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A canção no corrediço da escuridão

5 de setembro de 2004

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Na Comarca de Cambuci, localizada no noroeste do Estado do Rio de Janeiro, ocorrência inusitada vem de ser registrada, num procedimento possessório entre vizinhos campesinos em torno de servidão de passagem e de luz elétrica, em agreste e montanhosa região.

O Magistrado local, de estilo simplório e objetivo no desate dos conflitos de seus jurisdicionados, defensor da preservação do meio ambiente, da fauna, flora e florestas, tem por norme se deslocar para os locais mais das testilhas com envolvimento de terras, fazendo-o inspecções pessoais, ainda que coadjuvado de experts, logrando, não raro, com sua imparcial e serena autoridade, soluções pacificadoras, eliminando sulcos e rivalidades. É lição do bom senso, a paz e a justiça entre as pessoas, dí-lo.

Há anos, desde que assumiu a titularidade da respectiva Comarca, agora cumulativamente com os Juizados Especiais do promissor Município de São José de Ubá, adquiriu uma pequena propriedade rural, nas cercanias da cidade ali residindo com sua família.

Com a sua pauta de trabalhos rigorosamente cumprida, e tudo em breve espaço temporal, gabinete de portas abertas a quantos buscam o anteparo do Judiciário, não fixa horários para os atendimentos, seja no Fórum, ou na sua residência, pois entende que o Juiz, a par da transparência de conduta e de seus atos, está a serviço dos seus jurisdicionados, elevando como uma mandatário da sociedade na vindicação dos direitos inerentes à cidadania, afirma-o e se põe à prova.

De terno e gravata cedo chega a sua cidadela de trabalho, não raro montado em um dos cavalos, ao diverso do automóvel. O Fórum local, antigo colégio público ampliado, situa-se no centro da cidade, com expressiva área livre, onde animais silvestres são apreendidos da comercialização e ali preservados. Cavalgar é a paixão do Juiz, todos o proclamam na região.

Agora, vem de revelar uma outra faceta da sua personalidade, até então ignorada e silenciosa: sua vocação à poesia.

Bem recente, realizando uma inspecção judicial, no preâmbulo mencionado, diversamente de uma ata lavrada por seu Escrivão, acompanhante da diligência, com as partes litigantes e a escolta do Juízo, optou por redigir em versos, de próprio punho, a respectiva ocorrência, contida na seguinte sonoridade:

ESTADO DO RIO DE JANEIRO

PODER JUDICIÁRIO

JUÍZO DE DIREITO DA COMARCA DE CAMBUCI

Proc. nº 4.704/02

AÇÃO DE RECONHECIMENTO DE PASSAGEM FORÇADA

Autor: ALVARINO DE SOUZA HERNANDES

Réu: ADERALDO RODRIGUES SANCHES . OUTROS

LAUDO DE INSPEÇÃO JUDICIAL

José Ricardo Ferreira de Aguiar

Aos 12 dias do mês de junho do corrente ano, a hora designada na audiência de conciliação realizada nestes autos, em 04/06/03, foi levada a efeito inspeção judicial requerida pelas partes naquele ato, tendo tal diligência transcorrido na forma como abaixo  se relata.

AO SAIR DO MEU COLCHÃO

E IR ATÉ O PORTÃO

DEPAREI-ME COM UMA EQUIPE DE PRONTIDÃO.

O PM EDUARDO DE PLANTÃO

O OFICIAL PAULO COM DISPOSIÇÃO

E OUTRO PM, ADERALDO, RÉU DA AÇÃO

QUE DEMONSTRAVA SUA GRANDE AFLIÇÃO.

ENFIM, ERA O COMEÇO DE UMA JUDICIAL INSPEÇÃO

QUE  FOI PURA EMOÇÃO!

DE MOTO, FOMOS PREPARAR OS ANIMAIS DE TRAÇÃO

POIS NÃO HAVIA OUTRA CONDUÇÃO

TRÊS MUARES E UM CAVALO ALAZÃO

SELADOS, PREPARADOS, FICARAM NA POSIÇÃO!

PELA ESTRADA AFORA

MUITA POEIRA NA PRIMEIRA HORA .

AO CHEGAR NA PROPRIEDADE DA AVERIGUAÇÃO

DE ALTITUDE FORA DO PADRÃO

ENCONTRAMOS ALVARINO, AUTOR DA QUESTÃO.

MONTADO EM SEU BURRICO, CARA DE CÃO

TENDO DEBAIXO DO ARREIO MUITO ALGODÃO

PARA NÃO ENCOSTAR O PÉ NO CHÃO.

EM SUA CASA , PEQUENA E DE SOBRENATURAL CONSTRUÇÃO

SUA ESPOSA, NA BEIRA DO FOGÃO

MOVIDO A LENHA E CARVÃO

TENDO AIPIM NA PANELA DE PRESSÃO

E COM MUITA EDUCAÇÃO

OFERECEU CAFÉ, BANANA, E MAMÃO

MAS ESTE JUIZ QUERIA RESOLVER A QUESTÃO.

A MONTARIA FICOU AMARRADA NO BANANAL

COM RESPIRAÇÃO FORA DO NORMAL.

A PÉ, PARTIMOS PARA UMA JORNADA SEM IGUAL

MAIS 500 METROS DE SUBIDA, TRILHA E DISCUSSÃO LABIAL.

CHEGAMOS NUMA INCRIVEL AREA TERRITORIAL

ONDE CAMALEÃO EXPLODE O PULMÃO

COBRA, TIGRE E LEÃO

DEVEM VIVBER EM COMUNHÃO

POIS O CONTATO COM O HOMEM ALI ESTÁ EM EXTINÇÃO .

LAGARTO É BICHO DE ESTIMAÇÃO

CAVALO MORRE DO CORAÇÃO

MAS PARA ESTE JUIZ NADA É CONTRAMÃO

PARA SE TER MAIOR EXATIDÃO

PERÍCIA É AO VIVO E NA LOCALIZAÇÃO!

E NAQUELA DENSA VEGETAÇÃO

RESIDE O “Sr. ZIM” JÁ COM OS SEUS “OITENTÃO”

QUE DECLAROU DE PÉ NO CHÃO:

“JUIZ PARA ESTE TIPO DE AVERIGUAÇÃO

SÓ O DA NOSSA REGIÃO

POIS MATO, TRILHA, CIPÓ E BRACHIARÃO

NADA CERCA O HOMEM DESTA JURISDIÇÃO

É UM DOUTOR SIMPLES E PIÃO

NEM NESTAS ALTURAS, AS PARTES CHEGAVAM À CONCLUSÃO

UM PARECIA O CHEIO DE RAZÃO DO BATALHÃO

O OUTRO, UM HOMEM DISPOSTO E CHEIO DE RAZÃO

PORÉM, DE REPENTE NO MEIO DO MATO, COMO UM CLARÃO,

APARECEU O VIZINHO MANOEL, COM O CAMINHO DA SOLUÇÃO.

NO MEIO DA MATA FECHADA,

SENTADO NUM TORRÃO

NUMA ASSENTADA, RASCUNHADA E IMPROVISADA

ESTE MAGISTRADO DEU SUA DECISÃO.

MANOEL PRECISA DE LUZ

ALVARINO TEM O TRANSFORMADOR QUE A CONDUZ

AQUELE PODFE DAR A SERVIDÃO

E ESTE A ENERGIA COM SEU PADRÃO

ENTÃO, SEM ABSOLVIÇÃO

MUITO MENOS CONDENAÇÃO

MAIS UM PROCESSO PARECE TER SOLUÇÃO.

COM UM POSSÍVEL ACORDO FIRMADO

NÃO NO AR CONDICIONADO

NEM ENTRE PAREDES, TRANCADO,

MAS NO LOCAL ESPECIFICADO COM SEU GRUPO ESPECIALIZADO.

A PÉ, DE MOTO OU A CAVALO,

UM JUIZ REALIZADO

SE VÊ RECOMPENSADO

POR VER SEUS JURISDICIONADOS

HUMILDES E NECESSITADOS

ANTES TRISTES E DESESPERADOS

AGORA FELIZES E APAZIGUADOS.

SE NÃO HOUVER PROVAS A PRODUZIR

DEVERÃO AS PARTES CONCLUIR,

E APÓS VIREM AOS AUTOS PARA DECIDIR.

INTIMEM-SE A SEGUIR.

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