Josephat Marinho – reverência a um mestre

5 de maio de 2002

Compartilhe:

A humanidade jamais se resignou a terrível punição a si imposta em face do pecado original – a explicação bíblica para a morte. Afinal, se os seres humanos foram criados a imagem e semelhança de Deus e se lhes foi dado o dom da inteligência, por que deveriam optar entre o conhecimento e a imortalidade? Por que o preço vergonhoso da ignorância haveria de ser pago pela permanência no paraíso, a metáfora religiosa para a felicidade? Não, nunca houve justificativa convincente o bastante para amainar o sentimento de frustração diante do que parece ser o único obstáculo verdadeiramente intrasponivel ao homem.

O infortúnio relacionado com o fim da existência foi o mote para que os romanos, as avessas, rogassem aos próprios inimigos uma impiedosa e assustadora praga: “Deus te de uma longa vida, para que possas enterrar todos os teus”. Vista por esse prisma, a imortalidade aparece como um pesado fardo, já que inevitável seria a amargura daqueles que teriam a saudade como onipresente companheira. Ainda assim, mesmo diante de tantas obviedades e do velho truísmo de que a morte e a única certeza, não ha jeito de assimilarmos com naturalidade a perda dos que nos são caros, mormente se vem súbita, trai­çoeira, sem nos haver preparado para tão traumatizante desventura. A perplexidade, então, como que agrava a dor já por si pungente, ate pela impotência com que fomos flagrados.

A irresignação mais ainda sobressai se tomba em pleno combate um daqueles valiosos guerreiros cuja obra, por maior e abrangente que seja, vis­lumbra-se para sempre inacabada, tal talento e as possibilidades do autor. E o que dizer se, ao lado de tantos atributos intelectuais, esse cavalheiro do bem, revestido de toda a honra e amparado indubitavelmente na virtude, dedicou a vida inteira a causa publica, visionário que foi desde o começo dos salutares efeitos da consolidação das liberdades democráticas no crescimento e grandeza de uma nação?

O diligente leitor por certo já sabe do que aqui se trata. O Brasil acordou, no ultimo domingo do mês de mar­ço, exatamente no dia do aniversario da revolução militar de 1964, com a surpreendente notícia do falecimento de um dos brasileiros que mais lutou pela consolidação, no pais, de um Estado Democrático de Direito.

Ante a perda de personalidades singulares como o mestre Josaphat Marinho, sói acontecer de as palavras se afigurarem insignificantes e de certas expressões, por irresponsável e inadequadamente usadas em outras ocasiões, perderem muito de sua força natural. Não obstante, em face de um cidadão do vulto do admirável ex-senador, de forma alguma será bastante dizer que a perda foi definitivamente irreparável. Sobretudo porque, em vida, o pais não lhe rendeu as homenagens de direito, o que talvez demonstre o quanto o povo brasileiro ainda carece de discernimento para reconhecer seus verdadeiros heróis e , no dia-a-dia, dar carbais provas de genuína gratidão. Diante da obra e da envergadura moral do emérito professor, do sábio jurista e do diferenciado político – poucos senadores houve igual -, cabe-nos admitir, envergonhados, o erro de havermos tolhido, nas urnas (e muitas vezes por meio de ignobeis ardis), uma voz que não poderia ter sido calada, ate porque veiculo de lucidez e experiência impares.

Infelizmente, na historia poli­tica do Brasil, não raros são os casos que revelam o despreparo da popula­ção em se cuidando da merecida e oportuna reverencia para com os seus mais dignos lideres – lembremos aqui, en passant, de Rui e de Ulysses Guimarães, ambos ceifados em seus elevados projetos políticos muitas vezes por mesquinhas artimanhas. Se chance ha de algum consolo ante tão lastimável vicissitude pátria, talvez esteja na esperança de que o exemplo advindo dessas superiores biografias, ultrapassando e, simbologicamente, vencendo a morte, ha de resultar, na pratica democrática cotidiana, em bons frutos.

De fato, nada ensina e persuade mais que o exemplo. Aqueles que mais viveram sabem que, para conhecer um homem, basta observar o que faz, não o que diz. Quando há coincidência absoluta entre as duas ações, a conclusão obvia e que se esta diante de um baluarte de inquestionável caráter e retidão moral. Assim era Josaphat Marinho, em relação ao qual todos os adjetivos parecem parcos e pouco precisos, tal a dimensão que atingiu em todas as áreas em que atuou. Aquinhoado por incomum senso de ética e equilíbrio, distinguido por notável inteligência, colocou todo o idealismo, a inesgotável capacidade de trabalho, dia apos dia, desassombradamente, em defesa do bem comum.

As pessoas que conviveram mais de perto com o professor jamais esquecerão da simplicidade, da jovial fidalguia, da lealdade, da ternura, da sabedoria, enfim, da bondade que lhe diferenciou cada gesto. O aplauso, ainda que não ouvido por quem de direito, ficara grafado, merecido e indelevelmente, nos anais da nossa história.

Assine nossa newsletter e receba a nossa revista digital, em primeira mão, no seu e-mail

Voltar ao topo