente de Comunicação da OAB-RJ, com talento e maestria para brilhar em dois mundos nem tão distantes assim.

Tudo começou com as histórias em quadrinhos, a clássica primeira leitura de muitos apaixonados por livros. Depois, encantou-se com “Flicts”, de Ziraldo e, um pouco mais adiante, com a coleção Vagalume, célebre por formar muitos jovens leitores. Mas o carioca de Madureira Marcelo Moutinho foi bem além quando sentiu a necessidade de começar a criar suas próprias histórias.

Aos 43 anos de idade, o escritor e jornalista tem quatro livros publicados – Na dobra do dia (Rocco, 2015), A palavra ausente (Rocco, 2011), Somos todos iguais nesta noite (Rocco, 2006) e Memória dos barcos (7Letras, 2001) –, além de organizar e assinar a coautoria de diversas antologias. Ele também acumula diferentes experiências no meio literário, como curador, palestrante, articulista…

Nesta entrevista, o superintendente de Comunicação da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Rio de Janeiro (OAB-RJ), fala de literatura, influências, pre­ferências e também sobre a cidade, as pessoas e os lugares do Rio de Janeiro – que tanto influenciam sua obra.

Revista Justiça & Cidadania – Quais foram suas principais inspirações no hábito da leitura? Qual a primeira obra que te cativou?
Marcelo Moutinho – O primeiro livro de que me lembro é “Flicts”, do Ziraldo. Foi uma das irmãs que leu para mim, porque eu havia discutido com minha mãe e estava triste. De pronto, me identifiquei com aquela cor que não encontra lugar no mundo, que não está no sol, no céu, nem na caixa de lápis de cor. Talvez essa identificação tenha acontecido por eu estar, à época, entrando naquela fase em que o sentimento de pertencimento ainda é frágil, débil.

JC – Quando você sentiu a necessidade de escrever, criar histórias?
MM – Desde pequeno. Fui fazer a faculdade de jornalismo justamente pela necessidade de me expressar em palavras escritas. A literatura veio depois.

JC – Qual a importância do bairro de Madureira – e do subúrbio carioca em geral – na sua formação como escritor e jornalista?
MM – Total. Nasci e passei a infância em Madureira. A ambiência do subúrbio está impregnada na minha vida de forma inexorável. O curioso é que só fui compreender a importância dessa ambiência, e das experiências que tive por lá, mais tarde. Em meu primeiro livro de contos, por exemplo, não há a cor local que apareceria nos demais. Há um marco da mudança: a morte de meu pai. Fui inventariante, o que me levou novamente a Madureira, a remexer em papéis antigos que, como madeleines, traziam inteiro na boca o gosto da infância. Reencontrei as ruas onde brincava, o sobrado da minha bisavó, o Império Serrano [escola de samba] que emocionava tanto o pai. Em “Somos todos iguais nesta noite”, lançado em 2006, isso começa a aparecer. Passo a situar parte das histórias no subúrbio, inventar personagens oriundos da classe média baixa, esse segmento tão ausente da literatura brasileira contemporânea. Parece que vivemos entre dois polos: livros que tratam do universo das favelas, eufemisticamente chamadas de comunidades, e livros que abordam os dilemas da alta burguesia. Como se o lugar do meio entre esses dois mundos não existisse, ao menos no âmbito da ficção brasileira.

JC – Como nasceu a coletânea de crônicas “Na Dobra do Dia”? Há algum traço comum a todas as histórias?
MM – O livro nasceu quando percebi que, nos textos que escrevo semanalmente para minha coluna no site Vida Breve, havia algumas interseções. O grande Antonio Candido afirmou, em estudo clássico, que a crônica não foi feita para durar, mas muitas vezes permanece, torna-se atemporal. Eis seu paradoxo. Tive isso como premissa, escolhendo aqueles textos que, longe da quentura do acontecimento, parecem continuar iluminando o cotidiano em suas insuspeitadas belezas, entre assombros e delicadezas. Na primeira unidade, “Pequenos amores da armadilha terrestre”, reuni as crônicas mais íntimas, ligadas a casa, a família. Em “As ruas pensam”, segunda fração, estão os escritos com o pé na rua, que abordam lugares e personagens da cidade. As frases que servem de título às duas partes citam Paulo Mendes Campos e João do Rio, dois cronistas que souberam, cada um à sua maneira, vislumbrar transcendência no que se sugeria ordinário.

JC – Quais são os cronistas que você mais admira? E por quê?
MM – Além de Paulo Mendes Campos, João do Rio e Rubem Braga, citaria dois cronistas da minha geração – Antonio Prata e Luís Henrique Pellanda. E também Machado de Assis. Certa vez, Machado escreveu que a crônica nasceu de uma conversa fiada entre duas vizinhas sobre o calor carioca. Pois ele conseguiu transformar essa conversa em gênero literário. É o pai da crônica brasileira.

JC – Machado de Assis, além de ser responsável por obras eternas, como “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, era reconhecidamente um ótimo contista. Com qual faceta do escritor você se identifica mais?
MM – Machado conseguiu a rara proeza de ser genial nos três gêneros. É ótimo contista e cronista, e genial romancista.

JC – A sua escolha pela crônica seria uma forma de unir o jornalista ao escritor? E onde se encaixaria o Direito nisso tudo?
MM – É e não é. Porque ao escrever crônica me permito viagens ficcionais que, no jornalismo, seriam impróprias. O Direito, no meu caso, está mais próximo do jornalismo do que da crônica. Isso por conta de meu ofício cotidiano no Departamento de Jornalismo da OAB-RJ.

JC – Aliás, como surgiu o seu envolvimento com o meio Jurídico?
MM – Decidi estudar jornalismo aos 45 do segundo tempo. Até dois meses antes do vestibular, a ideia era cursar Direito. Por essas coincidências da vida, acebei indo estagiar na Caarj [Caixa de Assistência dos Advogados do Estado do Rio de Janeiro], o que me levaria, depois, à OAB-RJ. Na Ordem, fui de estagiário à repórter, de repórter a editor, de editor a superintendente de Comunicação. São 22 anos de OAB-RJ.

JC – Você já pensou em escrever uma crônica inspirada na sua vivência no mundo jurídico?
MM – Até hoje, não. Mas a crônica, de modo geral, reflete as experiências do cronista em seu dia a dia. De modo que é natural que, uma hora ou outra, esses dois mundos se encontrem. Mas há textos que remetem ao mundo jurídico. Isso aconteceu há poucas semanas, quando escrevi sobre os linchamentos virtuais, infelizmente cada vez mais disseminados na internet, salientando a importância do direito de defesa e o perigo das pré-condenações. Na verdade, era mais um artigo do que uma crônica.

JC – Em sua opinião, qual caso judicial, dos muitos que vêm ganhando as manchetes dos jornais nos últimos anos, mereceria um conto?
MM – Vários. Mas, em geral, as histórias mais interessantes para serem transformadas em conto não estão nas manchetes, e sim nos cantos de página. São aquelas que tratam de dramas humanos, da vida ao rés-do-chão, para lembrar mais uma vez de Antonio Candido. A crônica e mesmo o conto gostam das pequenezas.

JC – Você participou de duas coletâneas musicais e organizou uma coletânea de ensaios chamada Canções do Rio – A cidade em letra e música (Casa da Palavra, 2010). Qual a importância da música na sua formação e no processo de criação literária?
MM – Total importância. Sempre digo, para espanto de alguns colegas, que gosto mais de música do que de literatura. Então não só procuro aprender com a poética dos compositores, como também de cruzar as duas artes, utilizando canções como inspiração para minhas histórias. Já escrevi, por exemplo, contos inspirados nas músicas “Para ver as meninas”, do Paulinho da Viola, “Vento no litoral”, da Legião Urbana, e “Something”, de George Harrison.

JC – Como você tem visto a influência da internet, tanto na sua geração de escritores quanto na de novos leitores?
MM – A internet foi fundamental para que as novas gerações travassem contato, trocando textos e experiências. Muitos dos novos autores começaram a carreira publicando seus textos em blogs. É um fenômeno que, tenho certeza, merecerá estudos no futuro, porque permitiu o reaquecimento de uma vida literária com tudo que a caracteriza: livros ruins e livros bons, críticas justas e críticas demolidoras, debates importantes e polêmica vazias. Além de picuinhas entre os escritores, claro. As novas tecnologias ajudaram, também, a baratear a produção de impressos. A dimensão das mudanças que a internet trouxe é tamanha que somente com o distanciamento temporal podermos ter uma ideia mais precisa. Não tenho dúvidas, contudo, de que poderemos assinalar um “antes” e um “depois” bem demarcados.

JC – Pesquisa recente feita pela Fecomércio-RJ mostrou que sete em cada dez fluminenses não leram um livro sequer em 2014. Por outro lado, temos o exemplo da vizinha Buenos Aires, cidade com o maior número de livrarias no mundo (25 para cada 100 mil habitantes), enquanto no Brasil tivemos redução de 12% das nossas, segundo dados da ANL (Associação Nacional das Livrarias), de 2013. Ainda que seja improvável virar esse jogo, é possível, ao menos, diminuir essa goleada imposta por nossos hermanos? Como?
MM – Sim. Mas é um cenário de muita complexidade para ser analisado em apenas algumas linhas de resposta. Penso que é possível atrair o jovem para a literatura, mas que isso não se deve dar com estratégias de pressão. Pelo contrário. É importante, de todo modo, ter em vista que a descoberta da literatura é absolutamente individual. O que “Flicts” significou para mim quando li, ainda bem pequeno, será diferente do que significará para outros. Qualquer política de estímulo à leitura que se queira eficaz deve ter isso em mente.

JC – Quais as principais medidas que devem ser tomadas no País para que haja um maior interesse na leitura, sobretudo entre crianças e jovens?
MM – Apresentar a leitura não como um fardo, uma obrigação, e sim como uma possibilidade de transcender o espaço do dia a dia. Sedução, em vez de pressão.
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